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domingo, 2 de fevereiro de 2025

Como poderia dizer posteriormente - exercício de desconto ou reconto

     

    Como poderia dizer posteriormente, nosso personagem ao iniciar esse relato estava indefinido. O autor pouco sabia de sua personalidade e pouco saberá após infindáveis linhas. Este se caracterizava por uma ligeireza de princípios. Uma brevidade de caráter. Nacionalista ufânico durante período ditatorial decidiu mudar-se para o exterior para se esvair do apego à pátria que o sufocava.

    Calçava sempre ele o pé esquerdo. Depois o direito. Benzia-se sempre ao acordar após o cochilo da tarde: três sinais da cruz. Acordava do sofá puído da sala com a impressão de que o tinham sacaneado. Batia em seu peito sempre a velha impressão de que haviam posto nele um marca-passo.

    Ao levantar, se debruçava em sutilezas como observar em que página haviam imprimido seu comentário sobre a Escola de Frankfurt ou seu breviário sócio-econômico sobre as relações entre Macau e Timor Leste. Quase sempre notava que o fora em página par. Xingava as várias gerações de Geraldo, o diagramador-chefe. Aquele disgramador-mor, pensava ele. Então tomava seu chá calmamente especulando em notar os mínimos detalhes das bolachas e biscoitos que dona Rosalinda sempre deixava pela mesa.

    Após responder a inúmeros rapapés, de certa forma tinha se acostumado com a burocracia que era ir de sua casa até a redação na outra esquina, lá estava ele a cutucar e provocar os mais incautos com seu espírito maledicente. Teria sido um fofoqueiro não fosse o excesso de jornalistas naquela redação. Sua mãe, finada Maricotinha, sempre havia dito que ele nasceu pra ser enxerido. Acabou sendo ombudsman, a opção mais inadequada, pensava.

    Ia ao jornal. Passeava por seu parque gráfico e voltava para casa esperando as calamidades do dia seguinte. Tinha sido recontratado há seis meses. Não passava um dia sem que algum novato o ameaçasse ou o agredisse física ou moralmente. A cada dia se tornava mais intolerante. Era uma bomba sem pavio. Bastava alguém se referir à Buenos Aires como Paris Sul-americana para ele redigir uma nota ao jornalista, um memorando à redação e, é claro, em seu espaço uma recomendação ao jornalista de voltar ao MOBRAL e introduzia ainda uma queixa de seu fim.

    Dizia ele: o MOBRAL foi feito para jornalistas. Poucos arriscavam trocar uma ou duas palavras com ele. Tinha fama de ser mais arisco que delegada do ministério do trabalho. Dizem que morreria de inanição se tivesse que pedir algo a alguém. Isso é que não fazia mesmo. Volta e meia levava esporros do chefe por estar comendo seus charutos. Dona Dondinha, a mulher do chefe e que era a segunda, por isso alguns a chamavam de Redondinha, não por seu físico curvilíneo do qual não se poderia tirar arestas ou sobras, estava tudo ali, trazia sempre ao meio-dia chucrute de couve e charutos de repolho com carne de carneiro.

    Era assim sua rotina. Em casa elaborava um artigo mirabolante sobre algum assunto hermético em que aproveitava pra alfinetar os colegas de redação, sobretudo quem havia escorregado na edição anterior. Exercia sem que lhe tivessem atribuído à função, a clara observância e a correção segundo seus próprios critérios do que deveriam ser textos jornalísticos.

    E sem que houvesse qualquer resistência, um excelente linotipista aposentado pagava pito a todos os pobres coitados que conviviam com aquele concentrado exemplar de sarcasmo e ironia. Os funcionários mais antigos nem mais se importavam com aquela figura dantesca. Já há muito sabiam que era apenas um estopim, uma bomba que explodia e depois voltava ao marasmo. Daí por que era conhecido como Tonho Traque.

    Sem dúvida foi uma figura muito importante. Um questionador da normalidade. A crítica em pessoa. Um grande criador de caso. Um cara que em vez de criar a polemica fora, a trazia pra dentro do jornal. Um cara que só não foi mais importante porque alguma caneta afiada achou seu peito. E hoje seu jornal enfarta sem o marca-passo que mantinha o coração do jornal vivo e vibrante.

    Morreu Antonio José João da Silva de causa ignorada que possa ter ocasionado um pequeno furo em seu peito sem deixar vestígio a não ser uma ponta estereográfica. Morreu o último jornal vivo deste pequeno país. Morre a inconsciência dos loucos que ainda bradavam contra os desvarios uniformes da mídia. Hiberna a esperança até que os hospícios já desativados, as escolas de loucos possam criar mais um.

Fica assim o mortuário de meu mestre e amigo Tonhão.

Um dândi

 

Sentia-se poderoso
Mesmo sendo imberbe mendigo
Pois tinha por precioso
A conveniência como abrigo

Vivia como que valsando
De sonhos sonhados
A sonhos perdidos
E pedra a pedra somando
Os desafios havidos

Andava como um deslumbrado
Por entre desfiladeiros cortantes
Por pedras que havia cruzado
Seus cortes eram diamantes

Sangrava como quem sangra de dentro
Lambia suas cicatrizes
Da vida se fazia o centro
Esquecendo as próprias raízes

E se ontem sabia quem era
Hoje não se importava
Pois se era homem e fera
Nada lhe assombrava

sábado, 1 de fevereiro de 2025

O fim da Política

    


As pessoas tendem a entender a política como a atividade dos políticos profissionais e participação como sufrágio eleitoral como eleição. Nós preferimos delegar a representantes o direito de escolher por nós os nossos próprios destinos e de nossas sociedades. Quase sempre nos limitando a julgar se votamos bem ou mal e quase nunca julgamos as discussões ou decisões em si.

    A ideia da política como ação, atuação dos homens presente em filósofos como Aristóteles e resgatada por filósofos como Karl Marx ou Hannah Arendt, embora sejam críticos do primeiro, parece uma ideia esquecida, presente apenas algumas vezes no domínio da teoria. A ideia de que são os homens que fazem a história que domina todas as ciências sociais atualmente e é amplamente aceita sem questionamento até mesmo pela maior parte das correntes filosóficas atuais, até porque seria um anacronismo negá-la, parece não ter nenhuma utilidade prática, pois os homens se negam a agir.

    Se pudermos dividir a política em a Política com “P” maiúsculo como Aristóteles chama aquela que se refere às ações na polis e política com “p” minúsculo aquela que se refere à forma de governo, a maneira de governar, ao formalismo em si, podemos dizer que desde a modernidade, ou talvez a idade média, a Política com “P” maiúsculo perde a importância e sobra somente a política com “p” minúsculo, as ciências políticas, um enorme rebuscamento tanto formal quanto jurídico para dificultar o acesso e a participação das pessoas na política.

    A própria ideia da política representativa e seus mecanismos parecem determinados a fazer com que o individuo se afaste da política. Segundo a filósofa contemporânea Hannah Arendt, o começo do desinteresse por política iniciou na Idade Média ou no Feudalismo quando o clero, ou melhor, a própria Igreja se “sacrificou pelos irmãos” ao assumir a política para que cada um cuidasse de sua própria subsistência, ou seja, da economia. Esse conceito atravessou a modernidade e chegou a nós contemporâneos, mas não parece explicar a apatia política existente. Até porque as próprias questões da sobrevivência só podem ser resolvidas pela política ou garantidas por esta.

    Quando a política deixa de ser atividade dos cidadãos, por poucos que sejam, para ser uma concessão de poder, o objetivo da política deixa de ser resolver os problemas da cidade ou do mundo ou solucionar as demandas de seus cidadãos para se tornar tão somente uma busca de poder. O que ocasiona um grave problema, pois a resolução dos problemas se torna tão somente, quando acontece, como mecanismo para ascender ao poder ou se manter lá, ou ainda como mecanismo para anestesiar as massas.

    Obviamente os problemas do ocaso da Política não resolveriam simplesmente pela revalorização da política, pois a revalorização da política simplesmente anestesiaria a população dos males da falta da Política, mas a retomada das ações dos homens poderia ser justamente um passo fundamental para essa mudança. É uma suposição razoável, mas ainda resta o problema da apatia política, pois sem a resolução desta não resolvemos nem o problema da política, nem o da Política.

 

O medo do medo: aonde vai nos levar?

 

Estamos na era do medo. Tomamos remédios porque não suportamos a infelicidade. Não me refiro aos deprimidos, porque depressão é uma doença séria e perigosíssima e sempre leva à perda da vida (ou de parte dela) quase sempre sem levar à morte física. Mas muitos além destes diariamente se automedicam tomando suas pílulas da felicidade. Não suportamos a dor mais. Creio que teremos muito menos poetas, menos pintores. Não precisamos mais das artes para alienar, aliviar a dor. Temos pílulas milagrosas. Nada contra elas. São um bem para a humanidade. Mas não deveríamos fugir de sermos humanos, mesmo que o humanismo em si tenha terminado no século XIX.

O ser humano para o ser (dasein) em sua completitude necessita ser completo. Existir de fato no mundo e sentir o que está a nossa volta. Ninguém pode te ensinar que as rosas machucam se exibir as rosas de floricultura com os acúleos cortados. É preciso levar os alunos ao jardim. Ser peripatético, andar pelo mundo, mesmo que entre aspas, para sentir o ambiente.

Ninguém pode sentir um alívio sem uma apreensão, dor anterior. Ninguém pode estará exultante por livrar seu dedo mínimo se ele não estiver antes debaixo de uma pedra ou prensa. É notável a metáfora da ostra e da pérola que diz que é preciso a dor, o incomodo para a ostra produzir a pérola. Traduz todo o processo de criação seja poética, seja filosófica, seja ação (Política) no sentido de Hannah Arendt ou Aristóteles.

Incomoda-me essa ideia de viver sem dores, ou seja, não viver. Porque tocar o chão descalço, sem anteparo é ser ferido pelas rochas, pelo piso, pela invasão da areia... Sem a dor, o incômodo, não somos nada!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

O panfleto de Kant ou a vã esperança da razão

        


  Certamente o maior exemplo da crença de que a razão poderia governar o mundo, proporcionar entendimento nos diálogos, o fim das guerras é o autor de Paz Perpétua, Immanuel Kant. Resposta à pergunta: Que é esclarecimento [<Aufklärung>]? o autor mostra suas esperanças na razão autônoma ou na, como preferiu denominar, na passagem da menoridade para a maioridade intelectual.

    Embora seja algo importante e valioso tentar ter uma razão autônoma, a história posterior veio a mostrar que até mesmo o conceito iluminista de sujeito é discutível. Quanto mais a ideia de um ser intensamente influenciado por sua comunidade e suas paixões dentre outras inúmeras coisas conseguir pensar autonomamente. Ser um cartesiano a se isolar de tudo e julgar de fora o objeto de sua conjectura.

    Kant define o esclarecimento como a saída da menoridade intelectual e moral, numa clara alusão à passagem da infância[1] para a vida adulta[2]. Kant faz uma analogia usando uma construção histórica, a infância[3], faz um discurso metafísico sobre uma condição do tempo dele e também do nosso, mas que não existia antes da modernidade e portanto não se refere a uma verdade eterna, problema no qual quase toda metafisica, pelo menos até Hegel esbarra e muitos filósofos contemporâneos que ainda pensam em metafisicas a-históricas ainda esbarram: o problema do fluxo do pré-socrático Heráclito ainda hoje milhares de anos após a morte deste.

    Entretanto como é uma metáfora não há nenhum problema, pois a metáfora pode se referir ao imaginário e ainda assim referir-se a situações reais. A questão de fundo é a autonomia, mais precisamente a autonomia de pensamento ou a razão autônoma. Um problema extremamente pertinente ao período no qual viveu Kant, no qual há uma revalorização da racionalidade e a separação progressiva entre filosofia e teologia, com a crescente autonomia tanto da filosofia quanto das ciências, que começaram o processo muito mais cedo, mesmo ainda dentro da filosofia, da teologia. A teologia perde essas muletas e perde muito do seu poderio e domínio. Por outro lado, a filosofia parece reencontrar sua autonomia, sua maioridade, pelo menos no discurso dos iluministas, nos quais Kant se insere, que chamam a Idade Média de Idade das Trevas ou A longa noite.

    A passagem da menoridade para a maioridade parece ser o chamado a esse novo tempo. A época que a humanidade pode alcançar a maioridade ao pensar por si própria. O fato de ele enfatizar nos exemplos a religião, por ser um reduto onde o dirigismo é valorizado, conforme ele próprio escreve:

Acentuei preferentemente em matéria religiosa o ponto principal do esclarecimento [<Aufklärung>], a saída do homem de sua menoridade, da qual tem a culpa. Porque no que se refere às artes e ciências nossos senhores não têm nenhum interesse em exercer a tutela sobre seus súditos, além de que também aquela menoridade é de todas a mais prejudicial e a mais desonrosa. (KANT, p.6).

    Nesse ambiente, Kant foi alimentado com ótimos argumentos para construir a sua tese, que é uma das fundamentais da Idade Moderna. Ou seja, que a maioridade intelectual é garantida pelo pensamento autônomo. A razão autônoma era justamente o que os primeiros filósofos da modernidade buscavam, este segundo Kant só poderia se manifestar publicamente, pois privadamente enfrenta obstáculos que não deixam a razão ser livre. A liberdade é, em termos aristotélicos, republicana, ou seja, garantida pelo desejo de bem comum que deve ser mais forte que o desejo particular de qualquer governante ou administração. Nesse sentido, Kant faz uma distinção entre as razões usadas nos empregos particulares, mesmo que tenham por objetivo o bem público, da razão usada publicamente: a primeira deve ser obediente aos preceitos do cargo e da autoridade a qual servem, a segunda deve ser livre e, portanto, autônoma.

    Embora Kant afirme que no espaço público atue a razão autônoma, ele demonstra que esta é propiciada por alguns, embora se torne propriedade pública como preceito e, portanto, ao mesmo tempo torna a razão do público não autônoma, pois esta é tomada como um preceito. Kant estabelece, assim, uma dialética do conhecimento onde um mesmo exercício que liberta também cria a dependência de outros. Mas Kant tem uma fé no aumento da liberdade através dos constantes exercícios da razão autônoma, pois cada vez mais, mais pessoas se libertam ao fazer uso da filosofia.

    Infelizmente ao se calcar na autonomia, a tese kantiana se torna complicada após o surgimento de Freud e Marx e sobretudo da Escola de Frankfurt que demonstram respectivamente o eclipse da razão e da autonomia da mesma. Mas ninguém pode negar que expressou muito bem a sua época.



[1] A palavra infância, do latim infantia, significa incapacidade de falar. Até a Idade Moderna considerava-se que a criança não teria condições de expressar seus pensamentos e seus sentimentos. A palavra infância carrega consigo o estigma da incapacidade, da incompletude, impondo-lhes uma condição subalterna diante dos adultos.

[2] Quando o ser passa a ser responsável por si mesmo.

[3] A infância é uma construção da Idade Moderna, a ideia de proteção e de latência inexistia até quase o fim da Idade Média.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Reflexões sobre Kafka e a modernidade tardia

     Perguntamos-nos se a mudança da autonomia para a heteronomia seria um dos fatores que divide as etapas da modernidade. E se em caso afirmativo, as obras de Franz Kafka são um retrato dessa mudança? Buscamos investigar se os livros de Franz Kafka retratam uma sociedade em que a política (enquanto poder ou Estado) invade o domínio particular e substitui o papel central da razão da primeira fase da modernidade pela opressão da cultura (no sentido mais amplo que se possa dar à cultura). Assim a sujeição do Sujeito (Ego) ao Pai ou ao Estado (Superego) na obra de Franz Kafka possivelmente retrate a mudança de etapa na modernidade.

    Assim pensando na troca da autonomia pela heteronomia como uma das principais condições para o surgimento de uma segunda etapa da modernidade, no livro Carta ao pai de Franz Kafka, o autor demonstra ser oprimido por algo externo: seu pai que lhe repassa os valores societários e reage, dentro de suas possibilidades ao que lhe impede de ser tão autônomo quanto gostaria.

    Na aurora da modernidade como resposta à heteronomia da Idade Média, surge um sujeito autônomo que garante sua autonomia usando a razão. Segundo Nery:

Com a inauguração dos tempos modernos, o homem se torna o centro, a medida do conhecimento em que tudo está estritamente ligada à razão. Daí a importância da compreensão da modernidade para, então, se compreender como foi descoberta a ideia de sujeito, de agente dominador. [...] Não é mais a vontade da divindade e entidades que garantem ou definem o sentido do agir humano, é o próprio sujeito quem dá significado à sua existência. O próprio indivíduo é responsável pelo progresso ou decadência da sua vida. (NERY, 2011, p.34 e 35).

    Nery afirma que o grande propagador do projeto moderno, o Iluminismo, depositou uma confiança cega e ilimitada na razão. Esta chegaria “a um estágio de desenvolvimento que ela seria capaz de dissipar as trevas da ignorância que obscurecem o espírito humano” (2011, p.35 e 36). E, partindo do mesmo pressuposto, Habermas demonstra como a exacerbação dos valores da modernidade conduz ao esvaziamento do sujeito.

O mundo de exteriorização e apropriação das forças essenciais deve-se, por um lado, à dinamização do conceito aristotélico da forma: o indivíduo desdobra suas forças essenciais mediante sua própria atividade produtiva; e, por outro, à mediação conduzida pela filosofia da reflexão do conceito aristotélico com o conceito de forma estética: as objetivações, nas quais a subjetividade assume forma exterior, são simultaneamente a expressão simbólica de um ato de criação consciente e de um processo inconsciente de formação. A produtividade do gênio artístico é, por isso, o protótipo para uma atividade em que autonomia e auto-realização se unificam de tal modo, que a objetivação das forças humanas essenciais perde o caráter coercitivo em face da natureza tanto externa como interna. (HABERMAS, 2000, p. 111 e 112).

    Nery caracteriza mais detalhadamente esse fenômeno que é a desconstrução do sujeito “onipotente” da primeira fase da modernidade. Mostra como o capitalismo e a sociedade civil vão desarticulando e mostrando o quão eram falsas as liberdades do início da modernidade até o seu auge com Kant e depois Hegel. Nery mostra sobretudo como é a própria radicalização do sujeito, ou melhor de sua individualidade que leva a isso:

Numa incessante busca do seu bem-estar e uma supervalorização do EU, o indivíduo moderno torna-se frágil e vulnerável á medida que se fecha para o outro e imerge dentro de si. Esse individualismo estimulado pelo consumismo foi esvaziando o sujeito a tal ponto que ele já não tem mais forças para lutar pelos ideais comunitários e transfere a responsabilidade política para os partidos por não ter tempo disponível para a “res publica” estando envolvido nos seus próprios negócios, em seu mundo, cuidando dos seus interesses. [...] Todas as instituições, organizações e todos os valores estão sendo esvaziados de sua substância. O saber, o poder, o trabalho, o exército, a família, a Igreja, já não estão em funcionamento como princípios absolutos e intangíveis. Há uma descrença geral em todos eles. [...] Entretanto, o sistema funciona e as instituições se desenvolvem multiplicando-se assustadoramente, a diferença é que agora num ritmo livre e leve, no vazio e sem sentido. É preciso saber viver ou sobreviver nos “espaços desativados”. (NERY, 2011, p.42 e 43).

    Sigmund Freud, que juntamente com Nietzsche e Marx, são responsáveis pelas três investidas mais impactantes contra a autonomia do sujeito, propôs que o homem além do eu (ego), é controlado por outras duas instâncias: o ID (instintos, o original) e o Superego (a domesticação do Complexo de Édipo). Deste modo Freud explica a formação do Superego como superação do Édipo e consequentemente uma parte do Id (dos instintos) dentro do Ego (o Eu racional):

O superego, contudo, não é simplesmente um resíduo das primitivas escolhas objetais do id; ele também representa uma formação reativa enérgica contra essas escolhas. A sua relação com o ego não se exaure com o preceito: ‘Você deveria ser assim (como o seu pai)’. Ela também compreende a proibição: ‘Você não pode ser assim (como o seu pai), isto é, você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele.’ Esse aspecto duplo do ideal do ego deriva do fato de que o ideal do ego tem a missão de reprimir o complexo de Édipo; em verdade, é a esse evento revolucionário que ele deve a sua existência. É claro que a repressão do complexo de Édipo não era tarefa fácil. Os pais da criança, e especialmente o pai, eram percebidos como obstáculo a uma realização dos desejos edipianos, de maneira que o ego infantil fortificou-se para a execução da repressão erguendo esse mesmo obstáculo dentro de si próprio. Para realizar isso, tomou emprestado, por assim dizer, força ao pai, e este empréstimo constituiu um ato extraordinariamente momentoso. O superego retém o caráter do pai, enquanto que quanto mais poderoso o complexo de Édipo e mais rapidamente sucumbir à repressão (sob a influência da autoridade do ensino religioso, da educação escolar e da leitura), mais severa será posteriormente a dominação do superego sobre o ego, sob a forma de consciência (conscience) ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa. (FREUD, 1927)

    O fundador da psiquiatria mostra que o Superego (ou ideal do Ego) tem uma natureza tanto histórica quanto biológica o que o aproxima muito do tipo de construção que Piaget, Genet e os estruturalistas proporiam bem depois. Mas a coincidência se resume apenas a essa conjunção biológico temporal, pois Freud privilegia os aspectos morais. Desse modo, Freud demonstra como os valores de autoridade são internalizados. Mostra que através do desejo do poder do pai que tem a posse do que mais deseja, o menino passa a incorporar os valores do pai por cópia. Tudo isso graças ao processo de domínio do Complexo de Édipo:

Erigindo esse ideal do ego, o ego dominou o complexo de Édipo e, ao mesmo tempo, colocou-se em sujeição ao id. Enquanto que o ego é essencialmente o representante do mundo externo, da realidade, o superego coloca-se, em contraste com ele, como representante do mundo interno, do id. Os conflitos entre o ego e o ideal, como agora estamos preparados para descobrir, em última análise refletirão o contraste entre o que é real e o que é psíquico, entre o mundo externo e o mundo interno. (FREUD, 1927)

    Ele também demonstra, o que é mais importante para nossa tese, que o processo não termina neste momento, mas prossegue por toda a vida como incorporação da autoridade. Afirma ele:

É fácil demonstrar que o ideal do ego responde a tudo o que é esperado da mais alta natureza do homem. Como substituto de um anseio pelo pai, ele contém o germe do qual todas as religiões evolveram. O autojulgamento que declara que o ego não alcança o seu ideal, produz o sentimento religioso de humildade a que o crente apela em seu anseio. À medida que uma criança cresce, o papel do pai é exercido pelos professores e outras pessoas colocadas em posição de autoridade; suas injunções e proibições permanecem poderosas no ideal do ego e continuam, sob a forma de consciência (conscience), a exercer a censura moral. A tensão entre as exigências da consciência e os desempenhos concretos do ego é experimentada como sentimento de culpa. Os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ideal do ego. [...] A religião, a moralidade e um senso social - os principais elementos do lado superior do homem - foram originalmente uma só e mesma coisa. Segundo a hipótese que apresentei em Totem e Tabu, foram filogeneticamente adquiridos a partir do complexo paterno: a religião e a repressão moral através do processo de dominar o próprio complexo de Édipo, e o sentimento social mediante a necessidade de superar a rivalidade que então permaneceu entre os membros da geração mais nova. (FREUD, 1927)

    Em seu livro Totem e Tabu, Freud, falando sobre obsessão (dos neuróticos),[1] afirma que “a [...] mais óbvia coincidência das proibições obsessivas [...] com o tabu está em que são igualmente desprovidas de motivação e enigmáticas em sua origem” (2013, p. 21). Há um paralelo formidável também com a internalização da autoridade pelo superego, que embora descrito pelo psiquiatra como forma de superação do Complexo de Édipo, atua de maneira inconsciente como intromissão do Id no Ego. Freud prossegue a explicação:

Apareceram um belo dia e têm de ser observadas, devido um medo invencível. É desnecessária uma ameaça de castigo externa (uma consciência) de que a transgressão ocasionará uma intolerável desgraça. O máximo que um doente obsessivo pode comunicar é o vago pressentimento de que uma determinada pessoa de seu ambiente será prejudicada por tal transgressão. Não se sabe qual será este prejuízo, e mesmo essa pouca informação é obtida mais por ocasião dos atos expiatórios e defensivos [...] do que das proibições mesmas. (FREUD, 2013, p. 21 e 22)

    Como podemos notar, há mais semelhanças ainda entre os tabus e as determinações do superego para as quais a sanção apesar de temida não é clara, possivelmente até desconhecida. É bom lembrar que essas determinações do superego constituem segundo as próprias palavras de Freud o mais nobre de nosso ego. Estão relacionadas à nossa civilidade como podemos encontrar em outro livro dele: O mal estar da civilização onde demonstram que as instituições civilizatórias como escolas e igrejas castram o que há de mais natural e original no sujeito, mas possibilitam a civilização, a convivência civilizada.

    É sobre esse caldo todo que procuraremos entrecruzar as informações e tentar demonstrar a factibilidade da tese que é o máximo que poderemos fazer, provar sua veracidade fica para pesquisadores mais argutos e com maior conhecimento das partes. Primeiro é preciso demonstrar uma possível relação entre a compreensão filosófica e a psicológica da passagem da primeira para a segunda fase da modernidade[2]. Depois será tentado correlacionar a obra Carta ao Pai de Franz Kafka com as manifestações do superego e as mudanças ocasionadas pelo período, tanto do surgimento no autor do superego quanto com as relações societárias percebidas a partir da segunda fase do modernismo.

    Cabe então fazer uma breve contextualização, já que o início já está longe, tentando correlacionar os conceitos sobre a mudança da percepção entre as fases da modernidade. É interessante lembrar que a primeira fase está alicerçada (ou fundada, não sei qual termo expressa melhor) na autonomia do sujeito, ou seja, de um eu (ego) independente. É bom lembrar que o mais autentico da modernidade, o iluminismo, firma-se precisamente na oposição entre a idade da luz (da razão, podemos traduzir precariamente em um ego) e a idade das trevas (onde a razão não tem domínio, portanto anterior ao ego o que pra Freud seria um Id ainda não domesticado) [3]. A segunda fase da modernidade surge exatamente da descoberta de que o sujeito não é tão autônomo como se pensava.[4] Curiosamente o superego é exatamente a constatação feita por parte do Id ao domínio egóico. Para Freud, ao contrario do que comumente se pensa as três instancias[5] não são independentes, sequer são definitivamente separadas. Há uma parte do Id (inconsciente) restante dentro do Ego (consciente) e parte desse Id se transforma em Superego. Essa parte do Inconsciente transformada se transforma numa instancia que está sempre a cobrar as falhas do Ego. A segunda fase da modernidade não nasce justamente com esse pensamento: a fragilidade do sujeito (eu, ego) ou da racionalidade do sujeito ou do sujeito racional? Obviamente raciocinar por paralelismos não pode assegurar veracidades, só garante semelhanças, mas o que se pretende é tão somente levantar um assunto, demonstrar sua viabilidade.

    Rosa afirma que Franz Kafka “[...] trata de modo constante e progressivo o tema da Lei e, em especial, da Lei paterna”.  Ela exemplifica isso ao revelar que o escritor considerou a possibilidade de publicar um volume intitulado "Punições", que incluiria as obras: O veredicto (1912), A metamorfose (1915) e Na Colônia Penal (1914). Ao descrever a obra, Rosa mostra como a sombra da autoridade paterna debilita o autor:

Em O Veredicto (KAFKA, 1998[1912]), surpreendemo-nos com o despertar aparentemente imotivado e caprichoso da ira paterna, ira que dará lugar ao enunciado de uma sentença de morte ("eu o condeno à morte por afogamento") que o filho se apressará em cumprir. Em A Metamorfose (KAFKA, 1965[1915]), um dia o filho acorda transformado em inseto e enfrenta o poder destrutivo do pai. Em Na Colônia Penal (KAFKA, 1998[1914]), temos um observador que assiste a uma cerimônia de tortura e execução, cerimônia levada a efeito por uma máquina, operada por um oficial, que escreve nas costas de cada condenado a sentença que lhe cabe: o sujeito recebe assim, na carne, o peso da Lei.

    A própria perda de potencia do sujeito na segunda fase da modernidade está também bem expressa em Kafka, segundo Carone apud Rosa:

[...] diante do impasse moderno da perda da noção de totalidade, aquele que narra, em Kafka, não sabe nada ou quase nada sobre o que de fato acontece - do mesmo modo, portanto, que o personagem. Trata-se, quando muito, de visões parceladas, e é essa circunstância que obscurece o horizonte da narrativa e obriga quem lê a mapear por dentro a falsa consciência se se quiser, a alienação -, pois o narrador não tem chance de ser um agente esclarecedor ou 'iluminista' (CARONE apud ROSA).

    Outros traços como a perversidade do Superego e como ele fragiliza o Ego com as suas constantes criticas infundadas também estão presentes em Kafka. Benjamin apud Rosa mostra como em vários livros de Kafka,

[...] o pai é a figura que pune. A culpa o atrai, como atrai os funcionários da Justiça. Há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais são idênticos para Kafka. Essa semelhança não os honra. Ela é feita de estupidez, degradação e imundície. O uniforme do pai é cheio de nódoas, sua roupa de baixo é suja. A imundície é o elemento vital do funcionário (BENJAMIN apud ROSA).

    O sujeito (ou o ego) é tão fragilizado que mesmo o pai, embora sua autoridade persista se torna o mesmo nada que os personagens angustiados de Kafka. É como se os homens fosse niilizados segundo Rosa:

A atração pela culpa une o pai aos funcionários da Justiça, degradando-os e lançando na abjeção o mundo do funcionalismo e em seu funcionamento burocrático. Se nos servirmos da teoria da burocracia, tal como a concebeu Max Weber (2010) em seu A ética protestante e o espírito do capitalismo, encontramos entre seus elementos definidores uma impessoalidade que faz com que os funcionários se limitem a cumprir tarefas em um funcionamento considerado completamente previsível, dado que fundado em normas e regulamentos rígidos que acabam sendo um fim em si mesmos. Além dessa última, a burocracia gera disfunções tais como um formalismo excessivo, uma conformidade à rotina, uma incapacidade de lidar com a informalidade e a variabilidade humana e, essencial para o que nos interessa no momento, uma despersonalização. Posto isso, ao aproximar o pai dos funcionários da Justiça, Kafka deixa subentendida uma leitura da função paterna não apenas pela via de uma satisfação pulsional perversa, uma vez que atraídos pela culpa, mas também pela via da burocracia, ou seja, da impessoalidade, da despersonalização, [...] do anonimato.

    Portanto, os textos de Kafka, de forma metafórica espelham o seu tempo com sujeitos debilitados e oprimidos por suas obrigações, por uma sociedade burocrática. A burocracia é fruto da modernidade e é exaltada por Hegel, por exemplo, um dos filósofos que mais exaltaram o progresso do mundo moderno e a sociedade burocrática como espaço da liberdade. Kafka demonstra exatamente o oposto, pois, apoia-se no espirito de seu tempo já bastante influenciado pela alienação de Marx, o Inconsciente de Freud e a crítica da razão de Nietzsche.

    Basta ler trechos do inicio da carta de Franz Kafka a seu pai para perceber como o poder paterno repercute nele como um apequenador que o torna quase um não-sujeito. Mostra como o psicológico torna a autoridade do pai, mesmo fora de seu papel típico, grandiosa e assustadora. Vejamos:

Querido Pai:

Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. [...] também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento. [...] Naturalmente não digo que me tornei o que sou só por influencia sua. Seria muito exagerado (e até me inclino a esse exagero). É bem possível  que, mesmo que eu tivesse crescido totalmente livre da sua influência, eu não pudesse me tornar um ser humano na medida do seu coração. Provavelmente seria um homem sem vigor, medroso, hesitante, inquieto [...], mas completamente diferente do que sou na realidade [...] Eu teria sido feliz por tê-lo como amigo, chefe, tio, avô, até mesmo (embora mais hesitante) como sogro. Mas justamente como pai você era forte demais pra mim, principalmente porque meus irmãos morreram pequenos, minhas irmãs só vieram muito depois e eu tive, portanto, de suportar inteiramente só o primeiro golpe, e para isso eu era fraco demais. (KAFKA, 1997, p.7, 9 e 10)

    Como se vê demonstrando muitos dos os elementos do mito da formação do superego, tal como a fragilidade com relação ao adulto que detém poderes que ele não dispõe e que torna a luta desigual.  No mesmo livro estão presentes também o temor da autoridade provocado pelo superego e a fragilização da autonomia do sujeito que mesmo podendo decidir sem nada que materialmente ou realmente o entrave, se torna um vacilante, inseguro das decisões mais seguras que pudesse tomar.

 

Referencias:

KAFKA, Franz. Carta ao Pai. São Paulo: Companhia das letras, 1997. 88p.

FREUD, Sigmund. Ego, Id e outros trabalhos – volume XIX de Obras Completas de Freud. Londres: Hogarth Press e Instituto de Psicanálise, 1927.

FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013. 169p.

HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 540p.

NERY, Daniel. A discussão filosófica da modernidade e da pós-modernidade. Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 in http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistalable/3_DANIEL_NERY_DA_CRUZ.pdf

(http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=1984-0292)

ROSA, Márcia. Franz Kafka: a ultrapassagem da burocratização da instância paterna e da voz áfona do supereu.  Fractal : Revista de Psicologia vol.23 no.2. Rio de Janeiro, 2011 in (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=1984-0292)



[1] É bom não se impressionar obsessivamente pela palavra que para alguns ainda é tabu apesar de vivermos numa sociedade neurótica e obsessiva (vejamos o consumo, o medo, a insegurança pessoal, etc.).

[2] A conceituação das duas fases está no início do texto.

[3] Em Ego, Id e outros trabalhos, Freud mostra que o Ego é uma domesticação de parte do Id ainda na pré-história.

[4] Os três principais pensadores que introduziram essa dúvida já foram anteriormente citados: Freud, Marx e Nietzsche.

[5] Id, Ego e Superego

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

A verdade e o verdadeiro

 

É uma obrigação moderna conhecermos a verdade para manifestá-la mesmo quando estamos mentindo, isto é negando-a. Na modernidade, toda a natureza, isto é, todo o ambiente que nos cerca é matéria-prima para ser manipulada por nós. É nossa propriedade, por assim dizer. Sobretudo a verdade, nossa mais trivial matéria-prima. Tornamo-nos donos da verdade.

Poxa! Mas quanta besteira tu falas! Não há verdades universais! Nem que dois mais dois são quatro, pois é pura analítica, uma verdade que encerra a si mesma, que apenas admite verificação. Uma verificação inútil, pois apenas confirma a si mesma. Pois bem... Como é feito nosso pensamento? Nós não pensamos quase sempre através de preconceitos (de antes dos conceitos), de verdades prontas, anátemas, como tudo o que é líquido molha, os cisnes são brancos, nossos genes determinam quem nós somos ou a inversa: nós somos o que aprendemos ser. Mesmo todos sabendo que ninguém é. Tudo flui (panta-rei).

Temos verdades prontas que nos livram da dor de parir um conceito. Conceito não é uma coisa simples. Pode nascer de um insight, “um clique”, mas é preciso trabalhar muito um clique para delimitar seu universo, testar todos os limites, conhecer todo o universo particular “concebido”, conhecer suas propriedades. E mesmo depois de tudo isso, se maravilhar por ter construído um ponto de partida ou uma ponte para o que futuramente poderá ser aí sim um conceito.

As verdades nos dão uma enorme segurança num mundo pós-iluminista no qual as incertezas e o desconhecido são “buracos negros”, sugam-nos e nos jogam no limbo, na estranheza. Não admitimos estar num mundo desconstruído, tudo necessita ser palpável, abaixo de nós sempre terá um chão. É inadmissível andar pelo teto, mesmo que a Terra esteja de cabeça pra baixo. Temos uma orientação universal. Não importa se estamos de um lado ou de outro, acima ou abaixo: sempre abaixo de nós está o chão e acima o teto ou o céu. Alimentamo-nos de verdades inquestionáveis. Ai de quem as examine!

A modernidade morta nas artes e arquitetura, transformada na filosofia e nas ciências ainda é a doutrina nas nobres aplicações das ciências (engenharias e medicina) e da filosofia (pedagogia e direito). A maioria dos engenheiros, médicos, professores, advogados, juízes, promotores sabem que a razão iluminista falhou. No entanto, sabem que o uso delas manteve a eficácia. Um bom médico não pode se importar se a aplicação de um placebo com muito menores efeitos colaterais surte mais efeito que o fármaco indicado para a enfermidade. A não ser que seja um purista disposto a arriscar a saúde do paciente em nome de uma verdade. 

Diplomacia

  Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava ...