Grutas deram origem ao grotesco? Provavelmente não. Mas à palavra, existe
alguma relação? Segundo a etimologia ambas descendem de uma palavra que
designava cavidade. Grotesco vem da descoberta de um palácio soterrado que foi
entendido primeiro como cavernas, grutas.
Ao contrario do que se supõe os humanos pré-históricos não viviam em
cavernas. Não tinham uma família nuclear mesmo no início da agricultura. Nem as
crianças conheciam seus pais. Apenas suas mães porque nasceram factualmente delas.
De suas grutas.
Entretanto a sociedade evoluiu para o outro lado. Discriminou o grotesco.
Tomou o rumo fálico de valorizar o pau, depois a espada, depois a espingarda ou
revolver. Trocou o acolhimento pela porrada. Tornou a conquista de territórios,
campos livres para colher, caçar e depois plantar primordial. Não o
acolhimento. Foi preciso separar os territórios, criar governos.
Cooperar para sobreviver se tornou inócuo até que a realidade obrigue a
voltar. Tudo se tornou uma venda de ilusões, sobretudo a maior delas:
autonomia. Autonomia não é, nem nunca foi igual a livre-arbítrio. Este nunca
garantiu sobrevivência. Autogoverno é precisamente sobreviver sozinho, o que é impossível
se essa autogestão não for apenas um simulacro para maior conforto dentro de
uma realidade de intensa cooperação.
Mesmo todo mundo sabendo que deseja impor seus desejos aos outros, todo
mundo continua jogando de modo a simular meras trocas comerciais para acobertar
a incessante cooperação. Assim nasceu nosso Mogli no meio do mato. Que na
verdade não era um mato, mas um vilarejo. Que nem era tão isolado. Era um condomínio
quase no centro da cidade.
A consciência disso tudo o tornou vendedor da realidade. Trabalhar com pirâmides
financeiras tão estruturadas quanto a dos bancos. Sabia que tudo o que o circundava
era ilusões. Vendia seu seguro, sua assessoria para que empreendedores não
caiam na ilusão fatal do autoengano. Acreditarem-se probos num mundo onde não há
inocentes. Dizia que qualquer um poderia se dizer honesto, mas acreditar-se
como tal é o autoengano que o conduzirá à bancarrota.
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