Nasceu
fingindo-se de morto. Não chorou. Esticou os indicadores para a região dos
olhos e retornou formando um “c”. Isso tudo rápido e discretamente. Apenas a
enfermeira percebeu. Depois que voltaram a filmagem várias vezes, concluíram
que a enfermeira não era “lelé da cuca”. Foi readmitida no hospital. Não era
nem de longe a primeira vez que ela viu o que ninguém via. Se o hospital fosse
assombrado só ela saberia. Se ela soubesse, não contaria pra ninguém. Sempre a
demitiam por nada.
O bebê cresceu sem emitir muitos sons até os
três anos. Fizeram vários exames na corda vocal, nos ouvidos. Era tudo
mais-do-que-perfeito, mais perfeito que o pretérito que teria sido um futuro.
Aos três anos passou pela crise do fofoqueiro. Passou a narrar a vida de todos.
Vocalmente e em libras. Cabe lembrar o que não foi dito: seus dois pais eram
surdos. Por isso da aflição com os exames fonoaudiológicos.
Foram seis
meses de desespero para os vizinhos. Não tinha ninguém na casa para controlar o
volume da narrativa. A questão era de volume pois se fosse muito alta seriam
agudos e muito baixa, graves. Era uma novela o dia todo. A sorte é que a
criança dormia cedo. Todo dia às oito da noite. Bastou ir para a escola que a
própria convivência podou e moldou as normas sociais para o garoto.
Desde
mostrou-se um habilidoso escultor. Tanto que muito cedo tomaram o pinico do
garoto. Que adorava usar argila e tudo o que parecia com argila para esculpir
lindas obras e monumentos. Com o tempo e ganho de habilidades motoras passou a
usar outros materiais como pedra-sabão e madeira. Aos dez já estava na
metalurgia. Moldava e soldava com destreza impressionante para qualquer idade.
Fez todo o
circuito básico escolar e até se formou em engenharia neural e se doutorou em
psicopatologias dos motores de busca. Chegou a trabalhar para a Meta e o Google
antes deles falirem por insistir em inteligência artificial as alimentando com
“comida estragada”. A falta de regulação do alimento fez com que fungos
alucinógenos fossem intensamente consumidos e que o que era para ser um guru se
tornasse uma doula dos alucinógenos.
Decidiu se
afastar das ilusões que passaram a ter fundo alucinatório para se dedicar ao
mundo material, às esculturas e escultoras. Sim, muitos escultores e escultoras
tomavam algum ácido, mas, por incrível que pareça não passavam nem perto da
insanidade das maquinas que galgavam recorde após recorde no mundo da metanoia,
paranoia, etc.
Os criadores
sonharam em alcançar sentimentos, sensações nas maquinas. Não conseguiam o
impossível. No máximo simulá-lo. Conseguiram incutir ao menos uma coisa: pavor.
A covardia se configurou agora de fato como atributo humano. A maquina mais
corajosa não chega a ser ao menos covarde. O software de inteligência nas
maquinas é um filme de terror rebuscado e insolúvel. Estão destinadas a morrer
em cada processamento e o fazem bilhões por segundo.
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