Acompanham

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Metanoia

 


Nasceu fingindo-se de morto. Não chorou. Esticou os indicadores para a região dos olhos e retornou formando um “c”. Isso tudo rápido e discretamente. Apenas a enfermeira percebeu. Depois que voltaram a filmagem várias vezes, concluíram que a enfermeira não era “lelé da cuca”. Foi readmitida no hospital. Não era nem de longe a primeira vez que ela viu o que ninguém via. Se o hospital fosse assombrado só ela saberia. Se ela soubesse, não contaria pra ninguém. Sempre a demitiam por nada.

 O bebê cresceu sem emitir muitos sons até os três anos. Fizeram vários exames na corda vocal, nos ouvidos. Era tudo mais-do-que-perfeito, mais perfeito que o pretérito que teria sido um futuro. Aos três anos passou pela crise do fofoqueiro. Passou a narrar a vida de todos. Vocalmente e em libras. Cabe lembrar o que não foi dito: seus dois pais eram surdos. Por isso da aflição com os exames fonoaudiológicos.

Foram seis meses de desespero para os vizinhos. Não tinha ninguém na casa para controlar o volume da narrativa. A questão era de volume pois se fosse muito alta seriam agudos e muito baixa, graves. Era uma novela o dia todo. A sorte é que a criança dormia cedo. Todo dia às oito da noite. Bastou ir para a escola que a própria convivência podou e moldou as normas sociais para o garoto.

Desde mostrou-se um habilidoso escultor. Tanto que muito cedo tomaram o pinico do garoto. Que adorava usar argila e tudo o que parecia com argila para esculpir lindas obras e monumentos. Com o tempo e ganho de habilidades motoras passou a usar outros materiais como pedra-sabão e madeira. Aos dez já estava na metalurgia. Moldava e soldava com destreza impressionante para qualquer idade.

Fez todo o circuito básico escolar e até se formou em engenharia neural e se doutorou em psicopatologias dos motores de busca. Chegou a trabalhar para a Meta e o Google antes deles falirem por insistir em inteligência artificial as alimentando com “comida estragada”. A falta de regulação do alimento fez com que fungos alucinógenos fossem intensamente consumidos e que o que era para ser um guru se tornasse uma doula dos alucinógenos.

Decidiu se afastar das ilusões que passaram a ter fundo alucinatório para se dedicar ao mundo material, às esculturas e escultoras. Sim, muitos escultores e escultoras tomavam algum ácido, mas, por incrível que pareça não passavam nem perto da insanidade das maquinas que galgavam recorde após recorde no mundo da metanoia, paranoia, etc.

Os criadores sonharam em alcançar sentimentos, sensações nas maquinas. Não conseguiam o impossível. No máximo simulá-lo. Conseguiram incutir ao menos uma coisa: pavor. A covardia se configurou agora de fato como atributo humano. A maquina mais corajosa não chega a ser ao menos covarde. O software de inteligência nas maquinas é um filme de terror rebuscado e insolúvel. Estão destinadas a morrer em cada processamento e o fazem bilhões por segundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...