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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cada um mora onde quer

 


Conta a história. Sempre contam uma história. Dizem que os que não foram, ficaram. Não posso afiançar isso. Alguns morreram pelo caminho. Não de morte matada, mas de morte morrida. Meio estranho dizer isso. Porque toda morte morrida é meio matada. O tempo que morre é o mesmo que te mata. Mas, certamente, entre mortos e feridos, ficaram os feridos. Os que não ficaram materialmente, guardaram cicatrizes dolorosas na alma.

Atravessar de uma esquina a outra é mortal. Tem no mínimo três bares e duas lanchonetes no caminho. Sem contar com a melhor padaria da cidade. Onde você pode pedir um lindo misto-quente e ganhar uma facada ou duas. Haja fígado pra atravessar o purgatório. Nos bares tem sempre um conhecido, talvez até um amigo, que ficou de ontem e está bebendo pra evitar a ressaca.

Entre o primeiro bar e o segundo, o morador de rua de estimação do bairro. Ele trabalha e manhã na padaria. À noite num dos bares. De tarde, a gente anda pé ante pé pra não acordar ele. Fizeram um abrigo perto do hidrante para ele. A prefeitura foi obrigada a ignorar. Coisa que ela tem muita prática. Tem sempre um vereador de direita querendo expulsá-lo do bairro. Tem sempre um de esquerda tentando obriga-lo a morar numa casa. Ele resiste a ambos e a comunidade o apoia: cada um mora onde quer.

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