Conta a história.
Sempre contam uma história. Dizem que os que não foram, ficaram. Não posso
afiançar isso. Alguns morreram pelo caminho. Não de morte matada, mas de morte
morrida. Meio estranho dizer isso. Porque toda morte morrida é meio matada. O tempo
que morre é o mesmo que te mata. Mas, certamente, entre mortos e feridos,
ficaram os feridos. Os que não ficaram materialmente, guardaram cicatrizes dolorosas
na alma.
Atravessar de
uma esquina a outra é mortal. Tem no mínimo três bares e duas lanchonetes no
caminho. Sem contar com a melhor padaria da cidade. Onde você pode pedir um
lindo misto-quente e ganhar uma facada ou duas. Haja fígado pra atravessar o
purgatório. Nos bares tem sempre um conhecido, talvez até um amigo, que ficou
de ontem e está bebendo pra evitar a ressaca.
Entre o primeiro
bar e o segundo, o morador de rua de estimação do bairro. Ele trabalha e manhã
na padaria. À noite num dos bares. De tarde, a gente anda pé ante pé pra não acordar
ele. Fizeram um abrigo perto do hidrante para ele. A prefeitura foi obrigada a
ignorar. Coisa que ela tem muita prática. Tem sempre um vereador de direita
querendo expulsá-lo do bairro. Tem sempre um de esquerda tentando obriga-lo a
morar numa casa. Ele resiste a ambos e a comunidade o apoia: cada um mora onde
quer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário