Desejava não
ter nascido. Porque quem nasce, morre. Acreditava que se tivesse morrido,
talvez fosse agora um elefante. Ou uma águia. Provavelmente seria uma pulga a
importunar a dobra da orelha de alguma girafa. Estaria destinada a planar
indefinidamente até se estabancar no chão. Provavelmente protegida da queda por
alguma palha ou fezes mesmo.
Isso se fosse
indiano. Como era cosmologista, provavelmente seu ser, já diluído no universo,
estaria desintegrado nele. Gostaria de ser cristão. Acreditar em céu ou inferno
para torturar sua alma. Seria um pós-vida com sentimentos, sensações. Não o blasé
de estar lá, mas sem estar, sem consciência, sem sentimentos.
Desde muito
cedo saiu pelo mundo de seu quintal ou de seu bairro admirando os incontáveis mistérios
da natureza. Aprendeu a contemplar cada queda de folha, cada abrir de flor. Cada
manhã em sua vida uma caminhada de meditação, bruscamente interrompidas por
cheiro de café ou de lúpulo várias vezes. Era preciso se concentrar. Saia sempre
do Jardins com destino ao cemitério onde a vida era intensamente exaltada por
quem já tivera mostra do fim. Só os terminados estavam em paz.
Construía
coroas a gosto do freguês. Consumidores exigentes que se ligavam muito nos
detalhes. Ouvia discussões infernais de almas caridosas sobre ações que em nada
alteravam o estado do falecido. Era um ser muito paciente e nada emocionado,
embora quase sempre tivesse que fingir alguma empatia. Era melhor assim. Se fosse
emocionado como alguns de seus colegas certamente bateria boca com os clientes
como presenciou várias vezes.
Tinha sempre
que madrugar na antiga Cobal pra comprar as mais variadas flores. Flores das
mais variadas cores. Dos mais variados odores. Algumas nem acreditava que eram
tão vendidas por causa do odor insuportável. Entretanto tinha a oportunidade de
achar flores exóticas e belas que sempre guardava para sua netinha. Podia toda
manhã tomar um breve desjejum com os amigos antes de se deslocar pra próximo ao
cemitério.
Não era uma
má vida. Embora sua vida fosse prioritariamente a morte. Menos quando sua linda
netinha visitava sua casa lá pelas 19, 20 horas. Pouco antes de atravessar dois
domicílios pra dormir em sua casinha. Amanhã de madrugada estarei na labuta. Então...
boa noite!
Nenhum comentário:
Postar um comentário