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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Floricultura

 


Desejava não ter nascido. Porque quem nasce, morre. Acreditava que se tivesse morrido, talvez fosse agora um elefante. Ou uma águia. Provavelmente seria uma pulga a importunar a dobra da orelha de alguma girafa. Estaria destinada a planar indefinidamente até se estabancar no chão. Provavelmente protegida da queda por alguma palha ou fezes mesmo.

Isso se fosse indiano. Como era cosmologista, provavelmente seu ser, já diluído no universo, estaria desintegrado nele. Gostaria de ser cristão. Acreditar em céu ou inferno para torturar sua alma. Seria um pós-vida com sentimentos, sensações. Não o blasé de estar lá, mas sem estar, sem consciência, sem sentimentos.

Desde muito cedo saiu pelo mundo de seu quintal ou de seu bairro admirando os incontáveis mistérios da natureza. Aprendeu a contemplar cada queda de folha, cada abrir de flor. Cada manhã em sua vida uma caminhada de meditação, bruscamente interrompidas por cheiro de café ou de lúpulo várias vezes. Era preciso se concentrar. Saia sempre do Jardins com destino ao cemitério onde a vida era intensamente exaltada por quem já tivera mostra do fim. Só os terminados estavam em paz.

Construía coroas a gosto do freguês. Consumidores exigentes que se ligavam muito nos detalhes. Ouvia discussões infernais de almas caridosas sobre ações que em nada alteravam o estado do falecido. Era um ser muito paciente e nada emocionado, embora quase sempre tivesse que fingir alguma empatia. Era melhor assim. Se fosse emocionado como alguns de seus colegas certamente bateria boca com os clientes como presenciou várias vezes.

Tinha sempre que madrugar na antiga Cobal pra comprar as mais variadas flores. Flores das mais variadas cores. Dos mais variados odores. Algumas nem acreditava que eram tão vendidas por causa do odor insuportável. Entretanto tinha a oportunidade de achar flores exóticas e belas que sempre guardava para sua netinha. Podia toda manhã tomar um breve desjejum com os amigos antes de se deslocar pra próximo ao cemitério.

Não era uma má vida. Embora sua vida fosse prioritariamente a morte. Menos quando sua linda netinha visitava sua casa lá pelas 19, 20 horas. Pouco antes de atravessar dois domicílios pra dormir em sua casinha. Amanhã de madrugada estarei na labuta. Então... boa noite!

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