Eventos em
cadeia desencadeiam coisas. Me desencadearam. Nasci na mais vistosa fortuna em
pleno jardim. Minha mãe era moradora de rua. Fizeram o parto no alpendre de uma
mansão abandonada. Nem milionário nasceu com a minha sorte. Não respiraram ar puro
como eu respirei em pleno jardim. Não sentiram o odor das begônias. Begônias tem
perfume? Em todo caso o aroma de algum jasmim.
Fortuna é providência.
É também riqueza, mas não necessariamente a de dinheiro. Morei meus primeiros
meses num orfanato. Minha mãe foi achada no local errado. Ela sempre estava no
dito local errado: fora de uma edificação. Os governantes dos municípios sempre
desejam suas cidades limpas com ruas vazias. Minha mãe era mais um empecilho.
Aos seis anos
fui cumprir a tradição da família: enfeiar a rua. Decorar o mapa da cidade e
seus bairros. Mais tarde na adolescência pude carregar e descarregar caminhões
que é a única atividade que moradores de rua são permitidos a desempenhar sem a
fantasia de hippie. Com a fantasia de hippie pode artesanato. Também pode ser
pedinte. Mas pra um morador de rua de estirpe, de tamanha tradição familiar não
cabe.
No carnaval e
outras festas de rua quando sobra uma merreca é possível vender bebidas fazendo
o milagre da exploração: com uma ou duas bebidas que você conseguiu comprar
você vende caro o bastante pra comprar o dobro e assim por diante. Explora os
que estão no limite da sede e pagam qualquer preço. E vendendo pelo dobro até
tá com preço abaixo dos outros. Vende fácil.
Pra quem
conhece as cidades, é fácil ter na mente cada encruzilhada. Os locais onde é
mais fácil vender. Também todas as saídas pra escapar do rapa ou da mera apreensão
isolada de sua mercadoria. Dizem que isso é mente empreendedora. Pura mentira! Isso
se chama mente desesperada. Nenhuma mente sã faria isso. No máximo contrataria
gente pra fazer isso próximo ao próprio comercio como é comum.
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