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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Ambulante

 


Eventos em cadeia desencadeiam coisas. Me desencadearam. Nasci na mais vistosa fortuna em pleno jardim. Minha mãe era moradora de rua. Fizeram o parto no alpendre de uma mansão abandonada. Nem milionário nasceu com a minha sorte. Não respiraram ar puro como eu respirei em pleno jardim. Não sentiram o odor das begônias. Begônias tem perfume? Em todo caso o aroma de algum jasmim.

Fortuna é providência. É também riqueza, mas não necessariamente a de dinheiro. Morei meus primeiros meses num orfanato. Minha mãe foi achada no local errado. Ela sempre estava no dito local errado: fora de uma edificação. Os governantes dos municípios sempre desejam suas cidades limpas com ruas vazias. Minha mãe era mais um empecilho.

Aos seis anos fui cumprir a tradição da família: enfeiar a rua. Decorar o mapa da cidade e seus bairros. Mais tarde na adolescência pude carregar e descarregar caminhões que é a única atividade que moradores de rua são permitidos a desempenhar sem a fantasia de hippie. Com a fantasia de hippie pode artesanato. Também pode ser pedinte. Mas pra um morador de rua de estirpe, de tamanha tradição familiar não cabe.

No carnaval e outras festas de rua quando sobra uma merreca é possível vender bebidas fazendo o milagre da exploração: com uma ou duas bebidas que você conseguiu comprar você vende caro o bastante pra comprar o dobro e assim por diante. Explora os que estão no limite da sede e pagam qualquer preço. E vendendo pelo dobro até tá com preço abaixo dos outros. Vende fácil.

Pra quem conhece as cidades, é fácil ter na mente cada encruzilhada. Os locais onde é mais fácil vender. Também todas as saídas pra escapar do rapa ou da mera apreensão isolada de sua mercadoria. Dizem que isso é mente empreendedora. Pura mentira! Isso se chama mente desesperada. Nenhuma mente sã faria isso. No máximo contrataria gente pra fazer isso próximo ao próprio comercio como é comum.

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