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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

É preciso acabar com a esperança oportunista

 

Todo começo de ano é a mesma coisa: malditamente a esperança começa a dominar o mundo com suas promessas maravilhosas. Nenhum problema se a coisa funcionasse dentro da concepção política de Hannah Arendt onde é preciso prometer, mas também cumprir para ter credibilidade para a próxima promessa. Política para Arendt tem um mecanismo, uma ação primordial que é prometer. É a promessa que cumprida leva a promessa seguinte que move o seu mundo.

Mas, inoportunamente as promessas são maquiavélicas, simples meios economicistas para finalidades maiores e quase nunca se cumprem, pois a finalidade não é nunca o cumprimento da promessa, mas acalmar, entreter, desviar a atenção para possibilitar a implantação do desagradável. A esperança imobiliza as pessoas com o seu canto de sereia, uma promessa de glória sem esforço.

Creio, que por mais dolorido que seja, é preciso instaurar a desesperança geral e absoluta, o ceticismo profundo. É preciso não esperar nada porque como diz o grande filósofo de bar João Babão: "de onde mais se espera, não vem nada. De onde menos se espera é que não vem mesmo, mas qualquer ação ou resultado que vem de onde não se espera, é uma boa surpresa. Um resultado esperado é no máximo uma decepção".

Andar pela vida sem nada esperar, é um tanto desesperador, mas costuma gerar menos decepções e mais surpresas positivas. Por isto, mesmo sofrendo por vezes desse mal, procuro logo me vacinar, pois foi nada menos que o grande pensador italiano Antonio Gramsci que aconselhava ter um “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”, isto pensar esperando o pior, mesmo desejando o melhor, se consigo assim explicar o que Gramsci resumiu. Em suma, o pessimismo está longe daqueles que querem o pior para o mundo, mas é metódico para aqueles que não desejam se surpreender com expectativas ingênuas.

É bem verdade que a ingenuidade já fez muita coisa por esse mundo e por nós quando acreditamos que o impossível era fácil, ou que não existia impossibilidade. Mas o pessimismo, lido sobre uma ótica crítica e até cínica, parece muito mais otimista que qualquer otimismo. Artur Schopenhauer, o pai do pessimismo se referia ao nosso mundo como "o pior dos mundos possíveis". O pai do otimismo Leibniz afirmava o oposto: "o melhor dos mundos possíveis". Se o nosso mundo, na existência de outros, é o pior possível, então existem outros ainda melhores. Isso pra mim é o mais exaltado otimismo. Leibniz, ao contrário, nos condena a nunca conhecer realidade melhor. Portanto questão de pessimismo metódico.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Delírio

 


Um passo à frente

Outro ao lado

Outro a frente

Ao lado novamente

Assim ginga as plantas ao caminho

Eu, cá, no meu canto parado

A observar o balé

Das flores

Dos pássaros

A corredeira segue o seu ritmo

Eu sigo o meu

Capto o que a objetiva não vê

domingo, 28 de dezembro de 2025

Invicto

 


Quem quiser entender, entenda. Não recomendo. Desentenda. Tenha alucinações teatrais. O texto está aí. Não é pra se levar a sério. O texto vai pra academia. Não é marombeiro. Mas gosta de se contorcer. O texto deseja flexibilidade, mas também deseja ficar definido. O texto é contraditório.

O texto pega no peso. Acha sempre que tá demais. Tá sempre pegando pesado. Por isso faz inúmeras repetições nunca da mesma forma com a maior leveza possível. O texto quer ficar esbelto, mas tem sempre umas sobrinhas. Como escapar da tentação de um advérbio ou adjetivo. Gosta de um pronome gasto às vezes. Outras vezes busca um lugar pra um termo neófito.

Corre sempre o seu circuito como se fosse correr mil e quinhentos metros, mas acaba andando uma maratona. Tenta por mil vezes interromper o percurso, mas não consegue para por ali. Contorna uma esquina e sente-se um farsante se não mostrar a rua inteira. Tenta mostrar o impercebível e aí está sua poesia. Não fala do que expressa, mas do que não relata. Permite o leitor achar seu bar, seu restaurante, sua mercearia, sua biblioteca no caminho. Abandonar o percurso e ressignificar o texto segundo o bar, a biblioteca, a boate.

O livro segue não sendo ele mesmo. Difamado pelos fofoqueiros. E diz falem mal, mas falem de mim. O autor morre de desgosto. Mas o texto não se importa com o autor, mero instrumento para vir ao mundo. Isso, isso, continuem a me discutir. Tornem-me eterno! Tirem-me da vigência da temporalidade. Que o tempo dissolva e eu invicto.

sábado, 27 de dezembro de 2025

O furo é o novo

 


Já que eu já comecei a repetidamente deturpar um aspecto da interpretação sobre a teoria histórica de Walter Benjamin. Deixa-me aprofundar ainda mais explorando um aspecto da minha interpretação. A essa altura é mais uma teoria minha com crença de ter base benjaminiana do que um neobenjamismo (a palavra não existe, mas por similaridade tenho certeza que entendem).

Vou me focar num único aspecto do texto passado (Natal): o novo ser um furo no sistema, um desvio da regra estrita. Se nos debruçarmos nessa ideia de que o novo é o que escapa, o que possibilita uma fuga poderíamos pensar que seria um universo anarquista em plena ordem burocrática. De outro modo poderia dizer que é um espaço de liberdade em plena opressão.

Em epistemologia talvez não possamos falar nem de longe em mudança de paradigma, mas pra dar uma imagem forte: imaginem uma dobra do plano. O papel esticado mostra um universo organizado, um cosmos. Uma dobra muda significativamente a lógica. Parte do que está escrito no verso veio pra frente. O que estava escrito a frente foi condensado e recortado. O universo novo é fruto do novo arranjo.

Não houve transformação. Houve reacomodação. É o desafio de montar um novo quebra-cabeça com menos peças por um lado, mais peças por outro formando a nova imagem possível. Somente é possível porque não compromisso de reproduzir o existente, o passado. É factível porque pretende-se o novo. O defeito do piano ocasiona um novo instrumento (um órgão? Algo ainda não descrito?).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Conto de Viktor

 


Viktor com k não era parente de nenhuma Carol. Já tinha investigado. Investigar não era nem de longe sua especialidade. Uma irmã dele nasceu Carolina, mas hoje seu nome é artístico é Fênix do Sertão. Ele que é açougueiro de profissão. É como chamam aqueles que tem versátil manejo de lâminas como a navalha ou a peixeira.

Era constantemente chamado para descarnar um boi ou um bode. Mas de vez em quando também um desafeto. O preço era o mesmo. Baseado no quilo de carne do animal. Todo mundo, inclusive o delegado, compreendia que esse era o afazer dele. Tudo muito profissional. Teve um promotor que quis encrespar com ele, mas o juiz não gostou e pediu um favor a ele.

O juiz, aliás, era o único que podia pedir um favor pra ele. Mas sabia que não podia pedir mais que um. O segundo já tinha que pagar. O delegado também já tinha gasto os favores dele. Era impressionante o corte! Ele sabia separar as carnes com uma destreza impressionante. Filé era completamente filé. A picanha estava completamente separada. Os colchões duro e mole tudo a seu lugar.

Não era barato pagar o serviço. Mas não havia nenhum açougueiro como ele na região. Aliás na cidade não tinha outro. Na capital tinha um monte, mas esses só vendiam carne. Cortavam e desossavam, mas muito mal e de peças já compradas. Na cidade tinha um hospital até razoável para a população dela. Mas no campo quando o medico não chegaria a tempo, era Viktor que cortava. Tirava bala, botava intestino pra dentro, costurava com barbante até algumas coisas.

Carregava uma matula com todas as suas lâminas pra tirar uma lasquinha a qualquer momento necessário. Mas o seu dia-a-dia era muito tranquilo. Pouco precisavam dele. Matar um animal ou dois por semana e já era carne suficiente. Passeava pela rua e tirava sonecas na rede. Quando não era dia de amolar suas lâminas. Aí acordava de madrugada e virava até o outro dia desempenando e afiando.

 Todo dia, menos esse depois da afiação, abria o açougue. Mas era raro o cliente. Não expunha as carnes. Carne só por encomenda e pra uso imediato. Tinha uma salinha frigorifica, mas não armazenava carne mais que três dias. Passado isso, a prefeitura arranjava uma desculpa pra fazer churrasco com a sobra do açougue. Aí nesse caso ele dava um desconto. O preço era só um pouco acima do praticado na capital.

As encomendas de carne por quilo pra Viktor eram no mínimo o dobro do preço praticado na capital. Mas mais do que valia devido o capricho e a precisão dele. Qualquer que fosse o animal a ser sacrificado compensava chamar Viktor. Mesmo um animal armado do que quer que fosse não escaparia dos cortes certeiros dele.

Corta! Corta! Essa era a vida de Viktor. Vamos embora antes que ele mesmo decida cortar. Fui embora... tchau!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal

 


Natal é nascimento. O natal cristão no caso é o nascimento de Cristo, a oferta imolada de Deus à humanidade. Mas Natal, em suma é nascimento. O surgimento do novo no mundo. Hannah Arendt depositava suas esperanças nisso, na ação (política) como a indução, formação, surgimento do novo na humanidade. Walter Benjamin, na minha ingênua, ignorante e paupérrima interpretação acreditava no fundo que nada poderia mudar se continuássemos a nos guiar por nossas experiencias no mundo. Para mudar é preciso partir do novo. O novo surge do nascimento, do insight que muda o fundamental de uma compreensão, um método.

O novo irrompe no mundo, revoluciona, quase sempre sem uma revolução que muda nobreza por burgueses ou por uma burocracia. Ou seja, com uma mudança no sistema, não de quem manda em quem na pirâmide. A manutenção da opressão. O novo é geralmente um desvio, um furo no sistema, um sistema de estradas clandestino, uma fuga. Que pode se tornar um novo modo de dominação e será necessário novamente nascer o novo. O novo sempre está nascendo. Cada novo nascimento é uma nova potencialidade, nova possibilidade.

Trindade Tocantinense

 


Nos primeiros anos do mais novo estado do Brasil diziam que o Tocantins era do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Embora seja um dito aparentemente religioso por referir se a Santa Trindade, mistério consagrado em um concílio, a proclamação tinha uma outra camada (irônica?):

Se for irônica estou lascado porque ninguém mais consegue identificar ironia por reflexos da luta mais justa que existe: a contra as discriminações. Uma luta que se é naturalmente e justamente muito raivosa. O que a tornou politicamente débil porque (eu tô falando de política mesmo) se não existe chance de acordo a política não tem utilidade: nada pode ser construído, nada acordado.

Voltemos a sentença de que o Tocantins é da Santa Trindade. O Pai é uma claríssima referencia ao dito criador do estado: José Wilson Siqueira Campos. Que se notabilizou como criador do estado mesmo tendo sido criado por uma assembleia constitucional na qual se o governador de Goiás, Henrique Antônio Santilo, fosse contrário não haveria a menor possibilidade de existir o estado. Também não foi uma luta isolada. Deputados federais como Totó Cavalcante brigaram pela criação e fizeram “greve de fome” como ele.

O filho é a citação de seu filho preferido, José Eduardo Siqueira Campos, ao qual fez tudo para que fosse seu herdeiro político. Infelizmente, pelas coisas da vida, só o tempo lhe deu a experiencia necessária para perto da morte de seu pai se tornasse um político muito hábil, não apenas relevante. Relevante sempre foi pela influência que tinha ao pai.

Fiz um prólogo enorme pra chegar ao que queria dizer. Desculpem-me. O Espírito Santo da Santa Trindade tocantinense é Pedro Iram Pereira do Espírito Santo (PIPES), que é dono provavelmente de todas travessias de balsas no rio Tocantins. Da Trindade é o único que é comprovadamente rico. Os outros dois também devem ser, mas não se pode provar. Dois textos fundamentais mostram como a construção do Espírito Santo na idade média (embora a construção comece com Santo Agostinho na idade antiga) formam a ideia de economia doravante: O conceito de amor em Santo Agostinho (tese de doutorado de Hannah Arendt) e o Reino e a Glória de Giorgio Agamben.

Os dois textos, o segundo lendo muito do primeiro e o aprimorando, mostram como a ideia de distribuição, alastramento formam o que seria mais evidente na economia moderna: a economia se alastra por toda parte de modo que não exista nada fora da economia. A tal modo que se torne impossível diferenciar o que é economia porque não há limites, forma. De modo que se possa afirmar racionalmente que qualquer coisa não é economia porque está tão introjetado que pode afirmar isso é cultura, por exemplo.

A tese da Hannah Arendt é muito mais útil, mas muito menos evidente porque não tem a contextualização feita por Agamben. O conceito de amor em Santo Agostinho mostra como uma distribuição do amor (de Deus aos homens, fraterno entre os homens) conduz a felicidade. Santo Agostinho fala sobre a necessidade e o direcionamento. Se considerarmos o amor uma ação econômica fica evidente: a ideia de selva em que cada que garanta a própria sobrevivência, no máximo de sua família, de seus próximos se muito. O geral, o  público, a política que se...

Um pequeno apêndice (uma morte aparentemente justa da política):

Imaginem que se anuncie um inverno longo de seis meses onde há uma plantação de macieiras. O dono da terra libera a colheita de maçãs pra resistir o inverno, naturalmente com 8 a 10% das maçãs pra ele que é o dono da terra e o resto repartido igualmente entre os funcionários. A lenha igualmente para aquecer durante o longo inverno. Derrubam-se todas as macieiras. A família do dono ao ter mais lenhas e maçãs tem probabilidade de sobreviver mais tempo. Os funcionários que seguiram as ordens devem ser os primeiros a morrer. Os espertinhos que deram um jeito de ter mais maçãs e lenha do que deveriam devem sobreviver mais tempo que os outros funcionários.  Mas todo mundo vai morrer porque não vai crescer nada a tempo de matar a fome deles depois de zerados os estoques. Ou seja, a necessidade (economia) mata a política: não há conversa, não há acordo possível, somente a gestão mais ou menos inteligente pra sobreviver que pode escalar até o canibalismo.  

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...