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sábado, 27 de dezembro de 2025

O furo é o novo

 


Já que eu já comecei a repetidamente deturpar um aspecto da interpretação sobre a teoria histórica de Walter Benjamin. Deixa-me aprofundar ainda mais explorando um aspecto da minha interpretação. A essa altura é mais uma teoria minha com crença de ter base benjaminiana do que um neobenjamismo (a palavra não existe, mas por similaridade tenho certeza que entendem).

Vou me focar num único aspecto do texto passado (Natal): o novo ser um furo no sistema, um desvio da regra estrita. Se nos debruçarmos nessa ideia de que o novo é o que escapa, o que possibilita uma fuga poderíamos pensar que seria um universo anarquista em plena ordem burocrática. De outro modo poderia dizer que é um espaço de liberdade em plena opressão.

Em epistemologia talvez não possamos falar nem de longe em mudança de paradigma, mas pra dar uma imagem forte: imaginem uma dobra do plano. O papel esticado mostra um universo organizado, um cosmos. Uma dobra muda significativamente a lógica. Parte do que está escrito no verso veio pra frente. O que estava escrito a frente foi condensado e recortado. O universo novo é fruto do novo arranjo.

Não houve transformação. Houve reacomodação. É o desafio de montar um novo quebra-cabeça com menos peças por um lado, mais peças por outro formando a nova imagem possível. Somente é possível porque não compromisso de reproduzir o existente, o passado. É factível porque pretende-se o novo. O defeito do piano ocasiona um novo instrumento (um órgão? Algo ainda não descrito?).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Conto de Viktor

 


Viktor com k não era parente de nenhuma Carol. Já tinha investigado. Investigar não era nem de longe sua especialidade. Uma irmã dele nasceu Carolina, mas hoje seu nome é artístico é Fênix do Sertão. Ele que é açougueiro de profissão. É como chamam aqueles que tem versátil manejo de lâminas como a navalha ou a peixeira.

Era constantemente chamado para descarnar um boi ou um bode. Mas de vez em quando também um desafeto. O preço era o mesmo. Baseado no quilo de carne do animal. Todo mundo, inclusive o delegado, compreendia que esse era o afazer dele. Tudo muito profissional. Teve um promotor que quis encrespar com ele, mas o juiz não gostou e pediu um favor a ele.

O juiz, aliás, era o único que podia pedir um favor pra ele. Mas sabia que não podia pedir mais que um. O segundo já tinha que pagar. O delegado também já tinha gasto os favores dele. Era impressionante o corte! Ele sabia separar as carnes com uma destreza impressionante. Filé era completamente filé. A picanha estava completamente separada. Os colchões duro e mole tudo a seu lugar.

Não era barato pagar o serviço. Mas não havia nenhum açougueiro como ele na região. Aliás na cidade não tinha outro. Na capital tinha um monte, mas esses só vendiam carne. Cortavam e desossavam, mas muito mal e de peças já compradas. Na cidade tinha um hospital até razoável para a população dela. Mas no campo quando o medico não chegaria a tempo, era Viktor que cortava. Tirava bala, botava intestino pra dentro, costurava com barbante até algumas coisas.

Carregava uma matula com todas as suas lâminas pra tirar uma lasquinha a qualquer momento necessário. Mas o seu dia-a-dia era muito tranquilo. Pouco precisavam dele. Matar um animal ou dois por semana e já era carne suficiente. Passeava pela rua e tirava sonecas na rede. Quando não era dia de amolar suas lâminas. Aí acordava de madrugada e virava até o outro dia desempenando e afiando.

 Todo dia, menos esse depois da afiação, abria o açougue. Mas era raro o cliente. Não expunha as carnes. Carne só por encomenda e pra uso imediato. Tinha uma salinha frigorifica, mas não armazenava carne mais que três dias. Passado isso, a prefeitura arranjava uma desculpa pra fazer churrasco com a sobra do açougue. Aí nesse caso ele dava um desconto. O preço era só um pouco acima do praticado na capital.

As encomendas de carne por quilo pra Viktor eram no mínimo o dobro do preço praticado na capital. Mas mais do que valia devido o capricho e a precisão dele. Qualquer que fosse o animal a ser sacrificado compensava chamar Viktor. Mesmo um animal armado do que quer que fosse não escaparia dos cortes certeiros dele.

Corta! Corta! Essa era a vida de Viktor. Vamos embora antes que ele mesmo decida cortar. Fui embora... tchau!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal

 


Natal é nascimento. O natal cristão no caso é o nascimento de Cristo, a oferta imolada de Deus à humanidade. Mas Natal, em suma é nascimento. O surgimento do novo no mundo. Hannah Arendt depositava suas esperanças nisso, na ação (política) como a indução, formação, surgimento do novo na humanidade. Walter Benjamin, na minha ingênua, ignorante e paupérrima interpretação acreditava no fundo que nada poderia mudar se continuássemos a nos guiar por nossas experiencias no mundo. Para mudar é preciso partir do novo. O novo surge do nascimento, do insight que muda o fundamental de uma compreensão, um método.

O novo irrompe no mundo, revoluciona, quase sempre sem uma revolução que muda nobreza por burgueses ou por uma burocracia. Ou seja, com uma mudança no sistema, não de quem manda em quem na pirâmide. A manutenção da opressão. O novo é geralmente um desvio, um furo no sistema, um sistema de estradas clandestino, uma fuga. Que pode se tornar um novo modo de dominação e será necessário novamente nascer o novo. O novo sempre está nascendo. Cada novo nascimento é uma nova potencialidade, nova possibilidade.

Trindade Tocantinense

 


Nos primeiros anos do mais novo estado do Brasil diziam que o Tocantins era do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Embora seja um dito aparentemente religioso por referir se a Santa Trindade, mistério consagrado em um concílio, a proclamação tinha uma outra camada (irônica?):

Se for irônica estou lascado porque ninguém mais consegue identificar ironia por reflexos da luta mais justa que existe: a contra as discriminações. Uma luta que se é naturalmente e justamente muito raivosa. O que a tornou politicamente débil porque (eu tô falando de política mesmo) se não existe chance de acordo a política não tem utilidade: nada pode ser construído, nada acordado.

Voltemos a sentença de que o Tocantins é da Santa Trindade. O Pai é uma claríssima referencia ao dito criador do estado: José Wilson Siqueira Campos. Que se notabilizou como criador do estado mesmo tendo sido criado por uma assembleia constitucional na qual se o governador de Goiás, Henrique Antônio Santilo, fosse contrário não haveria a menor possibilidade de existir o estado. Também não foi uma luta isolada. Deputados federais como Totó Cavalcante brigaram pela criação e fizeram “greve de fome” como ele.

O filho é a citação de seu filho preferido, José Eduardo Siqueira Campos, ao qual fez tudo para que fosse seu herdeiro político. Infelizmente, pelas coisas da vida, só o tempo lhe deu a experiencia necessária para perto da morte de seu pai se tornasse um político muito hábil, não apenas relevante. Relevante sempre foi pela influência que tinha ao pai.

Fiz um prólogo enorme pra chegar ao que queria dizer. Desculpem-me. O Espírito Santo da Santa Trindade tocantinense é Pedro Iram Pereira do Espírito Santo (PIPES), que é dono provavelmente de todas travessias de balsas no rio Tocantins. Da Trindade é o único que é comprovadamente rico. Os outros dois também devem ser, mas não se pode provar. Dois textos fundamentais mostram como a construção do Espírito Santo na idade média (embora a construção comece com Santo Agostinho na idade antiga) formam a ideia de economia doravante: O conceito de amor em Santo Agostinho (tese de doutorado de Hannah Arendt) e o Reino e a Glória de Giorgio Agamben.

Os dois textos, o segundo lendo muito do primeiro e o aprimorando, mostram como a ideia de distribuição, alastramento formam o que seria mais evidente na economia moderna: a economia se alastra por toda parte de modo que não exista nada fora da economia. A tal modo que se torne impossível diferenciar o que é economia porque não há limites, forma. De modo que se possa afirmar racionalmente que qualquer coisa não é economia porque está tão introjetado que pode afirmar isso é cultura, por exemplo.

A tese da Hannah Arendt é muito mais útil, mas muito menos evidente porque não tem a contextualização feita por Agamben. O conceito de amor em Santo Agostinho mostra como uma distribuição do amor (de Deus aos homens, fraterno entre os homens) conduz a felicidade. Santo Agostinho fala sobre a necessidade e o direcionamento. Se considerarmos o amor uma ação econômica fica evidente: a ideia de selva em que cada que garanta a própria sobrevivência, no máximo de sua família, de seus próximos se muito. O geral, o  público, a política que se...

Um pequeno apêndice (uma morte aparentemente justa da política):

Imaginem que se anuncie um inverno longo de seis meses onde há uma plantação de macieiras. O dono da terra libera a colheita de maçãs pra resistir o inverno, naturalmente com 8 a 10% das maçãs pra ele que é o dono da terra e o resto repartido igualmente entre os funcionários. A lenha igualmente para aquecer durante o longo inverno. Derrubam-se todas as macieiras. A família do dono ao ter mais lenhas e maçãs tem probabilidade de sobreviver mais tempo. Os funcionários que seguiram as ordens devem ser os primeiros a morrer. Os espertinhos que deram um jeito de ter mais maçãs e lenha do que deveriam devem sobreviver mais tempo que os outros funcionários.  Mas todo mundo vai morrer porque não vai crescer nada a tempo de matar a fome deles depois de zerados os estoques. Ou seja, a necessidade (economia) mata a política: não há conversa, não há acordo possível, somente a gestão mais ou menos inteligente pra sobreviver que pode escalar até o canibalismo.  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

É quase Natal


 

Estamos hoje na véspera da segunda data mais importante do calendário cristão, a primeira é a ressurreição do Cristo, cordeiro imolado de Deus para redimir o pecado dos homens. Amanhã comemoraremos o nascimento do Nazereno, Cristo Jesus, aquele que após reduzir as leis mosaicas, os dez mandamentos a dois, teve o poder de síntese de reduzi-los a um só mandamento. Está em João 15,12: “O meu mandamento é este; amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês”, Jesus fala aos seus discípulos.

Amanhã, mais do que qualquer coisa significa a troca da lei bruta e severa do velho testamento pela lei do amor tão repetitivamente assinalada pelo Deus encarnado. Mas Jesus foi severo diversas vezes dirão alguns. Pois bem, amor nunca foi isento de cobranças e nunca existiu sem compromisso. Não, Jesus não casou com a humanidade, tampouco namorou ou noivou, entretanto foi subversivo o bastante para provocar o caos em Roma com a lei dos mansos. Ele já havia dito que os mansos herdarão o mundo. Em Mateus 5,3-12, Jesus proclama o alento que tornarão os primeiros cristãos mais firmes que as rochas: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês”. Nada poderia dar tamanho incentivo aos cristãos para que passivamente subvertessem a lei de Roma, pois a glória lhes era garantida.

O amor nasceu para subverter o mundo, integrar os que seriam naturalmente separados, desintegrados, individualizados. O amor cria as ligações, as comunidades do que é comum, as assembleias do que é incomum. O amor comunica o incomunicável. Une os diversos e comuns. Portanto não razão maior para essa festa que união. Reunir os amados e amar sem consequências, sem limites como pregou o Deus do amor. Nesta véspera estarei pensando em algumas pessoas, em alguns amados e amadas e principalmente em quem nunca sai da minha cabeça: você, meu amor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Auto-empreendedorismo ou ser trouxa

 


Cambiaram-se os peixes

Cambetearam-se os parças

Os peixes e os parças

As uvas e as viúvas

Tudo em geral

Tornou-se particular

Público tornou-se sociedade

Anônima porque desconhece-se os sócios

A praça virou shopping

A cantina, comida veloz

Nas mesas fast-foods

Nos copos suco enlatado

Com gás e sem gás.

A cidade virou feudo

O feudo condomínio

O condomínio minha casa

No meu quarto me isolo

De tanta subjetividade

Todo mundo tem razão

Sozinho

Sem um livro-razão

Pra sua firma

Economizaram o mundo

A política

Maldita

Foi esquecida

Não dividimos os infortúnios

Se nosso destino é só perder

Sofremos sozinhos

Pregando a nossa vitória

Nas redes sociais

Nosso empreendedorismo

De trabalhar incessantemente

Pra dar lucro as bigtechs

Somos ordoliberais

Empreendedores de nós mesmos

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A uva da viúva

           


            Eva viu a uva. Eva era viúva. Colhia a parreira. Se esperneava com a chuva. Resistia longos dias a breve sol. Repelia os insetos com tabaco. A molecada roubava a fruta e como abelhas espalhavam a notícia: as uvas doces de Eva. Todo mundo queria: uns pra chupar, para azedar ou plantar.

A uva de Eva era muito desejada. Espalhada num prato ou fermentada em uma garrafa. Eva não corava. Eva cobrava. Muito respeito pelas suas uvas. As trouxera de longe. As adaptara ao clima maniqueísta da região: ora muito quente e úmido, ora muito frio e seco. Muitos diziam que as uvas de Eva eram dez por cento jaboticaba. Uma ideia cem por cento jaboticaba porque são de famílias completamente diferentes: Vitaceae e Myrtaceae.

Aliás essas eram apenas uma pequena amostra das variadas ideias jaboticaba. Diziam que a viúva tinha matado o marido para irrigar com sangue a sua vinha. Besteira: o marido morreu na guerra por causa de um estilhaço que gangrenou sua perna e por outras consequências de sua diabete mellitus. No entanto, sim o moribundo havia deixado duas bolsas de sangue que diluídas em uma quantidade abissal de água irrigou as parreiras. Eles acreditavam em homeopatia.

O moribundo acreditava ser filho de Deus de uma maneira pouco eclesiástica. O sangue de um irmão dele era transformado em vinho todo domingo. Resolveu dar o sangue, ou um pouco de seu sangue sagrado, por suas parreiras. A viúva não acreditava nas ideias limítrofes de seu marido, mas...

Passava o dia a atirar sua espingarda de sal para espantar pássaros e rezar suas novenas. Mandou construir uma capelinha no fundo do terreno, até invadindo besteirinha do vizinho de fundo, para Santa Doroteia de Cesareia, uma santa da Capadócia. Toda sexta-feira um dominicano rezava uma missa lá pras pessoas da quadra. Depois podia ganhar dois ou três cachos da uva de Eva. Não mais.

               Eva ainda não morreu. Talvez vá pro céu. Talvez pro inferno. Talvez vague indefinidamente no purgatório. Eva sabe salgar a terra. Não passa o segredo pra ninguém. Já questionaram o padre, o bispo e o arcebispo se ela pode voltar desses lugares para continuar salgando a terra. Esse é o mistério que nos interessa. Será que se contrariarmos sua vontade e a enterrarmos junto às parreiras e não no jazigo da família ela continuaria a salgar? Ou pararia por estar contrariada? Isso é que interessa.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...