Nos primeiros
anos do mais novo estado do Brasil diziam que o Tocantins era do Pai, do Filho
e do Espírito Santo. Embora seja um dito aparentemente religioso por referir se
a Santa Trindade, mistério consagrado em um concílio, a proclamação tinha uma
outra camada (irônica?):
Se for irônica
estou lascado porque ninguém mais consegue identificar ironia por reflexos da
luta mais justa que existe: a contra as discriminações. Uma luta que se é
naturalmente e justamente muito raivosa. O que a tornou politicamente débil
porque (eu tô falando de política mesmo) se não existe chance de acordo a
política não tem utilidade: nada pode ser construído, nada acordado.
Voltemos a sentença
de que o Tocantins é da Santa Trindade. O Pai é uma claríssima referencia ao
dito criador do estado: José Wilson Siqueira Campos. Que se notabilizou como
criador do estado mesmo tendo sido criado por uma assembleia constitucional na
qual se o governador de Goiás, Henrique Antônio Santilo, fosse contrário não
haveria a menor possibilidade de existir o estado. Também não foi uma luta
isolada. Deputados federais como Totó Cavalcante brigaram pela criação e
fizeram “greve de fome” como ele.
O filho é a
citação de seu filho preferido, José Eduardo Siqueira Campos, ao qual fez tudo
para que fosse seu herdeiro político. Infelizmente, pelas coisas da vida, só o
tempo lhe deu a experiencia necessária para perto da morte de seu pai se
tornasse um político muito hábil, não apenas relevante. Relevante sempre foi
pela influência que tinha ao pai.
Fiz um
prólogo enorme pra chegar ao que queria dizer. Desculpem-me. O Espírito Santo
da Santa Trindade tocantinense é Pedro Iram Pereira do Espírito Santo (PIPES), que é dono provavelmente de todas travessias de balsas no rio Tocantins. Da Trindade é o único que é comprovadamente rico. Os outros dois também devem ser, mas não se pode provar. Dois
textos fundamentais mostram como a construção do Espírito Santo na idade média
(embora a construção comece com Santo Agostinho na idade antiga) formam a ideia
de economia doravante: O conceito de amor em Santo Agostinho (tese de doutorado
de Hannah Arendt) e o Reino e a Glória de Giorgio Agamben.
Os dois
textos, o segundo lendo muito do primeiro e o aprimorando, mostram como a ideia
de distribuição, alastramento formam o que seria mais evidente na economia
moderna: a economia se alastra por toda parte de modo que não exista nada fora
da economia. A tal modo que se torne impossível diferenciar o que é economia
porque não há limites, forma. De modo que se possa afirmar racionalmente que
qualquer coisa não é economia porque está tão introjetado que pode afirmar isso
é cultura, por exemplo.
A tese da
Hannah Arendt é muito mais útil, mas muito menos evidente porque não tem a
contextualização feita por Agamben. O conceito de amor em Santo Agostinho
mostra como uma distribuição do amor (de Deus aos homens, fraterno entre os
homens) conduz a felicidade. Santo Agostinho fala sobre a necessidade e o
direcionamento. Se considerarmos o amor uma ação econômica fica evidente: a
ideia de selva em que cada que garanta a própria sobrevivência, no máximo de sua
família, de seus próximos se muito. O geral, o público, a política que se...
Um pequeno apêndice
(uma morte aparentemente justa da política):
Imaginem que
se anuncie um inverno longo de seis meses onde há uma plantação de macieiras. O
dono da terra libera a colheita de maçãs pra resistir o inverno, naturalmente
com 8 a 10% das maçãs pra ele que é o dono da terra e o resto repartido igualmente
entre os funcionários. A lenha igualmente para aquecer durante o longo inverno.
Derrubam-se todas as macieiras. A família do dono ao ter mais lenhas e maçãs tem
probabilidade de sobreviver mais tempo. Os funcionários que seguiram as ordens
devem ser os primeiros a morrer. Os espertinhos que deram um jeito de ter mais
maçãs e lenha do que deveriam devem sobreviver mais tempo que os outros funcionários. Mas todo mundo vai morrer porque não vai crescer
nada a tempo de matar a fome deles depois de zerados os estoques. Ou seja, a
necessidade (economia) mata a política: não há conversa, não há acordo possível,
somente a gestão mais ou menos inteligente pra sobreviver que pode escalar até
o canibalismo.