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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Conto de Dauti

 


No meio da cidade vivia Dauti. Caminhando entre prédios à procura de arvores para pousar sua cadeirinha que sempre trazia à tiracolo. Morava mesmo bem longe dali, mas todo dia cedo o metrô a trazia. Meros vinte minutos. Dificilmente leria ou ouviria um capitulo de um livro no caminho. Mas sempre insistia na rotina. Trazia sempre um livro consigo.

No caminho não via, nem ouvia nada além do seu ultrafoco temporário. Era como se tudo mais se tornasse opaco até chegar ao centro. No seu local de trabalho ou lazer era todo ouvidos, todos sentidos. Apreciava detalhadamente todas as singularidades. Nada escapava da atenção de Dauti.

Sabia de tudo. E, provavelmente de quase todos. Não era bem um investigador ou um espião. Parecia mais um especulador. Não um econômico ou político, mas um social. Para quase todos era um fofoqueiro. Falava muito. Espalhava especulações. Mas na verdade não dividia nada do que sabia. Todas as jogadas mais importantes estavam guardadas.

Era um enxadrista 4D. Fazia suas jogadas simples parecerem imensamente complexas. As jogadas mais elaboradas aguardavam uma a uma seu momento. Só uma ou duas de centenas já estavam à luz do sol. Não acreditava em predição, por isto remodelava suas ações ao sabor do clima.

Era o momento de uma casquinha de sorvete. Mas não podia sair de sua banca agora. Não até dar dicas do perigo próximo. Calmaria não é bom. Logo viriam os agentes. Era hora do rapa ou da cobrança de licenças ou subornos, taxas de segurança. Um piscão ou uma dica insidiosa bastava para avisar aos outros ambulantes do perigo. Assobiar uma opera bastaria?

Fizera sua parte. Faltava a deles. Era preciso recolher todos as balburdias. Medir todas as ações. Pesar todas as exceções. Começava o divertimento. Não terminaria tão cedo. Estava lá energizado pelo astro-rei captando traços da realidade daquelas quadras. Sabia distinguir cada piado. Conhecia o cantar do azulão, do sabiá, de pintassilgo, da andorinha. Ouvia até cantar de beija-flor.

Conhecia o andar de cada tipo de formiga. Pressentia esperanças ou bichos da folha. Era um observador sossegado que dominava todo o ambiente captando tudo. Até queda de pingo d’água notava.  Do nascer ao por da luz estava ali. Á noite confeccionava suas anotações. Dos bloquinhos o entendimento dos dias posteriores. Dos vindos novas observações.

Das observações, sua vida. Da vida, uma rotina. De rotineiro nada. Semente virou muda. A muda muda tudo. Virou gramínea, arbusto, trepadeira ou árvore. Cada dia era um novo. Igualmente dia, mas com enredo muito diferente. Nova rotina, velhos medos, novas esperanças, novíssimas decepções. Novidades, novidades, novidades sobre as mesmas coisas que já não são mais as mesmas.

Aquelas ruas não param de fluir, vicejam de tiririca, há vida por todo lado. Preenche todo espaço vazio. Dauti precisava organizar minimamente aquela confusão. O fazia todo dia pra entender aquele mercado. Não gastava conselhos à-toa. Aglutinava conhecimentos para si. Assim Dauti era o príncipe da Moca.

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