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terça-feira, 10 de março de 2026

A boneca

 


Ritinha era uma boneca muito imperativa, reclamava a dona. Era sempre assim: vista-me, dispa-me, dê-me banho. Nas ordens mais diversas. A voz era sempre da dona. Leve-me para passear. Passeá-la-ei respondia a dona. Devia ser um cacofono ou um cacófato. A dona não tinha a menor ideia do que seriam isso, mas eram nomes bonitos, ela achava.

Era uma boneca muito bela. A mais bonita que tivera.  Ou melhor, que teve. Essa menina sempre me confunde, me azucrina. É uma menina elétrica que não consegue concentrar a atenção em alguma coisa. Só na boneca que muda de ideia toda hora. Estabelece um império de inconsequências. A moleca e a boneca são tão uma só que são indistinguíveis.

É claro, são distinguíveis, mas ninguém sabe quem move quem. Quem é a dona? Quem é a boneca? Materialmente é possível saber quem é quem. Mas desse império quem é a imperatriz? Uma acusa a outra de ser a mandona. Na palavra delas: a mandriona, o feminino de mandrião. Imagino que adotaram a palavra por simpatia por ela.

 A menina gastava sua mesada toda comprando roupas para Ritinha. Era uma exigência da boneca. A boneca era mandriona demais! Nem sobrava dinheiro para comprar um pirulito ou uma pipoca. Mandava fazer os vestidos de alta costura na vizinha no fim da rua, duas casas da sua. Comprava os panos do outro lado da rua. Tinha que chorar muito, rolar, fazer birra pra convencer seu irmão dois anos mais velho atravessar a avenida com ela.

Todo domingo tinha que levar a boneca no parque de diversões, no circo ou no zoológico. Era verdadeiro infortúnio. A boneca escravizava a casa toda nesse dia para realizar seus desejos. Ao final do dia todos estavam estafados, principalmente a dona estirada num estofado. Mas tudo ficava bem porque a boneca estava muito feliz. A dona aliviada por ter dado conta de agradar sua exigente boneca.

Na segunda todos os que podiam estavam felizes por sair da casa para estudar, trabalhar, comprar mantimentos, consertar o carro ou as bicicletas. Tomar uma injeção na testa seria agradável. Mas ao voltar todos estavam muito felizes de ver a menina. A menina era linda, graciosa, educada, carinhosa. O problema era a boneca que infernizava a vida de todos com suas vontades.

Foram varias as vezes que todos tentaram perder a boneca. Mas a menina ficava sorumbática. Parecia que tinha perdido a si mesma. Não era viável perder a boneca sem perder a menina. A própria menina tentou uma vez perder a boneca em um guarda-roupa de outra pessoa. Mas se perdeu completamente. Passou a ficar impassível, não se importar com nada. Nada a alegrava ou entristecia. Se existentes e distintos, era um corpo sem alma ou uma alma sem corpo.

A dona implorou para não dizer que seu nome era o mesmo da boneca. Ela pensava que isso não era coincidência era um fatalismo. O nome determina a personalidade das pessoas? Ela não acreditava nisso no geral, mas no caso especifico dela desconfiava. Será que ao invés de dupla personalidade que ela já ouviu falar uma vez, ela e a boneca sofriam de unipersonalidade? Claro que não! A boneca fazia gato e sapato dela! Apesar de ser incrível como pareciam ser a mesma. Mas não eram. Ela nunca faria o que a boneca faz com ela. E nem a boneca nunca faria o que ela faz com a boneca.

Não tô falando que essa menina me confunde. Melhor terminar por aqui antes de me internar numa clínica psiquiátrica por não entender mais nada com nada. Haja imaginação! Haja surrealismo!

quarta-feira, 4 de março de 2026

Filosofia

 


Nasceu tagarela. Angustiado por pensar demais. Intuía várias coisas e observava no usual o incomum. Via o que praticamente ninguém conseguia observar. Deste modo buscava apoio em conhecimentos já testados para ter alguma entrada no debate. Portanto tornou-se um viciado no silencio.

Quanto mais estudava o pensamento estruturado ou desestruturado de outros mais percebeu sua ignorância e a dos outros. Passou a sentir pena de quem tem certezas. Ao mesmo tempo em que sentia inveja dessa ignorância. Sentia inveja de qualquer ignorância. Procurar o conhecimento para ao acumular saber que cada vez sabe menos.

Cada vez mais entendia Sócrates e desentendia a epistemologia. Desse modo, primeiro intuiu, depois compreendeu que o sábio é que se cala. O que não diagnostica e provoca o próprio interrogante a refletir e encontrar sua verdade particular. A única possível e sem possibilidade de universalização. Era como se a filosofia fosse naturalmente antifilosófica. O pensamento estruturado artificial. Um construto humano.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Filosofia

             Nasceu ali, viveu ali. Não queria morrer ali. Aquele era seu lugar na floresta. Não importa se rural ou urbano. Naquele recanto era indistinto, indiferenciado. Tudo ali era urbano e rural ou nem urbano, nem rural. Portanto, nada importa ou tudo importa. Não que alguma coisa importe ou desimporte.  O que vale é o todo ou a negação do todo.

Ali era possível pensar. Parar, concatenar pensamentos e desdobrar raciocínios. É possível andar sem pressa e perceber as nuances. Ter maior quantidade e qualidade de dados. Uma perda sentida ao sair da ilha para ir ao continente aprimorar as técnicas para processar as informações, conformar os conhecimentos.

Aprender metodologia para tornar universal o que é particular. Ou melhor, perder sua própria língua para conseguir se comunicar. Ela, rapidamente percebeu isso. Todo dialogo é ideológico porque está prenhe de ideias. Possui uma norma bem clara pra ser entendido.  Se muito desrespeitadas essas regras, não há comunicação.

Assim aprendeu a pensar como os continentais, mas passou a usar um antolho como todos eles. Perdeu a pluralidade da visão, embora fosse quase impossível expressá-la para conseguir se exprimir. Deixou de ver tanto as coisas inexplicáveis passou a observar muito raramente e por costume o que não tem nome.

Aprendeu o que é ser um estrangeiro. O que todos pelo menos um pouco são. Mas que a maioria nem percebe ou se auto engana. Linguagem é integração. Também é submissão. O pensamento é colonizado para se tornar universal. E a matriz. A matriz é cada dia mais etérea. As regras estão aí. Mas servem ao nada. Nidificaram.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Esconderijo anônimo

          


            Todo dia voltava à casa que não era sua, mas era. Era uma casa bendita naquele tabuleiro. Quase uma casa de botão. Daqui para ali dois passos, um passo e meio. Parecia um favo com suas complexas ligações e uma sala de estar, ficar ou permanecer central e centenas de espichos em forma de quartos e escritórios. Banheiros sempre pra fora. A entrada ao centro ao descer a escada ou de elevador.

Toda operação subterrânea com os respiradores saindo dos banheiros. Todo o resto climatizado com a injeção de ar pressurizado pelos splits. Uma ponta de raiz ou outra sobrando das paredes. De resto só musgos a proliferar até serem erradicadas pela aridez do condicionamento do ar. Por cima nogueiras e abetos. Grama rala a forrar o chão. Assim versa o bunker escondido no meio da floresta.

              O bunker não sei de quem.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Mórbido ou Vívido?

 


Cavou, cavou e cavou. Não chegou ao fundo. Ninguém nunca chega. Cavar esterco acreditando ser sorvete de chocolate... é sutil, mas as diferenças de consistências... Nem falo do odor. A vida segue e não sobra tempo. Ou melhor, é o que mais sobra depois de ser descartado. Quem muito corre, cansa bem cedo. Não guarda energia para os momentos de maior fragilidade. A morte é a única coisa certa na vida, mas sempre chega de surpresa. Ninguém sabia e ninguém consegue prever o óbvio. Não há valor nisso. O mérito está em ser surpreendido.

Não encontrou a verdade. Mas a verdade estava na cara. Era o obvio. Tava esperando outra? Não se cava uma cova pra comer abacaxi. No cemitério o coveiro come outras coisas e a inesperada sobrepõem-se sobre a não vivida.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Demagogia

 


Cresceu naquele distrito como o musgo se apropria da parede. Logo cedo distribuiu sorrisos como qualquer demagogo. O fato de faltar vários dentes o aproximava ainda mais. Distribuía toda a sua simpatia mesmo nas situações mais incomodas como quando estava completamente cagado e mijado e alguns de seus grandes eleitores vinham lhe trocar as fraldas. Pensava sempre neste momento: é preciso manter as aparências.

Aos poucos meses decidiu que era preciso sair de casa. Ingressou numa creche onde pode conviver com vários outros e outras populistas. Disputavam diariamente uma eleição: a de furtar o coração das tias. Tinham uma formação robusta. Precisavam trabalhar arduamente para manter suas bases coesas.

Aos seis ingressou na escola municipal. Poderia estudar num colégio particular, mas como faria proselitismo? Aproveitou-se do tempo vago para desfilar na praça fazer contatos. A maioria do pessoal das particulares ficava em casa fazendo tarefas ou estudando. Ao chegar à adolescência era uma espécie de vereador mirim, um subprefeito. Todos os movimentos do bairro eram intensamente acompanhados por ele. De alguns participava. Tomava a frente. Na mão grande mesmo. Noutras apenas acompanhava, apoiando ou discordando com alguma ambiguidade.

Adulto ficou esqueceu tudo isso e foi viajar pelo mundo. Estudou as formas de relação das sociedades com o público e o privado. Fundou sua empresa de consultoria e marketing que venceu a maioria das eleições na cidade. Sim, o distrito virou cidade. Nem foi na Constituição de 1988. Foi muito depois fruto de intensos apertos de mão por mais de dois anos na Câmara dos Deputados dez anos depois.

Bom... você não precisa ser popular, mas se contratar eles tá eleito. Ninguém tem a experiência que esse pessoal tem. Tudo por causa de sorrisos gratuitos, de falta de dentes e um intensivo na creche e na escola municipal.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Florescer

 

Assumiu o erro

Que horror!

Reconhecer a falha

Observar imperfeições

Não orna

Reflete o que ninguém quer

Observar

Todo o resto

Interessa

É sobra

Reciclável

Que pena!

De erro em erro

Um dia acertaremos

Uma flor nascerá no lixão

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...