A chegada da
Idade Moderna nos termos em que foi defendida como a era das luzes. O aumento
da liberdade mesmo nos mais infames despotismos porque agora o castigo, até
mesmo a morte, se restringe a esse mundo.
É um grande salto porque para quem acredita na vida após a morte ou na
imortalidade não existe mais um fim definitivo. Isso é apenas um detalhe: a
modernidade trouxe regras laicas muito mais ligadas ao funcionamento ou rotina
que a proibição das ações em si. As paredes foram trocadas por corredores que
em algumas vezes se tornaram labirintos, mas de toda forma tem um percurso com
entrada e saída. Paredes que interrompiam o percurso eram definitivas. Poderiam
ser derrubadas? Com imensa dificuldade, mas poderiam. Outra seria construída pois
a ideia é proteger uma hierarquia. Labirintos protegem? Protegem, mas não
impossibilitam.
A modernidade
evoluiu de um jardim troiano para uma maquina com o seu auge napoleônico. Do
escape de jaulas por trilhas cheias de perigo para uma associação
(principalmente com a ideia de sociedade civil rousseauniana) na qual todo
mundo tem sua função para possibilitar o funcionamento da máquina (que é o
plano geral, muito além do Estado). Cria-se uma sociedade (esse termo claramente
econômico) em que todos tem seu oficio. Quem tem um oficio disfuncional precisa
ser corrigido ou eliminado. Uma boa comparação é dizer que é uma doença.
O sábio é
meio que morto. A figura do vagabundo (aquele que vaga, viaja) é intensamente
combatida pois ele é uma peça que falta nas engrenagens, pois está sempre indo
de uma maquina a outra. O vagabundo toma uma acepção de desocupado, quando ele
está sempre quebrando galho e no inicio da modernidade fazer o que quase
ninguém sabia fazer pois ele tinha estado em lugares e situações que quase
todos os outros não estiveram. Há um ódio ao ócio. Sem o ócio, pensadores e
pesquisadores não existem. O próprio pensamento se torna colonizado. Tudo precisa
estar encaixotado para facilitar o uso. Troca-se a excelência pela rapidez. Ou,
pelo nome atual, eficiência.