Xande jogava peteca em casa e pinball na
praia. Seu nome mesmo era Alexandresco, mas todo mundo chamava de Xande. Menos
seu finado pai quando estava bravo. O pai não tinha morrido ainda. Finado era
como sua mãe chamava o ex-marido. Aliás os ex-maridos. Xande era o mais velho. Dos
filhos de Dona Maria Rosa e dos habitantes daquela cidade. Muita gente já tinha
ido embora muito mais novo.
Diz a lenda que muitos aproveitaram de nascer
na maternidade que era numa cidade próxima pra já ficar por lá. Dizem que o
pessoal lá aprende a nadar cedo, o que parece ser verdade. Pra atravessar o Rio
do Sono e fugir da cidade, o que é um fato controverso. Os anciões da cidade se
dividem quanto a veracidade ou não dessas lendas. Xande tinha quase trinta. Era
um dos habitantes mais velhos da cidade, tirando os anciões quarentões e
cinquentões que já tinham perdido toda a oportunidade na vida e se acomodariam
por lá.
A cidade vivia de desesperança. Vez por outra
alguém plantava alguma coisa, cuidava de um animal pra ver se vendia. Às vezes
dava certo. Mas era talvez melhor nem ter dado certo dado o prejuízo obtido. Tudo
tinha que buscar longe e comprar de quem já havia comprado de outro. Era fácil
cuidar das coisas e os vizinhos até ajudavam. O que complicava mais porque pra
ser certo tinha que dar uma parte pra eles.
O certo mesmo era eles fazer mutirão de extrativismo.
Procurar frutas e cocos e dividir entre eles. Organizar de cuidar das trilhas,
das arvores, xaxins e palmeiras. Vez por outra caçar um animal silvestre pra
ter carne e salgar pra durar bom tempo porque só pode caçar ás vezes. De qualquer
forma, na praia tinha um fliperama que a prefeitura colocou pra ver se dá tempo
de convencer ou prender o adolescente antes dele fugir pelo rio.
No quintal ou varanda de casa Xande brincava
de peteca com as crianças. Isso quando não estava consertando as casas da
cidade. Reforçando a calagem das paredes. Refazendo as palhas do telhado. Trocando
os caibros. Xande não sabia se já estava condenado ou ainda era tempo de fugir.
Se fugisse ia virar lenda. De longe o cara mais velho a fugir da cidade.
Inventariam que ele deixou as muletas pra entrar no rio. Floreamento. Ele
andava muito bem. Nunca precisou de apoio.
Se ficasse seria algo estranho nos últimos tempos,
mas não no passado. Muita gente foi ficando e quando percebeu já era um idoso
de quarenta, cinquenta anos naquela cidade. Xande não sabia ao certo que tipo
era ele. E ninguém sabia pra lhe contar. Os que ficaram, se deixaram e se
perderam numa outra época, num passado idílico. Os que fugiram eram de fugir
daquele chove não molha. Xande não tinha ideia, nem modelo pra saber de que
tipo era.
Acho que era do tipo que fica...
confuso.