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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Eternidade

Subi a escada despretensiosamente. Desceu o céu sobre minha cabeça. Torci a camisa e virei o boné. Alguns dirão que fabriquei uma caixa d’água. Minha alma tremia. No minhas veias tocava um pancadão. Respirei como um quem está prestes a afogar. Mas tudo passou. Dormi ali na grama. Lua cheia, sonhando com seu hálito. Parou o tempo. Gravou-se a imagem. Fez-se eternidade.

domingo, 23 de novembro de 2025

As briófitas e o surfista

 


Dizem que nascera por ali mesmo entre Cejana e Trajano. Talvez numa praia quase deserta. Não sei se Cejana e Trajano são vilas de pescadores de Alagoas ou Sergipe. Ou se seriam os progenitores dele. Ignoro se em Alagoas, Sergipe ou Pernambuco ainda existem praias inexploradas ou quase isso.

   O importante é que fora bem recebido por aqueles franceses radicados na foz do Rio Negro. Quase nunca frequentara uma praia. Uma vez foi a Salinas. Mas achou a agua muito salgada. A areia ele achou muito agradável. Entretanto aqueles filhotes brancos de urubus sempre vomitando de medo das pessoas lhe embrulhavam o estômago.

Desde cedo aprendeu a nadar contra e a favor da correnteza. A nadar como qualquer ribeirinho. Aprendeu a conhecer todas as briófitas. Conhecer os seus usos e o perigo deles. O casal que o adotou eram botânicos. Tinham as angiospermas e as gimnospermas, mas ele gostava mesmo dos fungos e seus parentes.

Quando tinha um dinheirinho ia passear em Manaus.  Era uma espécie de faz tudo. Era pescador, fabricante de canoas, pesquisador de briófitas, guia turístico para as raras visitas na região. Costumava ir a Manaus. Mas já tinha ido umas duas vezes a Belém. Uma vez guiou uma visita de um surfista ao encontro do Amazonas com o mar. O turista o desafiou a surfar a pororoca. Ele surfou como se fosse de sua natureza. Nunca tinha surfado e nunca mais surfou. Mas o fez tão bem que passou a ser conhecido como o surfista de pororocas.

Talvez por comedimento, talvez por se interessar mesmo por briófitas, por mais que insistissem nunca mais surfou, nem ondas, nem pororocas. O que o fez se tornar uma lenda. Quem viu, viu. Quem não viu, acredita ou duvida. O que só aumenta sua lenda.

sábado, 22 de novembro de 2025

Da praia à montanha

“Armei a rede. Fiquei um tanto ressabiado de usar. Os peixes não ligaram pra isso. Nenhum me disse nada”, gritava desesperadamente Amanda. Eu nem ouvi. Estava a duas praias dali. Fiquei sabendo das más, aliás, péssimas línguas. Não confiei. Não porque eram, provavelmente, fofocas. Mas porque não acredito em notícias. Tá bom, não é que não acredito, mas que confio desconfiando.

Pulei dois córregos. Tudo bem, dois regos, e cochichei: Amanda vem cá. Me conta do seu passeio. Amanda começou: “tio, sabe aquela rede que deixa a gente quadriculado? Levei pro passeio e um cara pegou emprestado pra usar na canoa”. Me senti muito enredado pela narração/descrição.

Decidi sentar no toco e puxar a criança: vem cá, Amanda. Me conta mais! O Dasenhor prefere a descrição algébrica ou a geométrica? Menina, para de racionalismos. Me descreve geograficamente as coisas. Se não se sentir à vontade, pode descrever filologicamente. Ah, tio, para de sandices e me escuta... a praia era de uma areia que esfolia a gente e você tem que andar quase sempre de costas pro mar.

O mar rumina uma melodia bem compassada de três tons: baixa, alta e depois média. Parece um ritmo hipnótico, mas muito mais sereno que tecno. Não é batidão. É mais uma flauta em três tons. O oceano dá pra entrar de costas e é muito sereno, de ondas muito pouco frequentes e baixas. Uma água muito morna e salgada.

À meia-noite dizem que um peixe sai da água e canta uma ária muito própria em tons muito altos. Sua cauda brilhante serve de holofote para destaca-lo num “palco”. Mas isso tudo é mentira que eu criei na minha cabeça agora, disse-me Mariana. Tá bem, Amanda. Fiquei encantado com tua história, Amanda Mariana. Boa Noite! Vai dormir que amanhã tu vai me contar tudo de novo só que numa montanha.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Conto de Nanda



 

Nanda, Nandinha, digo Fernanda. Não a Montenegro, nem a Torres, nem a Lima. Não era uma Meireles também. Não era economista, nem milionária. Era tampouco uma Souza. Silva. Sim, Silva era seu sobrenome. Fez muita cena quando criança pequena. Agora tentava economizar algum. Não por nada. Tinha ficado adulta e como por maldição as contas começaram a bater em sua porta e sem cerimonia invadir sua casa. Sim. Ainda tinha uma. Não sabia por quanto tempo.

Nada de especial. Só a Serasa Experian querendo fazer parte da sua vida. Sabe quando toca um tambor e você se empolga com o ritmo... pois é... chegando a idade adulta você é obrigado a aprender a rebolar. Quando você não tem gingado você sofre. Se a escola passar com o seu enredo e você conseguir evoluir adequadamente no conjunto corre o risco de não ser convidado na próxima.

Nandinha fazia seus bolos. E dava bolo em todos os compromissos possíveis. Menos nos que podia vender seus bolos. Fazer um dinheirinho pra poder cozinhar o próximo. Cozinhar os credores pra ver se podem receber na semana que vem. Ver se os fornecedores podem colocar algo no caderninho pro mês que vem.

Desajeitadamente evoluía pela pista se desviando dos perigos. “Eu posso pagar com um bolo? Olha! Eu faço um bolo muito bom!” tentava Nanda as vezes. “O aniversário da sua filha tá chegando, né. Deixa que eu faço o bolo e os docinhos” propunha. Infelizmente, mais dava bolos que vendia. Quem recebia os bolos não era agradecido.

Chegou a pedir pra um primo espalhar uns papeis pela rua. Não literalmente jogar na rua. Distribuir pros pedestres e motoristas. Mas o destino foi a rua mesmo. Teve que interromper a operação pra não ficar com fama de porca além de caloteira. Tudo muito injusto! Se pudesse pagar, pagaria tudo antecipado pra não ficarem lhe cobrando. Se não precisasse de alguma divulgação não teria proposto propaganda.

Sua vida mesmo era dar e vender bolos. Mais dar que vender. Uns dias da semana fazia faxina numas madames lá de um condomínio. Chegava cedo e saia de tardezinha da casa da contratante. Não recebia nenhum cafezinho. As patroas acham que intervalo na limpeza é improdutivo. Saía umas quatro da tarde do cercado chique e ia comer uma quentinha no bar lá perto e limpar a goela com um gole de caninha.

Entrava se esgueirando pela vida pra não passar pelo mercado que tinha prometido pagar ontem, mas só pagaria amanhã se vendesse um bolo hoje pra completar o dinheiro. Se vendesse, beleza! Ninguém dava cano. Se dava era só por uns minutos, no máximo um dia.

Essa era sua vida agora. Que saudade de quando era gari como Marianna na sua vila natal! Ganhava uma miséria. Sua rua era fedida. Descontavam de seu salário já miserável. Mas tinha o que comer. “Que inferno ter ouvido coach coachar, coisa de sapo, que devia empreender. Ano que vem eu passo no concurso de merendeira e saio dessa!”, pensava ela. Com esperanças, assim termina nossa história, não a de Nanda.


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Vila Nova



Investimento é uma aposta. Algumas vezes segura. Outras vezes arriscada. Um investimento contínuo tende a ser mais seguro. Ou arriscado se não tem futuro a direção do investimento. Meu time é o que tem mais títulos da terceira divisão do campeonato brasileiro. O que significa que caiu muitas vezes pra conseguir isso, pois ser campeão te garante lugar na Série B. Na verdade, o quarto lugar já te garante. No primeiro campeonato ganho só campeão e vice garantiam.

Meu time já foi quarto colocado numa época em que só subiam dois para a primeira divisão. Já esteve a uma vitória de subir. Melhorou muito a estrutura física nos últimos anos. Contratou, teoricamente, melhor nos campeonatos mais recentes. Deixou de disputar rebaixamento. Mas o aprendizado de como funciona o futebol é muito difícil para a diretoria do meu time. Parecem todos virgens num prostibulo e sem conseguir deixar de sê-lo.

Parece que o Fair Play da CBF, se implantado salve um pouco essa diretoria ao transformar a casa vermelha em boate. As prostitutas em garotas de programa razoavelmente menos afoitas. A diretoria pode lucrar com os ingressos, as bebidas e simplesmente ser uma plataforma para as garotas ganharem dinheiro. Pode contar com apoio do Estado e não de pistoleiros ou milicianos.

Não. Não vai ser nada assim. Mas vai ser menos desorganizado e um pouco mais fiscalizado. Continuará a ser o império da malandragem, mas não será esse faroeste. Essa diretoria do meu time fez sua parte, muito mais do que sua parte. Mas se o clube, um dia quiser subir e passar um tempo na Série A vai ter que descobrir dirigentes que saibam o que é o futebol. Já tem um principal rival que se não subir esse ano tende a se deteriorar e ceder lugar a outro cujo o dirigente, apesar das piores decisões desse ano, parece ser o único a entender de futebol dos clubes da capital do estado.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Liberdades

           


       Nascera sem desejar, nem ser desejado. Ou melhor, nascido desejado era. Concebido não. Não estivera nos melhores lugares, nem nos piores. Sempre esteve onde deveria estar. Esse o seu problema. Era tudo perfeito demais. Per – feito, feito completamente ou com completitude. Ele sentia, sabia que ainda tinha muita trilha no caminho. Nada estava terminado, finalizado.

Logo nos primeiros meses desesperadamente percebeu como era frágil, completamente dependente. Morria de medo de ficar incompleto, pois a maior parte de si estava em outros. Ao mesmo tempo temia que a maior parte de si era controlada pelos demais. Descobriu cedo a sociedade, esse temível conceito econômico.

Nascera numa comunidade muito fechada e colaborativa, a dos curdos na Síria. Seria sempre um estrangeiro por onde fosse. Talvez um pouco menos no Iraque. Na Turquia provavelmente seria um defunto ambulante. Era estranho como as pessoas mesmo com ideias tao diferentes pensassem com unidade (comunidade). Depois quando estudou a democracia grega percebeu similitudes: os gregos “quebravam o pau” em praça pública, mas a decisão era uma lei natural, inquestionável, a verdade.

Não avaliava aquilo. Era o que era. Provavelmente um despotismo da democracia. Um regime que permite a todos discutir e escolher, mas veda contestar o consenso. Aprendeu cedo liberdade positiva e negativa. Entre os curdos e gregos a positiva existia e era mais plena que nos outros povos, mas inexistia a negativa. Achava isso muito bom e uma porcaria ao mesmo tempo. Era muito prático e eficiente, mas era difícil evoluir a comunidade.

          Assim sem nenhuma naturalidade cresceu, viu a história mudar tudo ao redor. Achou muito confortável viver numa sociedade tradicional. Mas aspirou por muitas vezes se modernizar. Mas ao primeiro espirro mudou de ideia. Não que estivesse satisfeito, mas morreu feliz de ter feito o que fez e vivido o que viveu. 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Neo-existencialismo



Parado na curva

Não sei se desvio

Ou paro

Ou ligo

O acostamento me envolve

Pra todo lado há horizonte

Pra todo lado é verde ou mar

Um caminhão quer me ultrapassar

Ou tirar da pista

Ninguém observa

Ninguém aproveita

Todos querem chegar

Saí do carro

Ele seguiu

Vou viver o momento

Isto é, vou viver

A pressa passa

E chega em algum lugar

Eu já estou no meu

O meu lugar é onde estou

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...