Subi a escada despretensiosamente. Desceu o céu sobre minha cabeça. Torci a camisa e virei o boné. Alguns dirão que fabriquei uma caixa d’água. Minha alma tremia. No minhas veias tocava um pancadão. Respirei como um quem está prestes a afogar. Mas tudo passou. Dormi ali na grama. Lua cheia, sonhando com seu hálito. Parou o tempo. Gravou-se a imagem. Fez-se eternidade.
Linhas de um pseudofilósofo menor nas formas possíveis das coisas sem essência e concretitude. Os contos alfabéticos viraram livro em fevereiro de 2026. Vim do passado pra dizer.
Acompanham
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
domingo, 23 de novembro de 2025
As briófitas e o surfista
Dizem que nascera
por ali mesmo entre Cejana e Trajano. Talvez numa praia quase deserta. Não sei
se Cejana e Trajano são vilas de pescadores de Alagoas ou Sergipe. Ou se seriam
os progenitores dele. Ignoro se em Alagoas, Sergipe ou Pernambuco ainda existem
praias inexploradas ou quase isso.
O importante é que fora bem recebido por
aqueles franceses radicados na foz do Rio Negro. Quase nunca frequentara uma praia.
Uma vez foi a Salinas. Mas achou a agua muito salgada. A areia ele achou muito
agradável. Entretanto aqueles filhotes brancos de urubus sempre vomitando de
medo das pessoas lhe embrulhavam o estômago.
Desde cedo
aprendeu a nadar contra e a favor da correnteza. A nadar como qualquer
ribeirinho. Aprendeu a conhecer todas as briófitas. Conhecer os seus usos e o
perigo deles. O casal que o adotou eram botânicos. Tinham as angiospermas e as gimnospermas,
mas ele gostava mesmo dos fungos e seus parentes.
Quando tinha
um dinheirinho ia passear em Manaus. Era
uma espécie de faz tudo. Era pescador, fabricante de canoas, pesquisador de briófitas,
guia turístico para as raras visitas na região. Costumava ir a Manaus. Mas já
tinha ido umas duas vezes a Belém. Uma vez guiou uma visita de um surfista ao encontro
do Amazonas com o mar. O turista o desafiou a surfar a pororoca. Ele surfou como
se fosse de sua natureza. Nunca tinha surfado e nunca mais surfou. Mas o fez
tão bem que passou a ser conhecido como o surfista de pororocas.
Talvez por
comedimento, talvez por se interessar mesmo por briófitas, por mais que
insistissem nunca mais surfou, nem ondas, nem pororocas. O que o fez se tornar
uma lenda. Quem viu, viu. Quem não viu, acredita ou duvida. O que só aumenta
sua lenda.
sábado, 22 de novembro de 2025
Da praia à montanha
“Armei a
rede. Fiquei um tanto ressabiado de usar. Os peixes não ligaram pra isso. Nenhum
me disse nada”, gritava desesperadamente Amanda. Eu nem ouvi. Estava a duas
praias dali. Fiquei sabendo das más, aliás, péssimas línguas. Não confiei. Não porque
eram, provavelmente, fofocas. Mas porque não acredito em notícias. Tá bom, não
é que não acredito, mas que confio desconfiando.
Pulei dois córregos.
Tudo bem, dois regos, e cochichei: Amanda vem cá. Me conta do seu passeio.
Amanda começou: “tio, sabe aquela rede que deixa a gente quadriculado? Levei
pro passeio e um cara pegou emprestado pra usar na canoa”. Me senti muito enredado
pela narração/descrição.
Decidi sentar
no toco e puxar a criança: vem cá, Amanda. Me conta mais! O Dasenhor prefere a
descrição algébrica ou a geométrica? Menina, para de racionalismos. Me descreve
geograficamente as coisas. Se não se sentir à vontade, pode descrever
filologicamente. Ah, tio, para de sandices e me escuta... a praia era de uma
areia que esfolia a gente e você tem que andar quase sempre de costas pro mar.
O mar rumina
uma melodia bem compassada de três tons: baixa, alta e depois média. Parece um
ritmo hipnótico, mas muito mais sereno que tecno. Não é batidão. É mais uma
flauta em três tons. O oceano dá pra entrar de costas e é muito sereno, de ondas
muito pouco frequentes e baixas. Uma água muito morna e salgada.
À meia-noite
dizem que um peixe sai da água e canta uma ária muito própria em tons muito
altos. Sua cauda brilhante serve de holofote para destaca-lo num “palco”. Mas
isso tudo é mentira que eu criei na minha cabeça agora, disse-me Mariana. Tá
bem, Amanda. Fiquei encantado com tua história, Amanda Mariana. Boa Noite! Vai
dormir que amanhã tu vai me contar tudo de novo só que numa montanha.
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Conto de Nanda
Nanda, Nandinha, digo Fernanda. Não a
Montenegro, nem a Torres, nem a Lima. Não era uma Meireles também. Não era
economista, nem milionária. Era tampouco uma Souza. Silva. Sim, Silva era seu
sobrenome. Fez muita cena quando criança pequena. Agora tentava economizar
algum. Não por nada. Tinha ficado adulta e como por maldição as contas
começaram a bater em sua porta e sem cerimonia invadir sua casa. Sim. Ainda
tinha uma. Não sabia por quanto tempo.
Nada de especial. Só a Serasa Experian
querendo fazer parte da sua vida. Sabe quando toca um tambor e você se empolga
com o ritmo... pois é... chegando a idade adulta você é obrigado a aprender a
rebolar. Quando você não tem gingado você sofre. Se a escola passar com o seu
enredo e você conseguir evoluir adequadamente no conjunto corre o risco de não
ser convidado na próxima.
Nandinha fazia seus bolos. E dava bolo em
todos os compromissos possíveis. Menos nos que podia vender seus bolos. Fazer
um dinheirinho pra poder cozinhar o próximo. Cozinhar os credores pra ver se
podem receber na semana que vem. Ver se os fornecedores podem colocar algo no
caderninho pro mês que vem.
Desajeitadamente evoluía pela pista se
desviando dos perigos. “Eu posso pagar com um bolo? Olha! Eu faço um bolo muito
bom!” tentava Nanda as vezes. “O aniversário da sua filha tá chegando, né.
Deixa que eu faço o bolo e os docinhos” propunha. Infelizmente, mais dava bolos
que vendia. Quem recebia os bolos não era agradecido.
Chegou a pedir pra um primo espalhar uns
papeis pela rua. Não literalmente jogar na rua. Distribuir pros pedestres e
motoristas. Mas o destino foi a rua mesmo. Teve que interromper a operação pra
não ficar com fama de porca além de caloteira. Tudo muito injusto! Se pudesse
pagar, pagaria tudo antecipado pra não ficarem lhe cobrando. Se não precisasse
de alguma divulgação não teria proposto propaganda.
Sua vida mesmo era dar e vender bolos. Mais
dar que vender. Uns dias da semana fazia faxina numas madames lá de um
condomínio. Chegava cedo e saia de tardezinha da casa da contratante. Não
recebia nenhum cafezinho. As patroas acham que intervalo na limpeza é improdutivo.
Saía umas quatro da tarde do cercado chique e ia comer uma quentinha no bar lá
perto e limpar a goela com um gole de caninha.
Entrava se esgueirando pela vida pra não
passar pelo mercado que tinha prometido pagar ontem, mas só pagaria amanhã se
vendesse um bolo hoje pra completar o dinheiro. Se vendesse, beleza! Ninguém
dava cano. Se dava era só por uns minutos, no máximo um dia.
Essa era sua vida agora. Que saudade de quando
era gari como Marianna na sua vila natal! Ganhava uma miséria. Sua rua era
fedida. Descontavam de seu salário já miserável. Mas tinha o que comer. “Que
inferno ter ouvido coach coachar, coisa de sapo, que devia empreender. Ano que
vem eu passo no concurso de merendeira e saio dessa!”, pensava ela. Com
esperanças, assim termina nossa história, não a de Nanda.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Vila Nova
Investimento
é uma aposta. Algumas vezes segura. Outras vezes arriscada. Um investimento contínuo
tende a ser mais seguro. Ou arriscado se não tem futuro a direção do
investimento. Meu time é o que tem mais títulos da terceira divisão do
campeonato brasileiro. O que significa que caiu muitas vezes pra conseguir
isso, pois ser campeão te garante lugar na Série B. Na verdade, o quarto lugar
já te garante. No primeiro campeonato ganho só campeão e vice garantiam.
Meu time já
foi quarto colocado numa época em que só subiam dois para a primeira divisão.
Já esteve a uma vitória de subir. Melhorou muito a estrutura física nos últimos
anos. Contratou, teoricamente, melhor nos campeonatos mais recentes. Deixou de disputar
rebaixamento. Mas o aprendizado de como funciona o futebol é muito difícil para
a diretoria do meu time. Parecem todos virgens num prostibulo e sem conseguir
deixar de sê-lo.
Parece que o Fair
Play da CBF, se implantado salve um pouco essa diretoria ao transformar a casa
vermelha em boate. As prostitutas em garotas de programa razoavelmente menos
afoitas. A diretoria pode lucrar com os ingressos, as bebidas e simplesmente
ser uma plataforma para as garotas ganharem dinheiro. Pode contar com apoio do
Estado e não de pistoleiros ou milicianos.
Não. Não vai
ser nada assim. Mas vai ser menos desorganizado e um pouco mais fiscalizado. Continuará
a ser o império da malandragem, mas não será esse faroeste. Essa diretoria do
meu time fez sua parte, muito mais do que sua parte. Mas se o clube, um dia
quiser subir e passar um tempo na Série A vai ter que descobrir dirigentes que
saibam o que é o futebol. Já tem um principal rival que se não subir esse ano
tende a se deteriorar e ceder lugar a outro cujo o dirigente, apesar das piores
decisões desse ano, parece ser o único a entender de futebol dos clubes da
capital do estado.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Liberdades
Nascera sem desejar, nem ser desejado. Ou melhor, nascido desejado era. Concebido não. Não estivera nos melhores lugares, nem nos piores. Sempre esteve onde deveria estar. Esse o seu problema. Era tudo perfeito demais. Per – feito, feito completamente ou com completitude. Ele sentia, sabia que ainda tinha muita trilha no caminho. Nada estava terminado, finalizado.
Logo nos
primeiros meses desesperadamente percebeu como era frágil, completamente dependente.
Morria de medo de ficar incompleto, pois a maior parte de si estava em outros.
Ao mesmo tempo temia que a maior parte de si era controlada pelos demais. Descobriu
cedo a sociedade, esse temível conceito econômico.
Nascera numa comunidade
muito fechada e colaborativa, a dos curdos na Síria. Seria sempre um estrangeiro
por onde fosse. Talvez um pouco menos no Iraque. Na Turquia provavelmente seria
um defunto ambulante. Era estranho como as pessoas mesmo com ideias tao diferentes
pensassem com unidade (comunidade). Depois quando estudou a democracia grega percebeu
similitudes: os gregos “quebravam o pau” em praça pública, mas a decisão era
uma lei natural, inquestionável, a verdade.
Não avaliava
aquilo. Era o que era. Provavelmente um despotismo da democracia. Um regime que
permite a todos discutir e escolher, mas veda contestar o consenso. Aprendeu
cedo liberdade positiva e negativa. Entre os curdos e gregos a positiva existia
e era mais plena que nos outros povos, mas inexistia a negativa. Achava isso
muito bom e uma porcaria ao mesmo tempo. Era muito prático e eficiente, mas era
difícil evoluir a comunidade.
terça-feira, 18 de novembro de 2025
Neo-existencialismo
Parado na curva
Não sei se desvio
Ou paro
Ou ligo
O acostamento me envolve
Pra todo lado há horizonte
Pra todo lado é verde ou mar
Um caminhão quer me ultrapassar
Ou tirar da pista
Ninguém observa
Ninguém aproveita
Todos querem chegar
Saí do carro
Ele seguiu
Vou viver o momento
Isto é, vou viver
A pressa passa
E chega em algum lugar
Eu já estou no meu
O meu lugar é onde estou
Bicho-do-mato
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