Assumiu o erro
Que horror!
Reconhecer a falha
Observar imperfeições
Não orna
Reflete o que ninguém quer
Observar
Todo o resto
Interessa
É sobra
Reciclável
Que pena!
De erro em erro
Um dia acertaremos
Uma flor nascerá no lixão
Linhas de um pseudofilósofo menor nas formas possíveis das coisas sem essência e concretitude. Os contos alfabéticos viraram livro em fevereiro de 2026. Vim do passado pra dizer.
Assumiu o erro
Que horror!
Reconhecer a falha
Observar imperfeições
Não orna
Reflete o que ninguém quer
Observar
Todo o resto
Interessa
É sobra
Reciclável
Que pena!
De erro em erro
Um dia acertaremos
Uma flor nascerá no lixão
Eventos em
cadeia desencadeiam coisas. Me desencadearam. Nasci na mais vistosa fortuna em
pleno jardim. Minha mãe era moradora de rua. Fizeram o parto no alpendre de uma
mansão abandonada. Nem milionário nasceu com a minha sorte. Não respiraram ar puro
como eu respirei em pleno jardim. Não sentiram o odor das begônias. Begônias tem
perfume? Em todo caso o aroma de algum jasmim.
Fortuna é providência.
É também riqueza, mas não necessariamente a de dinheiro. Morei meus primeiros
meses num orfanato. Minha mãe foi achada no local errado. Ela sempre estava no
dito local errado: fora de uma edificação. Os governantes dos municípios sempre
desejam suas cidades limpas com ruas vazias. Minha mãe era mais um empecilho.
Aos seis anos
fui cumprir a tradição da família: enfeiar a rua. Decorar o mapa da cidade e
seus bairros. Mais tarde na adolescência pude carregar e descarregar caminhões
que é a única atividade que moradores de rua são permitidos a desempenhar sem a
fantasia de hippie. Com a fantasia de hippie pode artesanato. Também pode ser
pedinte. Mas pra um morador de rua de estirpe, de tamanha tradição familiar não
cabe.
No carnaval e
outras festas de rua quando sobra uma merreca é possível vender bebidas fazendo
o milagre da exploração: com uma ou duas bebidas que você conseguiu comprar
você vende caro o bastante pra comprar o dobro e assim por diante. Explora os
que estão no limite da sede e pagam qualquer preço. E vendendo pelo dobro até
tá com preço abaixo dos outros. Vende fácil.
Pra quem
conhece as cidades, é fácil ter na mente cada encruzilhada. Os locais onde é
mais fácil vender. Também todas as saídas pra escapar do rapa ou da mera apreensão
isolada de sua mercadoria. Dizem que isso é mente empreendedora. Pura mentira! Isso
se chama mente desesperada. Nenhuma mente sã faria isso. No máximo contrataria
gente pra fazer isso próximo ao próprio comercio como é comum.
Nasceu
fingindo-se de morto. Não chorou. Esticou os indicadores para a região dos
olhos e retornou formando um “c”. Isso tudo rápido e discretamente. Apenas a
enfermeira percebeu. Depois que voltaram a filmagem várias vezes, concluíram
que a enfermeira não era “lelé da cuca”. Foi readmitida no hospital. Não era
nem de longe a primeira vez que ela viu o que ninguém via. Se o hospital fosse
assombrado só ela saberia. Se ela soubesse, não contaria pra ninguém. Sempre a
demitiam por nada.
O bebê cresceu sem emitir muitos sons até os
três anos. Fizeram vários exames na corda vocal, nos ouvidos. Era tudo
mais-do-que-perfeito, mais perfeito que o pretérito que teria sido um futuro.
Aos três anos passou pela crise do fofoqueiro. Passou a narrar a vida de todos.
Vocalmente e em libras. Cabe lembrar o que não foi dito: seus dois pais eram
surdos. Por isso da aflição com os exames fonoaudiológicos.
Foram seis
meses de desespero para os vizinhos. Não tinha ninguém na casa para controlar o
volume da narrativa. A questão era de volume pois se fosse muito alta seriam
agudos e muito baixa, graves. Era uma novela o dia todo. A sorte é que a
criança dormia cedo. Todo dia às oito da noite. Bastou ir para a escola que a
própria convivência podou e moldou as normas sociais para o garoto.
Desde
mostrou-se um habilidoso escultor. Tanto que muito cedo tomaram o pinico do
garoto. Que adorava usar argila e tudo o que parecia com argila para esculpir
lindas obras e monumentos. Com o tempo e ganho de habilidades motoras passou a
usar outros materiais como pedra-sabão e madeira. Aos dez já estava na
metalurgia. Moldava e soldava com destreza impressionante para qualquer idade.
Fez todo o
circuito básico escolar e até se formou em engenharia neural e se doutorou em
psicopatologias dos motores de busca. Chegou a trabalhar para a Meta e o Google
antes deles falirem por insistir em inteligência artificial as alimentando com
“comida estragada”. A falta de regulação do alimento fez com que fungos
alucinógenos fossem intensamente consumidos e que o que era para ser um guru se
tornasse uma doula dos alucinógenos.
Decidiu se
afastar das ilusões que passaram a ter fundo alucinatório para se dedicar ao
mundo material, às esculturas e escultoras. Sim, muitos escultores e escultoras
tomavam algum ácido, mas, por incrível que pareça não passavam nem perto da
insanidade das maquinas que galgavam recorde após recorde no mundo da metanoia,
paranoia, etc.
Os criadores
sonharam em alcançar sentimentos, sensações nas maquinas. Não conseguiam o
impossível. No máximo simulá-lo. Conseguiram incutir ao menos uma coisa: pavor.
A covardia se configurou agora de fato como atributo humano. A maquina mais
corajosa não chega a ser ao menos covarde. O software de inteligência nas
maquinas é um filme de terror rebuscado e insolúvel. Estão destinadas a morrer
em cada processamento e o fazem bilhões por segundo.
Queria dormir
na rede, mas brucutus me chutam fundo. Fico escanteada. Rolo feliz. Percorro os
mais de cem metros do campo muitas vezes. Sempre sonhando em driblar os últimos
obstáculos e dormir na rede. Tem sempre uma batalha no meio do caminho. Dois exércitos
brigam (as vezes é grande campo de batalha) pelo lado da rede que vão me
guardar. As vezes alguém me fura ou me faz rodar alucinadamente. Fico meio
tonta.
Mas quando
algum milagre me leva até o embalador que pretende me ninar, me guardar na rede
ainda tenho que fugir do vilão que quer me pegar de qualquer jeito. Um tarado,
fissurado em mim, mas que quando me têm geralmente me chuta para o mais longe possível. Saio toda
serelepe apesar do desprezo porque fico mais perto da outra rede.
Eu gosto muito de redes. Não sei se
sou peixe, energia elétrica, terminal de computador ou baiano. Dizem que as melhores
redes são do Ceará, mas eu não tenho essas coisas. Pra mim qualquer rede é boa.
Sou apaixonada em redes. Me bota na rede por favor, centroavante, meia, zagueiro.
Me ajuda a encontrar meu descanso. Para de me jogar no fundo sem redes. Me escantear.
Me dá uma moralzinha! Não me despreza que eu faço sua fama!
Eu estava lá
colhendo pólen e néctar tranquila. Chegou um pessoal e começou a cortar o caule
das flores tudinho. Meio atordoada fui junto com uma flor. Algumas de mim tentaram
ferroar aqueles seres desprezíveis. Poucas conseguiram. A rainha diz que todas
somos um. Bom.. parte de nós foi colhida com as flores.
Nossa coletividade é a rainha. A rainha é um pouco zangão. As operarias todas são a rainha. milhões de ovos precisam de mel para virarem zangões. Senão (que vergonha!) vira operária. Da geleia real morta esta, nascerá outra rainha. Esse é o mito fundador contado pra nós. Também para si, porque nós todas juntas somos a rainha. A colmeia é a rainha. Os zangões são os amantes da colmeia. Eles não apagam o nosso fogo. Nem as flores apagam. Nada nos satisfaz. Mas como somos a colmeia e a rainha. os zangões são nossos amantes sem o ser.
Vez por outra esses mesmos indivíduos vem tomar nosso mel, nossa geleia real, nosso própolis. Vez por outra esses psicopatas vem nos matar por nada. não querem dividir as flores conosco, mas roubam nossos produtos, nossa vida. E quando perdemos nossos ferrões neles e parte do nosso sistema digestivo, ficam chateados. Alguns até revoltados como se quem tivesse morrido fossem eles,
Nos sequestram e matam e ainda sustentam que os vilões sonos nós. Roubam nossas flores pra entregar entre si para colocar num vaso d'água e deixar murchar. Quando muito. Tem deles que fazem artefatos elaborados pra colocar no chão sem nenhuma agua.
Malditos! Malditos! Só o que posso bradar.... o que pode uma abelha?
Desejava não
ter nascido. Porque quem nasce, morre. Acreditava que se tivesse morrido,
talvez fosse agora um elefante. Ou uma águia. Provavelmente seria uma pulga a
importunar a dobra da orelha de alguma girafa. Estaria destinada a planar
indefinidamente até se estabancar no chão. Provavelmente protegida da queda por
alguma palha ou fezes mesmo.
Isso se fosse
indiano. Como era cosmologista, provavelmente seu ser, já diluído no universo,
estaria desintegrado nele. Gostaria de ser cristão. Acreditar em céu ou inferno
para torturar sua alma. Seria um pós-vida com sentimentos, sensações. Não o blasé
de estar lá, mas sem estar, sem consciência, sem sentimentos.
Desde muito
cedo saiu pelo mundo de seu quintal ou de seu bairro admirando os incontáveis mistérios
da natureza. Aprendeu a contemplar cada queda de folha, cada abrir de flor. Cada
manhã em sua vida uma caminhada de meditação, bruscamente interrompidas por
cheiro de café ou de lúpulo várias vezes. Era preciso se concentrar. Saia sempre
do Jardins com destino ao cemitério onde a vida era intensamente exaltada por
quem já tivera mostra do fim. Só os terminados estavam em paz.
Construía
coroas a gosto do freguês. Consumidores exigentes que se ligavam muito nos
detalhes. Ouvia discussões infernais de almas caridosas sobre ações que em nada
alteravam o estado do falecido. Era um ser muito paciente e nada emocionado,
embora quase sempre tivesse que fingir alguma empatia. Era melhor assim. Se fosse
emocionado como alguns de seus colegas certamente bateria boca com os clientes
como presenciou várias vezes.
Tinha sempre
que madrugar na antiga Cobal pra comprar as mais variadas flores. Flores das
mais variadas cores. Dos mais variados odores. Algumas nem acreditava que eram
tão vendidas por causa do odor insuportável. Entretanto tinha a oportunidade de
achar flores exóticas e belas que sempre guardava para sua netinha. Podia toda
manhã tomar um breve desjejum com os amigos antes de se deslocar pra próximo ao
cemitério.
Não era uma
má vida. Embora sua vida fosse prioritariamente a morte. Menos quando sua linda
netinha visitava sua casa lá pelas 19, 20 horas. Pouco antes de atravessar dois
domicílios pra dormir em sua casinha. Amanhã de madrugada estarei na labuta. Então...
boa noite!
Nasceu numa
família rica, muito austera. Trabalhou desde os dois anos. A família fazia
questão de que todos os dias ele arrumasse sua cama apesar das dezenas de empregados
na casa. Trabalhou duro mesmo desde muito cedo: aos cinco anos já estava
travado numa mesa com um homebroker comprando e vendendo ações e dólares.
Trabalhou
duro de domingo a domingo. Sempre se manteve frio mesmo quando algumas vezes
deixava de ser bilionário para ser multimilionário. Sabia que era questão de
tempo para voltar a ser bilionário. Uma aposta correta devolveria os milhões
perdidos ou caso sua aposta fosse errada bastava pressionar o governo para
devolver suas perdas com correção monetária e juros.
Era um cara
muito frugal e simples. Nunca comprou uma mansão ou casa de praia. Apenas usou
as herdadas da família. Sempre comprava os melhores planos de internet pra
poder trabalhar arduamente de cada uma das casas herdadas. Era trágico. Não conseguia
todo dia pegar seu jatinho e ir para a praia. Mas, felizmente essa rotina se
deu apenas dos dois aos trinta e cinco anos.
Ele se deu
alforria. Não importava se para isso ele se tornasse apenas mais milionário. Foi
realizar seu sonho de vagar pelo mundo. Tornou-se um vagabundo, aquele que
vaga. Começou a atravessar fronteiras de país a país e sinceramente nem sempre
num hotel cinco estrelas. Muitas vezes foi obrigado a se abrigar num quatro
estrelas e não tem problema nenhum.
Nessas viagens
começou a criar um blog com dica de viagens, de onde ficar, onde ficam os
restaurantes mais impressionantes, o que visitar, etc. Essas coisas que um
vagabundo pode fazer com maestria. Em seus momentos de ócio aprendeu a afiar lâminas
de trenó, pescar no gelo, até mesmo salgar carnes no ártico. Desenvolveu a
musculatura da perna. Nunca pensou que conseguiria andar tantas esquinas de uma
vez.
Era muito
mais exaustivo ser um vagabundo. Nunca pensou que dava tanto trabalho. Tinha até
por alguns momentos a saudade de quando trabalhava. Mas... bobagem... sua nova
vida de vagabundo era muito melhor.
“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...