Acompanham

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cada um mora onde quer

 


Conta a história. Sempre contam uma história. Dizem que os que não foram, ficaram. Não posso afiançar isso. Alguns morreram pelo caminho. Não de morte matada, mas de morte morrida. Meio estranho dizer isso. Porque toda morte morrida é meio matada. O tempo que morre é o mesmo que te mata. Mas, certamente, entre mortos e feridos, ficaram os feridos. Os que não ficaram materialmente, guardaram cicatrizes dolorosas na alma.

Atravessar de uma esquina a outra é mortal. Tem no mínimo três bares e duas lanchonetes no caminho. Sem contar com a melhor padaria da cidade. Onde você pode pedir um lindo misto-quente e ganhar uma facada ou duas. Haja fígado pra atravessar o purgatório. Nos bares tem sempre um conhecido, talvez até um amigo, que ficou de ontem e está bebendo pra evitar a ressaca.

Entre o primeiro bar e o segundo, o morador de rua de estimação do bairro. Ele trabalha e manhã na padaria. À noite num dos bares. De tarde, a gente anda pé ante pé pra não acordar ele. Fizeram um abrigo perto do hidrante para ele. A prefeitura foi obrigada a ignorar. Coisa que ela tem muita prática. Tem sempre um vereador de direita querendo expulsá-lo do bairro. Tem sempre um de esquerda tentando obriga-lo a morar numa casa. Ele resiste a ambos e a comunidade o apoia: cada um mora onde quer.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Limites artificiais

 


Formam-se os limites

No limite as formas

Transigir a ordem é a lei

A norma é a forma

Feita a constituição

Respeitem-na!

A liberdade é fazer o possível

Querer o impossível

Trabalhar para mudar a forma

Respeitar as convenções

Questionando a norma

O que é normal?

Respeitando a diversidade

Uma selva toda anárquica

Organizaram as tribos com limites

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Pirâmide

 


O maior desserviço que as notícias fazem é o sensacionalismo, a polêmica para chamar a atenção. Elas impossibilitam a reflexão pois ignoram as nuances que poderiam estar lá e que muitas vezes ate ampliariam o absurdo. Transformam seres humanos falhos em personagens, em vilões e heróis, idiotas completos e sábios seguros. Recortam qualidades e defeitos e muito pior omitem suas origens.

Para falar sobre isso não preciso nem de um herói, nem de um vilão. Basta um idiota como eu. O Brasil é um país recém saído da colônia, da monarquia e do escravismo. Portanto, somos um país autoritário, antiliberal e preconceituoso por razões diferentes da Europa que foi nossa matriz por mais tempo. Somos uma sociedade de castas disfarçada de democracia. Ao contrário do que afirmam (o povo não sabe votar, os pobres não sabem votar, a classe média não tem consciência, por exemplo), no Brasil todo mundo sabe votar muito bem: os miseráveis votam a favor de quem os ajuda, os pobres votam naqueles que garantem seus privilégios com relação aos miseráveis, a classe média em quem os diferencia dos pobres, os ricos da classe média, os ricos refinados, dos novos ricos cafonas.

  Todos herdamos todos os preconceitos possíveis. A diferença entre o democrata e o preconceituoso está na consciência dos defeitos que tem e na necessária luta contra as próprias imperfeições. O racista, misógino, etarista, homofóbico ou xenófobo nutre mentiras ou pseudociências para justificar seus desejos. Aquele que não acredita ter preconceitos em si ou na sociedade está condenado a diferenciar os seres humanos. Então uma matéria se referir a um preconceituoso como se ele tivesse vindo de marte, fosse uma exceção transforma o ônibus atropelou o cachorro em o cachorro atropelou o ônibus. Algo muito raro, que não merece preocupação porque dificilmente volta a acontecer. Mantem a sociedade em uma pirâmide de castas como algo natural  e desejável.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Economia

 


Se tudo fosse pó

Cadê meu café?

Onde fica o aspirador?

Salva o dia uma soneca?

Duvidas não formam certezas

As convicções suportam dúvidas?

Assim segue-se sem viver

Pois onde semeia=se vida

Florescem as duvidas

Isso não é filosofia

A hermenêutica não suporta dogmas

Como a providencia o inesperado

Mas se interessa descobrir

Algo não foi dado

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Fanatismo



Nascera na maternidade modelo nas idas dos anos noventa. Naquela maternidade perto do Lago das Rosas. Não nasceu dotado de muitos fios de cabelos quase não chorou pra desespero dos médicos e dos pais. Quem chorava era uma menina cheia de cabelos. Nunca tinham visto um bebê nascer com tantos fios de cabelo. Nunca tinham ouvido também um bebe chorar tanto, tão alto e initerruptamente. Era um desespero. Nem por dó do bebê, mas por pena do ouvido dos que estavam por aí.

Tiveram que experimentar inúmeras soluções incomuns quando as soluções normais como incubadoras, banhos de sol, uma série de testes que nada revelavam não interrompiam a constante lamúria. A solução foi colocar pele a pele a bebê para sentir o calor de outro bebê. Uma ideia ridícula, mas que ao colocar aqueles dois bebes juntos instantaneamente deu paz ao hospital.

O bebê masculino o qual desconfiaram inicialmente que era mudo ou surdo-mudo não se afligia com a situação. Alias aparentemente não se importava com nada. A bebê não queria sair de lá. Toda saída pra fazer um exame ou qualquer outra coisa era um pampeiro. Assim foram os quinze dias passados no hospital. Depois por quinze ou dezesseis anos cada um viveu a sua vida sem se encontrarem em nenhum momento. Ou pelo menos nunca notaram a presença do outro.

Se reencontraram no cursinho pré-vestibular sem se recordarem um do outro quando bebê. Foi paixão à primeira vista do rapaz pela moça. A moça, encantadora, estava focada em chamar a atenção não notou a atenção em particular do rapaz. Havia tantos rapazes naquela sala com o coração ou outras coisas pulsando por ela. A moça era muito vaidosa, mas isso não queria dizer que ela não cultivava outros valores. Era uma estudante muito esforçada e devido a isto tinha excelentes notas. 

Ela gostava de se destacar no ambiente, mas as pessoas a notavam porque queriam. Ela não podia obrigar ninguém a observá-la, muito menos deseja-la, o qual nem passava por sua cabeça. O rapaz era cônscio de tudo isso. Também não desejava ter tanta concorrência. Pior ainda: tinha certeza que não tinha a menor chance com ela. Mas desde que a viu, ela virou sua monomania, sua religião da qual era fundamentalista e fanático.

Ele fez psicologia. Ela fez medicina. Ela se especializou em psiquiatria. Ele em epistemologia filosófica. Se encontraram várias vezes por aí e até ficaram várias vezes, mas nunca mais que quinze dias. Segundo ele, porque ela é demais pra ele. Ele nunca mereceu, nem merecerá ela. Segundo ela, que por mais que ele seduza maravilhosamente. Ele é um chato de galochas.    

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Sincretismo

 


Morreu ali como se tivesse nascido. Essa seria sua história se tivesse história. Não foi abortada a sua questão, mas seria melhor dizer que ele voltou do que ressuscitou. Não era um Lazaro, era um lazarento. Um maldito necessário. Arbitrava todas as partidas. Também as chegadas. Embarcavam e desembarcavam em seu terminal vans e micro-ônibus com direção a todos os pontos cardeais. Arcebispos e bispos excomungavam aquela confusão perto da sede paroquial.

Todas madrugadas o padre Zé rezava um rosário no terminal à pretexto de abençoar motoristas, cobradores e passageiros, mas na verdade gostaria de poder amaldiçoar aquilo tudo. A pipoca doce caída alguns passageiros diziam que era para Ogum, Oxum, mas a maioria sabia que eram acidentes porque ninguém queria perder uma pipoca. A lavagem do terminal, essa sim, era feita por mães e filhas de santo.

 Alguns reencarnacionistas diziam que o terminal era sim um grande ponto de passagem. Insistiam que ali havia uma energia fenomenal e fundamental. Ou seja, fenômeno e fundamento estavam presentes ali. Nesse caso o ingresso era gratuito ou quase. O bilhete no terminal dependia da empresa e do destino. O local era apenas um agregador. Abraçava tudo: empresas, motoristas, cobradores, passageiros. Um verdadeiro sincretismo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Verbal

 


Corredeiras correm

Namoradeiras namoram ou vegetam?

Penteadeiras penteiam ou fixam?(-se)?

Geladeiras gelam

Choradeiras choram ou crescem?

Limadeiras limam

Não sei

Quem souber não me diz

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...