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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Existir

 


Se houvesse um amanhã, lá estaria. Não como condição, mas como contingência. Não por existir somente, mas pela obrigação de permanecer algo que se remeta a mim. Existir como mutante não permite coerência. Não podes ignorar a história e achar a escravidão natural. O tempo muda. As condições mudam. O meio muda. As pessoas tem saudade de uma mentira autocriada. O mundo caminha para uma liberdade e as pessoas morrem de medo de serem livres. São vitimadas pela modernidade tardia. A responsabilidade de escolher pesa por comodismo ou irresponsabilidade. E tá tudo bem. Mas é bom lembrar que o escravismo não foi bom pra todos. Foi bom só pra quem manda até hoje.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Bom dia!

 


Se tivesse nascido seria ali. Se tivesse que morrer não seria lá. Entre alis e acolás sobreviveu á vida. Mas nada poderia o proteger da providencia. Nem mesmo a previdência. Cautela nenhuma poderia o preparar para os acontecimentos.  A realidade é o que é. Nenhuma outra coisa. Viveu e morreu. O resto não interessa. É só uma travessa entre um e outro. Aqui e acolá. Meu ovo frito dentro do pão e o café na xícara. Tudo colhido, frito ou torrado. A a cafeeira e a galinha em luto. Eu pelejando pra começar o dia. É o que é. Bom dia!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Conto do Xande

 


Xande jogava peteca em casa e pinball na praia. Seu nome mesmo era Alexandresco, mas todo mundo chamava de Xande. Menos seu finado pai quando estava bravo. O pai não tinha morrido ainda. Finado era como sua mãe chamava o ex-marido. Aliás os ex-maridos. Xande era o mais velho. Dos filhos de Dona Maria Rosa e dos habitantes daquela cidade. Muita gente já tinha ido embora muito mais novo.

Diz a lenda que muitos aproveitaram de nascer na maternidade que era numa cidade próxima pra já ficar por lá. Dizem que o pessoal lá aprende a nadar cedo, o que parece ser verdade. Pra atravessar o Rio do Sono e fugir da cidade, o que é um fato controverso. Os anciões da cidade se dividem quanto a veracidade ou não dessas lendas. Xande tinha quase trinta. Era um dos habitantes mais velhos da cidade, tirando os anciões quarentões e cinquentões que já tinham perdido toda a oportunidade na vida e se acomodariam por lá.

A cidade vivia de desesperança. Vez por outra alguém plantava alguma coisa, cuidava de um animal pra ver se vendia. Às vezes dava certo. Mas era talvez melhor nem ter dado certo dado o prejuízo obtido. Tudo tinha que buscar longe e comprar de quem já havia comprado de outro. Era fácil cuidar das coisas e os vizinhos até ajudavam. O que complicava mais porque pra ser certo tinha que dar uma parte pra eles.

O certo mesmo era eles fazer mutirão de extrativismo. Procurar frutas e cocos e dividir entre eles. Organizar de cuidar das trilhas, das arvores, xaxins e palmeiras. Vez por outra caçar um animal silvestre pra ter carne e salgar pra durar bom tempo porque só pode caçar ás vezes. De qualquer forma, na praia tinha um fliperama que a prefeitura colocou pra ver se dá tempo de convencer ou prender o adolescente antes dele fugir pelo rio.

No quintal ou varanda de casa Xande brincava de peteca com as crianças. Isso quando não estava consertando as casas da cidade. Reforçando a calagem das paredes. Refazendo as palhas do telhado. Trocando os caibros. Xande não sabia se já estava condenado ou ainda era tempo de fugir. Se fugisse ia virar lenda. De longe o cara mais velho a fugir da cidade. Inventariam que ele deixou as muletas pra entrar no rio. Floreamento. Ele andava muito bem. Nunca precisou de apoio.

Se ficasse seria algo estranho nos últimos tempos, mas não no passado. Muita gente foi ficando e quando percebeu já era um idoso de quarenta, cinquenta anos naquela cidade. Xande não sabia ao certo que tipo era ele. E ninguém sabia pra lhe contar. Os que ficaram, se deixaram e se perderam numa outra época, num passado idílico. Os que fugiram eram de fugir daquele chove não molha. Xande não tinha ideia, nem modelo pra saber de que tipo era.

Acho que era do tipo que fica...

confuso.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ironia

 


Aquele que como filho da humanidade inteira viveu como um homem só desdenhou da origem e focou no destino. Soube curtir sua solidão e se embriagou na multidão. Fez pizza ou ravioli da massa. Não pôde existir porque precisava viver. Sobreviveu as ilusões deitado na cama de pregos da realidade.

Aquele que aceitou a dor pode sorrir porque sentiu. Não estava anestesiado. Não confundiu rocha com travesseiro. Se adentrou o engenho, foi moído e soube a diferença entre afago e cortes. Tentou guiar-se pela razão. Acreditou seguir suas vontades. Mas ignorou que os instintos são muito mais fortes. Se iludiu com as próprias ilusões, mas como Sócrates foi o mais sábio de todos ao saber que tudo ignorava.

Nasceu, morreu e no meio disso. No meio disso niilismo, concretismo, surrealismo fantástico. Infinitas eternidades marcadas por o serem, mas frugais e fugidias. Permanece o conceito. Desaparece a concretitude. O eterno só é eterno por ser irreproduzível. A eternidade passa. Sobra a esperança de vir a próxima. Essa eterna mentira que é a esperança. A causa de todas as desilusões.

 E, sim, ele sorriu, sorriu muito de seus erros, da própria ingenuidade. Aprendeu a rir de si mesmo e tornar a vida uma comédia. Melhor ser um palhaço que não se leva a sério que um dramaturgo angustiado. Assim foi. Assim era. Mas nada continua sendo. O fim? O fim não tem. Só interrupção.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Eternidade - Interinidade

 


Dizem que se foi. Não está aqui. Nem nunca esteve. Mas se foi. Como deveria ter ido. Sua ausência é sentida como nunca sua presença foi sentida. Sua ausência é absoluta. Ocupa todos os lugares. É definitiva. Define a situação. Tudo se relaciona. Constrói todo um mundo. É uma ideia imperativa. Tudo se articula em complemento ou oposição. Hegel embora tivesse concebido ideias parelhas, não compreenderia isto. Kant desacreditaria. Nietsche desdenharia. Schopenhauer teria horror. Freud nem de longe entenderia, mas escreveria sobre. Agamben culparia a biopolítica. Benjamin saudaria sua perdição, sua derrota. Malatesta diria que se houve uma vitória, foi esta, mas de nada adiantou.

A eternidade é escapadiça. Sempre existe, mas nunca fica. Está fora da temporalidade. É a conjugação de todos os desejos e oportunidades num único instante que se esvai, pois, a areia é movediça. O tempo destrói tudo. Só de tempos em tempos, em instantes únicos conseguimos reunir as peças da perfeição. Peças vadias que nenhum arranjo pode juntá-las. Elas meio que deslisam uma sobre as outras. Só muito trabalho, perseverança e, sobretudo, acaso pode reuni-las mesmo em movimento irregulares e descoordenados com relação a si, a si mesmo e aos conjuntos possíveis.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Verossimilhança

 


Colocaram o furo no papel. A planilha aceitou. Sobrou a dúvida no meio de tanta certeza. Por lá esvaiu o novo. O acontecimento. A novidade veio a dar na praia? Duvida gera novas dúvidas. Nada mais criativo. Por lá escoam verdades mentirosas que se confirmam nos boatos que asseguram o improvável e o impossível. Deu no jornal a notícia garantida pelo especialista sobre algo que ele não tem a mínima ideia. O autor e o ator morrem no enredo de uma falsidade muito mais evidente que qualquer verdade. Plena verossimilhança.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Conto do Wilian


 

Dizem que Wilian nasceu bretão, quer dizer pobretão. Com essa nobreza toda só podia ter nascido em Filadelfia. Cidade coladinha em Estados Unidos do Maranhão, perto de Carolina e Nova Yorque. O nome do estado já não é mais esse. Nem era quando o bretão nasceu.

Na escola de futebol, o chamavam o príncipe por seu jeito de jogar parecer levemente com o do Ademir da Guia, do qual o dono da escola era muito fã. Jogou junto com Marlone esse ícone que conseguiu jogar em clubes grandes como Vasco e Corinthians. Ele que jogava com muito mais classe não foi pra frente. Era estrela das peladas no bico do papagaio. Ganhava um bom dinheiro com contratos pra jogar semifinais e finais de torneios municipais.

Fez muita fama deixando os marcadores no chão pelos campinhos de Augustinópolis, Tocantinópolis, Praia Norte e Sampaio, dentre outras. Mas suas habilidades não bastavam nem pra jogar nos times regionais. Tentou o Tocantinópolis e o Imperatriz, mas não vingou.

O que mais rendeu mesmo foi seu oficio de motorista de van. Fazia viagens por aquele bico todo. Precisava deixar e carregar gente a cada 20 quilômetros, até menos. É uma cidade colada na outra. De Darcinópolis a Esperantina, passando por Augustinópolis e Tocantinópolis nem sabia que centena de cidades passava e quantas dezenas parava. É desgastante, mas dava pra ir e voltar todo dia. Até tomar uma pinga com murici no final do dia.

Ainda bem que entre um município e outro não tinha porteira pra abrir porque se tivesse era mais que dia. Se tivesse que cumprimentar todos os prefeitos das cidades pelo caminho era coisa pra semana. Isso porque limitaram a criação de cidades senão cada fazenda era uma nova cidade.

Cada dia fazia uma rota diferente. As que mais fazia eram entre Sampaio, Tocantinópolis e Augustinópolis. E destas para Araguaína. Geralmente estava de tarde em casa com folga. Nos dias de pelada em que lhe pagavam um dinheirinho pra ajudar a vencer uma taça nem pegava no volante. Quer dizer no da van. Não tinha dó de volante, meia, zagueiro ou lateral. Mas gostava mesmo era de humilhar atacante metido a besta.

Wilian era a fina flor do futebol segundo o dono da escolinha. Jogava futebol com nobreza. Mas não fugia de confusão não. Nenhum jogador lhe intimidava. Não tinha medo de pegar no volante seja pra dirigir ou para o derrubar. Era muito alegre fazendo o que fazia. Não via presente melhor. Futuro? Jogador não tem futuro, dizia.

É isso! Perdoe Wilian, mas até mentira tem limite! Até a próxima...

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...