Andava arrastadamente. Como quem corria em câmara lenta. Não tinha tempo de olhar para os lados. Não olhou e correu cegamente para a linha de chegada. Que linha de chegada? Não via nada. Atravessou o rubicão e morreu livre. Ao lado desmaiaram uns. Resistiram outros. Saltaram tapas. A linha de chegada era a de partida. A esperança era o caminho. Ou seja, ligava a ilusão à desilusão. O caminho estava feito. Fim.
Linhas de um pseudofilósofo menor nas formas possíveis das coisas sem essência e concretitude. Os contos alfabéticos viraram livro em fevereiro de 2026. Vim do passado pra dizer.
Acompanham
domingo, 21 de dezembro de 2025
sábado, 20 de dezembro de 2025
Averiguação
Quisera nascer nascendo como todo mundo. Mas nascera sem nascer. Era uma ideia que se concretizara. Tão substancial quanto o roxo de um olho maculado. Um evento tão duradouro como a forma de uma nuvem. Na memória são eternos. Mas ser eterno é estar fora da temporalidade. A locomotiva come o tempo sem parar. Come estrada, come estrada, come trilho sem parar.
Apareceu no
mundo como isso mesmo. Uma aparição. Como um susto. O pai teve que pedir
aumento ao chefe pra contornar o imprevisto do nascimento do filho que não nasceu.
Ou melhor, até nasceu natimorto enrolado no cordão umbilical do filho que não
estava lá. Não apareceu no ultrassom. Ou apareceu, mas parecia outra coisa. Um
mioma?
O pedido imprevisto
surpreendeu o chefe que nada sabia da situação.
O funcionário que era da administração ficou malvisto por não ter um
planejamento apesar de quase sete meses de conhecimento. A esposa se descobriu
gravida de nove semanas. Mas, como relatei o me contado, ninguém sabia de nada
na realidade visto que o planejado morreu. Nasceu a surpresa.
Segundo uma
enfermeira muito bem informada, o bebe não chorou ao levar palmadas. Chorou ao
sentir o deslocamento de ar que a prenunciava. Chorou com tanto afinco que
precisou com três dias ser calado por uma chupeta para o horror das
odontologistas do hospital. Foi um imenso alívio diminuir o vai e vem da
polícia e dos bombeiros atendendo pedidos de emergência das ligações de vizinhos
do hospital.
Nosso personagem
passou três dias no hospital que tinha um excelente isolamento acústico, mas
infelizmente ainda inútil para a potencia do solfejar do garoto. Poucos minutos
depois de ganhar a chupeta foi pra casa e nunca mais chorou. Quinze minutos
depois deixou a chupeta para mamar. Com cinco anos se tornou especialista em
chupar cana e mastigar favo de mel com zangão e tudo.
Assim foi
para a escola. Fez ensino básico, médio e superior e continuou por lá embora ninguém
saiba dele. Dizem que está num programa de extensão em Angola. Outros afirmam
que é na Nigéria. Alguns dizem que foi encarregado de copiar o modelo coreano.
Os mais frequentes juram que ele anda pelos corredores da biológicas ou da
humanas. Concretamente, na grade de Letras, ele é professor de línguas neolatinas.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Conto de Ulices
Ulices não foi pra ilha de Creta. Nunca
pretendeu tomar uma rainha. Quer dizer, uma vez no xadrez sim. Na Dama nunca
chamou a dama de rainha, então não. Já esteve dentro de um carro durante um
cavalo de pau. Já deu presentes de grego. Mas nunca construiu um cavalo de
madeira. Quando era pequeno ajudava (ou atrapalhava) seu avô fazer
caminhõezinhos de madeira.
Nunca se candidatou a parlamentar, nem a vereador.
Odiava discutir as coisas sabendo que tudo era mera retorica de todos os lados.
Como ninguém convenceria ninguém, todos balbuciavam coisas sem o menor sentido.
Criavam mitologias de dar inveja aos gregos da antiguidade. Ulices fugia disso.
Quando era inevitável dava o seu parecer e corria, corria sem fim pra não
prolongar a conversa mais do que o insuportável que já tinha acontecido.
Mesmo que se candidatasse Ulices não teria
nenhum voto. Nem o seu. Não conseguiria ficar num partido, pois discordava de
todos. Todos não se refere a partidos, mas a todos. Todos mesmo! Inclusive ele
mesmo. Tinha orgulho de não conhecer verdades por mais angustiante que fosse
isso. Não sabia ele que René Descartes seria seu discípulo se tivesse nascido
hoje. Kant seria seu maior fã.
Mas pra seu imenso azar, Ulices nasceu no século
limiar do século XXI. Não na época de Kant ou Descartes. Mas depois de Nietzsche,
Freud e Marx. A plena confusão entre modéstia e soberba. Um mundo de infinitas verdades,
de democratização, de uma verdade pra cada um. Na verdade, múltiplas verdades
pra cada um escolher a conveniente ao momento.
Não quero dizer que Ulices era sincero. Sabia
mentir muito bem. Mas evitava mentir pra não se entregar na esquina. Buscava ter
um limiar de lógica. Não buscava ter razão. Os supracitados filósofos mostraram
que é impossível ter razão. Ter emoção é mais fácil. Mas isso até os gregos
sabiam. Apenas acreditavam que impor uma ordem, uma cosmogonia era possível.
Bobinhos eles.
Ulices não fez filosofia ou história. Era carpinteiro.
Profissão do pai de Jesus. Santo segundo a igreja universal, digo católica. Mas
no mínimo comum pra quem lê os evangelhos apócrifos. Já fizera mesas, cadeiras,
armários, até mesmo brinquedos por encomenda de uma loja de brinquedos pedagógicos.
Daquelas que só os novos ricos frequentam por causa do preço extorsivo. Fizera
até uns dois altares para seu companheiro de profissão santo. Mais comum era
fazer altares pra mulher dele, a mãe de Jesus, que é muito mais popular. Se
tivesse uma conta no Instagram ia espocar de ganhar dinheiro.
Ulices ia na igreja todo domingo pra pedir pra
não entrar farpas no seu dedo, dentre outras coisas. Todo sábado ia na farmácia
pra fazer curativos nos dedos e lixar o portal nunca terminado. Precisava ir no
meio da semana lá passar esmalte. No portal, pra estabilizar o desgaste. “Todo
mundo que vai lá tira uma lasquinha do portal”, dizia ele. Assim vivia Ulices.
Assim tocava Ulices. Melhor! Ia empurrando a vida com a barriga que era pouca.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Conto do Théo
A história de Théo seria uma teogonia? Se a
questão se refere a um demiurgo, certamente não. Mas é uma história do
todo-poderoso, onisciente, sim seria uma teogonia. Quando Théo nasceu
certamente o universo, o sistema solar e o planeta Terra já existiam. Então, de
fato ele não criou nada disso. Embora algumas vezes insinue que sim.
Se ele não criou o mundo como o descrevemos. É
evidente que ele criou um mundo ipso facto, pelo próprio fato: o mundo dele. Em
seu mundo tinha o poder absoluto: só ele poderia conceder. E concedia abundantemente
para demonstrar sua magnanimidade. Seu mundo era formado todo de súditos babões.
Bastava conceder um sorriso de dois dentes para alegrar toda a sala ou quarto.
Conseguia controlar a todos mesmo com
linguagens e gestos primitivos. Todos lhe atendiam. A mãe lhe cedia alimento do
próprio corpo. O pai, a mãe, o irmão mais velho trocavam suas vestes clericais.
Clericais? Clericais achava ele na sua modéstia. Aquele pano ou era clerical ou
papal.
Não entendia porque tinha tanto sono. Mal dava
tempo de brincar com objetos coloridos e barulhentos que colocavam a sua volta.
Do mesmo modo que tinha tanto sono não entendia como dormia tão pouco. Dormia,
acordava, dormia, era tão rápido as coisas que nem dormia, nem conseguia ver
tudo a sua volta.
Tinha uma cisma de que trocavam as coisas a
sua volta. Parece que dormia um pouquinho, trocavam tudo e fingiam que está tudo
igual antes. Até a veste papal era colocada diferente. Parece que só mamãe
entendia a etiqueta do cargo. Papai falou que etiqueta é pequena ética, algo como
bons modos. Algo que o irmão do meio falou que eu não tenho. Mas eu já notei
que ninguém se importa.
Minha vó que daqui a seis meses vou fazer um
ano e vai ter um bolo de chocolate que mamãe falou que só eu não vou comer.
Disse que só vou comer doce depois dos dois anos. Mas acho que dá pra fazer um
esquema com minha vó e meu irmão do meio para comer antes disso. Se eu chorar
com gosto, pelo menos uma dedada do recheio vovó me arranja.
Já tentei engatinhar a sala toda, mas quando
estou quase conseguindo bate um sono ou uma fome. Parece que a vida é me distrair
do que eu queria fazer. Outra coisa que eu percebi é que quase sempre que eu
durmo me colocam no xilindró. Acordo cercado de grades. Ainda colocam uns trens
barulhentos para me distrair e não olhar as grades. Já tentei passar entre as grades. Não dá. Tentei
subir, pular. É muito alto.
Queria dormir sempre no colo da mamãe. Lá é o
lugar mais acolchoado do mundo. Mais acolchoado até que o carpete que vez por
outra acho alguns petiscos. Mamãe tem horror, fica brava. Manda passarem aspirador no carpete umas três vezes
por dia. Mas eu sempre acho algum petisco se dá tempo e como escondido da mamãe
pra ela não ficar triste.
A casa é grande. Não conheci nem um decimo
dela, acho. Mas... como eu falei... nunca dá tempo. Já veio o sono de novo. Boa
noite! Bom dia! Boa tarde! Seja lá o que for. É melhor terminar por aqui mesmo
antes de desmaiar outra vez.
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
A vida segue
Atravessei dois ou três prédios pela rua
Inspirou-me confiança
Acenei efusivamente para o nada
Recolhi todos ou louros da ação
Escolhi recolher-me
Esperar o inevitável
Recolhida a eternidade
A vida segue
A goteira continua a pingar
Faz poça, não rio
Quem ri da areia que flui da ampulheta quebrada?
Novas eternidades virão?
A vida segue
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
O sabiá sabia assobiar
Assim cantou o sabiá
Como sempre
Sabia assobiar
Com a melodia assombrar
E o ritmo encadear
O sol sobe e a lua baixa
As estrelas virão
Mas o maestro
De fraque espera
O momento da condução
Com um assovio
Conduz a orquestra em ascensão
domingo, 14 de dezembro de 2025
O muro
Murei o muro.
Impedi-lo de ir pra lá e pra cá
Fez-se atravessar a divisória
Poucos se equilibram
Caem os outros pra um lado e pro
outro
O chão abraça
A grama afaga
A memória apaga
O rio segue
O barquinho vaga
Rumo ao inesperado
Sólido mesmo só o muro
Bicho-do-mato
“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...
-
Baruch Spinoza ou Bento de Espinosa, funda sua ética no ser humano e na sua ideia do Criador como ser imanente, “Deus, isto é, Natureza”, ...
-
Queria dormir na rede, mas brucutus me chutam fundo. Fico escanteada. Rolo feliz. Percorro os mais de cem metros do campo muitas vezes. Se...
-
Walter Benjamin tinha uma ideia sobre a apreensão/representação nas obras de arte muito interessante. Desejo somente explorar um ...