Acompanham

domingo, 21 de dezembro de 2025

Otimismo

 Andava arrastadamente. Como quem corria em câmara lenta. Não tinha tempo de olhar para os lados. Não olhou e correu cegamente para a linha de chegada. Que linha de chegada? Não via nada. Atravessou o rubicão e morreu livre. Ao lado desmaiaram uns. Resistiram outros. Saltaram tapas. A linha de chegada era a de partida. A esperança era o caminho. Ou seja, ligava a ilusão à desilusão. O caminho estava feito. Fim.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Averiguação

            Quisera nascer nascendo como todo mundo. Mas nascera sem nascer. Era uma ideia que se concretizara. Tão substancial quanto o roxo de um olho maculado. Um evento tão duradouro como a forma de uma nuvem. Na memória são eternos. Mas ser eterno é estar fora da temporalidade. A locomotiva come o tempo sem parar. Come estrada, come estrada, come trilho sem parar.

Apareceu no mundo como isso mesmo. Uma aparição. Como um susto. O pai teve que pedir aumento ao chefe pra contornar o imprevisto do nascimento do filho que não nasceu. Ou melhor, até nasceu natimorto enrolado no cordão umbilical do filho que não estava lá. Não apareceu no ultrassom. Ou apareceu, mas parecia outra coisa. Um mioma?

O pedido imprevisto surpreendeu o chefe que nada sabia da situação.  O funcionário que era da administração ficou malvisto por não ter um planejamento apesar de quase sete meses de conhecimento. A esposa se descobriu gravida de nove semanas. Mas, como relatei o me contado, ninguém sabia de nada na realidade visto que o planejado morreu. Nasceu a surpresa.

Segundo uma enfermeira muito bem informada, o bebe não chorou ao levar palmadas. Chorou ao sentir o deslocamento de ar que a prenunciava. Chorou com tanto afinco que precisou com três dias ser calado por uma chupeta para o horror das odontologistas do hospital. Foi um imenso alívio diminuir o vai e vem da polícia e dos bombeiros atendendo pedidos de emergência das ligações de vizinhos do hospital.

Nosso personagem passou três dias no hospital que tinha um excelente isolamento acústico, mas infelizmente ainda inútil para a potencia do solfejar do garoto. Poucos minutos depois de ganhar a chupeta foi pra casa e nunca mais chorou. Quinze minutos depois deixou a chupeta para mamar. Com cinco anos se tornou especialista em chupar cana e mastigar favo de mel com zangão e tudo.

Assim foi para a escola. Fez ensino básico, médio e superior e continuou por lá embora ninguém saiba dele. Dizem que está num programa de extensão em Angola. Outros afirmam que é na Nigéria. Alguns dizem que foi encarregado de copiar o modelo coreano. Os mais frequentes juram que ele anda pelos corredores da biológicas ou da humanas. Concretamente, na grade de Letras, ele é professor de línguas neolatinas.

Não me cabe saber onde está, nem sou fofoqueiro pra contar. Quem for a Luanda pode até descobrir. Se a Luanda é capital ou mulher, não sei. Boa noite para vocês!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Conto de Ulices

 


Ulices não foi pra ilha de Creta. Nunca pretendeu tomar uma rainha. Quer dizer, uma vez no xadrez sim. Na Dama nunca chamou a dama de rainha, então não. Já esteve dentro de um carro durante um cavalo de pau. Já deu presentes de grego. Mas nunca construiu um cavalo de madeira. Quando era pequeno ajudava (ou atrapalhava) seu avô fazer caminhõezinhos de madeira.

Nunca se candidatou a parlamentar, nem a vereador. Odiava discutir as coisas sabendo que tudo era mera retorica de todos os lados. Como ninguém convenceria ninguém, todos balbuciavam coisas sem o menor sentido. Criavam mitologias de dar inveja aos gregos da antiguidade. Ulices fugia disso. Quando era inevitável dava o seu parecer e corria, corria sem fim pra não prolongar a conversa mais do que o insuportável que já tinha acontecido.

Mesmo que se candidatasse Ulices não teria nenhum voto. Nem o seu. Não conseguiria ficar num partido, pois discordava de todos. Todos não se refere a partidos, mas a todos. Todos mesmo! Inclusive ele mesmo. Tinha orgulho de não conhecer verdades por mais angustiante que fosse isso. Não sabia ele que René Descartes seria seu discípulo se tivesse nascido hoje. Kant seria seu maior fã.

Mas pra seu imenso azar, Ulices nasceu no século limiar do século XXI. Não na época de Kant ou Descartes. Mas depois de Nietzsche, Freud e Marx. A plena confusão entre modéstia e soberba. Um mundo de infinitas verdades, de democratização, de uma verdade pra cada um. Na verdade, múltiplas verdades pra cada um escolher a conveniente ao momento.

Não quero dizer que Ulices era sincero. Sabia mentir muito bem. Mas evitava mentir pra não se entregar na esquina. Buscava ter um limiar de lógica. Não buscava ter razão. Os supracitados filósofos mostraram que é impossível ter razão. Ter emoção é mais fácil. Mas isso até os gregos sabiam. Apenas acreditavam que impor uma ordem, uma cosmogonia era possível. Bobinhos eles.

Ulices não fez filosofia ou história. Era carpinteiro. Profissão do pai de Jesus. Santo segundo a igreja universal, digo católica. Mas no mínimo comum pra quem lê os evangelhos apócrifos. Já fizera mesas, cadeiras, armários, até mesmo brinquedos por encomenda de uma loja de brinquedos pedagógicos. Daquelas que só os novos ricos frequentam por causa do preço extorsivo. Fizera até uns dois altares para seu companheiro de profissão santo. Mais comum era fazer altares pra mulher dele, a mãe de Jesus, que é muito mais popular. Se tivesse uma conta no Instagram ia espocar de ganhar dinheiro.

Ulices ia na igreja todo domingo pra pedir pra não entrar farpas no seu dedo, dentre outras coisas. Todo sábado ia na farmácia pra fazer curativos nos dedos e lixar o portal nunca terminado. Precisava ir no meio da semana lá passar esmalte. No portal, pra estabilizar o desgaste. “Todo mundo que vai lá tira uma lasquinha do portal”, dizia ele. Assim vivia Ulices. Assim tocava Ulices. Melhor! Ia empurrando a vida com a barriga que era pouca.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Conto do Théo


 

A história de Théo seria uma teogonia? Se a questão se refere a um demiurgo, certamente não. Mas é uma história do todo-poderoso, onisciente, sim seria uma teogonia. Quando Théo nasceu certamente o universo, o sistema solar e o planeta Terra já existiam. Então, de fato ele não criou nada disso. Embora algumas vezes insinue que sim.

Se ele não criou o mundo como o descrevemos. É evidente que ele criou um mundo ipso facto, pelo próprio fato: o mundo dele. Em seu mundo tinha o poder absoluto: só ele poderia conceder. E concedia abundantemente para demonstrar sua magnanimidade. Seu mundo era formado todo de súditos babões. Bastava conceder um sorriso de dois dentes para alegrar toda a sala ou quarto.

Conseguia controlar a todos mesmo com linguagens e gestos primitivos. Todos lhe atendiam. A mãe lhe cedia alimento do próprio corpo. O pai, a mãe, o irmão mais velho trocavam suas vestes clericais. Clericais? Clericais achava ele na sua modéstia. Aquele pano ou era clerical ou papal.

Não entendia porque tinha tanto sono. Mal dava tempo de brincar com objetos coloridos e barulhentos que colocavam a sua volta. Do mesmo modo que tinha tanto sono não entendia como dormia tão pouco. Dormia, acordava, dormia, era tão rápido as coisas que nem dormia, nem conseguia ver tudo a sua volta.

Tinha uma cisma de que trocavam as coisas a sua volta. Parece que dormia um pouquinho, trocavam tudo e fingiam que está tudo igual antes. Até a veste papal era colocada diferente. Parece que só mamãe entendia a etiqueta do cargo. Papai falou que etiqueta é pequena ética, algo como bons modos. Algo que o irmão do meio falou que eu não tenho. Mas eu já notei que ninguém se importa.

Minha vó que daqui a seis meses vou fazer um ano e vai ter um bolo de chocolate que mamãe falou que só eu não vou comer. Disse que só vou comer doce depois dos dois anos. Mas acho que dá pra fazer um esquema com minha vó e meu irmão do meio para comer antes disso. Se eu chorar com gosto, pelo menos uma dedada do recheio vovó me arranja.

Já tentei engatinhar a sala toda, mas quando estou quase conseguindo bate um sono ou uma fome. Parece que a vida é me distrair do que eu queria fazer. Outra coisa que eu percebi é que quase sempre que eu durmo me colocam no xilindró. Acordo cercado de grades. Ainda colocam uns trens barulhentos para me distrair e não olhar as grades.  Já tentei passar entre as grades. Não dá. Tentei subir, pular. É muito alto.

Queria dormir sempre no colo da mamãe. Lá é o lugar mais acolchoado do mundo. Mais acolchoado até que o carpete que vez por outra acho alguns petiscos. Mamãe tem horror, fica brava.  Manda passarem aspirador no carpete umas três vezes por dia. Mas eu sempre acho algum petisco se dá tempo e como escondido da mamãe pra ela não ficar triste.

A casa é grande. Não conheci nem um decimo dela, acho. Mas... como eu falei... nunca dá tempo. Já veio o sono de novo. Boa noite! Bom dia! Boa tarde! Seja lá o que for. É melhor terminar por aqui mesmo antes de desmaiar outra vez.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A vida segue

 


Atravessei dois ou três prédios pela rua

Inspirou-me confiança

Acenei efusivamente para o nada

Recolhi todos ou louros da ação

Escolhi recolher-me

Esperar o inevitável

Recolhida a eternidade

A vida segue

A goteira continua a pingar

Faz poça, não rio

Quem ri da areia que flui da ampulheta quebrada?

Novas eternidades virão?

A vida segue

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O sabiá sabia assobiar

 


Assim cantou o sabiá

Como sempre

Sabia assobiar

Com a melodia assombrar

E o ritmo encadear

O sol sobe e a lua baixa

As estrelas virão

Mas o maestro

De fraque espera

O momento da condução

Com um assovio

Conduz a orquestra em ascensão

domingo, 14 de dezembro de 2025

O muro

 


Murei o muro.

Impedi-lo de ir pra lá e pra cá

Fez-se atravessar a divisória

Poucos se equilibram

Caem os outros pra um lado e pro outro

O chão abraça

A grama afaga

A memória apaga

O rio segue

O barquinho vaga

Rumo ao inesperado

Sólido mesmo só o muro

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...