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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Liberdades

           


       Nascera sem desejar, nem ser desejado. Ou melhor, nascido desejado era. Concebido não. Não estivera nos melhores lugares, nem nos piores. Sempre esteve onde deveria estar. Esse o seu problema. Era tudo perfeito demais. Per – feito, feito completamente ou com completitude. Ele sentia, sabia que ainda tinha muita trilha no caminho. Nada estava terminado, finalizado.

Logo nos primeiros meses desesperadamente percebeu como era frágil, completamente dependente. Morria de medo de ficar incompleto, pois a maior parte de si estava em outros. Ao mesmo tempo temia que a maior parte de si era controlada pelos demais. Descobriu cedo a sociedade, esse temível conceito econômico.

Nascera numa comunidade muito fechada e colaborativa, a dos curdos na Síria. Seria sempre um estrangeiro por onde fosse. Talvez um pouco menos no Iraque. Na Turquia provavelmente seria um defunto ambulante. Era estranho como as pessoas mesmo com ideias tao diferentes pensassem com unidade (comunidade). Depois quando estudou a democracia grega percebeu similitudes: os gregos “quebravam o pau” em praça pública, mas a decisão era uma lei natural, inquestionável, a verdade.

Não avaliava aquilo. Era o que era. Provavelmente um despotismo da democracia. Um regime que permite a todos discutir e escolher, mas veda contestar o consenso. Aprendeu cedo liberdade positiva e negativa. Entre os curdos e gregos a positiva existia e era mais plena que nos outros povos, mas inexistia a negativa. Achava isso muito bom e uma porcaria ao mesmo tempo. Era muito prático e eficiente, mas era difícil evoluir a comunidade.

          Assim sem nenhuma naturalidade cresceu, viu a história mudar tudo ao redor. Achou muito confortável viver numa sociedade tradicional. Mas aspirou por muitas vezes se modernizar. Mas ao primeiro espirro mudou de ideia. Não que estivesse satisfeito, mas morreu feliz de ter feito o que fez e vivido o que viveu. 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Neo-existencialismo



Parado na curva

Não sei se desvio

Ou paro

Ou ligo

O acostamento me envolve

Pra todo lado há horizonte

Pra todo lado é verde ou mar

Um caminhão quer me ultrapassar

Ou tirar da pista

Ninguém observa

Ninguém aproveita

Todos querem chegar

Saí do carro

Ele seguiu

Vou viver o momento

Isto é, vou viver

A pressa passa

E chega em algum lugar

Eu já estou no meu

O meu lugar é onde estou

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Caligrafia

Gravaram um A no B

Desentendi o C

Deu maior dor de cabeça

E estávamos só começando

O Alfa e o Beta

Caligrafia nenhuma daria vazão

No caderno traços disformes

Se proclamavam letras

Mas não tinham licenciatura

Ou magistrado

O juiz não entendia as letras

Ou partituras de seu próprio caderno

domingo, 16 de novembro de 2025

Fortuna



Cada esquina tem sua história

Escolhas feitas

Direções marcadas

Decisões limitadoras

Todos os outros caminhos foram perdidos

Oportunidades abandonadas

Deixadas ao leu

Ao alcance da fortuna

sábado, 15 de novembro de 2025

A razão é uma prisão?

Percorri terras longínquas

Na minha imaginação

Prendi-me a cama

Com temor

Dos cenários perdidos

Das esquinas indobráveis

Mas como que decepado

Minha cabeça se desprendeu

Nem mesmo a túnica

O turbante

Os panos incessantemente amarrados

Prenderam minha mente

A cabeça tomou asas

Livrou-se das grades

Convulsionam as ideias

Mas hei de achar a razão

Para domá-las

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Conto de Marianna

 


Ah! Marianna veio de Maria. Não Nossa Senhora. Uma Maria qualquer. Uma Maria vai com as outras. No caso outro, muito melhor que o primeiro. Não era porque fosse descabeçada que não soubesse escolher. Mariana ía às novenas todo dia às seis da tarde com sua meia-irmã na igrejinha no alto do morro. Era uma delícia subir correndo escalando aquela trilha, pedras.

Rezava sempre uma ave-maria e um pai nosso ao dormir. Ao acordar não dava tempo. Nem tinha paz pra tomar café direito. Seu x-tudo sempre ficava pelo meio. Embrulhava num papel alumínio pra depois da novena. Punha na assadeira e esquentava no fogão. Saía toda atabalhoada de casa pra varrer as ruas da vila. Era muito divertido o dia que as varredeiras passavam pela rua porque aí só precisava juntar os lixos e arremessar nos caminhões compactadores. As varredeiras não era a gente. Eram caminhões com engrenagens que passavam as fibras pelas ruas.

Depois das varredeiras que passavam uma ou duas vezes por semana rezava por uma chuva pra lavar e polir as ruas. Não fora sempre gari. Quando mais nova acompanhava o falecido pai nas minas. Era um pouco surda por causa das explosões. Assim que completou doze anos fez uma promessa pra virar gari. Sua vassourinha tá lá na sala de milagres. Aos quatorze graças a enganos e documento fraudado virou varredeira, quer dizer, gari.

Era quase uma varredeira graças a eficiência que varria as ruas. Sobretudo nos raros dias de chuva contínua. Não chegava a ser tão rápida quanto a máquina, mas varria melhor. Era a melhor varredeira humana daquela cidade. Não só da vila, mas talvez do estado.

Nunca vira uma escola. Não era novidade. Só quem viajasse pra cidade veria uma. Tinha um ônibus que vinha buscar alunos pra escola e deixar na primeira curva da rodovia. Quem estudasse de tarde podia pegar o ônibus cedo e completar o percurso a pé. Já tentaram construir uma escola na vila. Tem três esqueletos como prova da intenção. Um deles tem até duas paredes. O resto não passou da fundação.

Fundação, aliás, é o que mais tinha na vila. Fundação disso. Fundação daquilo. Uma tal de ABBC era a que mais afligia Marianna. O uso de privadas era muito recente na vila. O saneamento básico meio que chegou nas primeiras casas há menos de uma década. A Associação Beneficente dos Bons Costumes (ABBC) além de etiqueta ensinava as pessoas a usarem o vaso sanitário. Tinha um banheiro com uns dez vasos que além de serem usados pelas aulas também era usado por quem passava ali perto. A fossa sanitária não foi projetada pra tamanho volume e velocidade de despejo e vazava umas duas vezes por mês.

Viviam pedindo dinheiro para adequar as obras. O prefeito da cidade que não morava lá sempre achava um jeito de Marianna fazer uma “contribuição voluntária” de seu parco salário pra associação dirigida pela tia do ex-prefeito, pai do atual. As melhorias sempre estavam próximas de acontecer. Já fazia dois anos que só faltava um tiquinho pra obra terminar, embora nem tivesse começado.

Só restava a Marianna confiar na promessa feita a São Carlo Acutis, padroeiro da internet, mas que era um santo muito bonitinho. Um de seus santos de maior devoção. A promessa de não varrer o pé de ninguém pra ver se a obra termina. A rua deixa de feder e de tirarem um dízimo do seu misero salário. Pois é. É isso.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Racionalidade



Disseram que tinham razão

Mentiram pra si mesmos

O que tinham era a verdade

Uma verdade pessoal

Um relativismo

Útil pra quem tem razão

Não a verdade

Quem tem razão tem dúvidas

Não tem verdades próprias

Verdades são relativas e inseguras

Verossimilhanças são seguras e úteis

Sabem ser aproximações

Não dogmas

Mas quem tem razão?

Quem pondera

Não quem afirma

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...