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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Conto de Marianna

 


Ah! Marianna veio de Maria. Não Nossa Senhora. Uma Maria qualquer. Uma Maria vai com as outras. No caso outro, muito melhor que o primeiro. Não era porque fosse descabeçada que não soubesse escolher. Mariana ía às novenas todo dia às seis da tarde com sua meia-irmã na igrejinha no alto do morro. Era uma delícia subir correndo escalando aquela trilha, pedras.

Rezava sempre uma ave-maria e um pai nosso ao dormir. Ao acordar não dava tempo. Nem tinha paz pra tomar café direito. Seu x-tudo sempre ficava pelo meio. Embrulhava num papel alumínio pra depois da novena. Punha na assadeira e esquentava no fogão. Saía toda atabalhoada de casa pra varrer as ruas da vila. Era muito divertido o dia que as varredeiras passavam pela rua porque aí só precisava juntar os lixos e arremessar nos caminhões compactadores. As varredeiras não era a gente. Eram caminhões com engrenagens que passavam as fibras pelas ruas.

Depois das varredeiras que passavam uma ou duas vezes por semana rezava por uma chuva pra lavar e polir as ruas. Não fora sempre gari. Quando mais nova acompanhava o falecido pai nas minas. Era um pouco surda por causa das explosões. Assim que completou doze anos fez uma promessa pra virar gari. Sua vassourinha tá lá na sala de milagres. Aos quatorze graças a enganos e documento fraudado virou varredeira, quer dizer, gari.

Era quase uma varredeira graças a eficiência que varria as ruas. Sobretudo nos raros dias de chuva contínua. Não chegava a ser tão rápida quanto a máquina, mas varria melhor. Era a melhor varredeira humana daquela cidade. Não só da vila, mas talvez do estado.

Nunca vira uma escola. Não era novidade. Só quem viajasse pra cidade veria uma. Tinha um ônibus que vinha buscar alunos pra escola e deixar na primeira curva da rodovia. Quem estudasse de tarde podia pegar o ônibus cedo e completar o percurso a pé. Já tentaram construir uma escola na vila. Tem três esqueletos como prova da intenção. Um deles tem até duas paredes. O resto não passou da fundação.

Fundação, aliás, é o que mais tinha na vila. Fundação disso. Fundação daquilo. Uma tal de ABBC era a que mais afligia Marianna. O uso de privadas era muito recente na vila. O saneamento básico meio que chegou nas primeiras casas há menos de uma década. A Associação Beneficente dos Bons Costumes (ABBC) além de etiqueta ensinava as pessoas a usarem o vaso sanitário. Tinha um banheiro com uns dez vasos que além de serem usados pelas aulas também era usado por quem passava ali perto. A fossa sanitária não foi projetada pra tamanho volume e velocidade de despejo e vazava umas duas vezes por mês.

Viviam pedindo dinheiro para adequar as obras. O prefeito da cidade que não morava lá sempre achava um jeito de Marianna fazer uma “contribuição voluntária” de seu parco salário pra associação dirigida pela tia do ex-prefeito, pai do atual. As melhorias sempre estavam próximas de acontecer. Já fazia dois anos que só faltava um tiquinho pra obra terminar, embora nem tivesse começado.

Só restava a Marianna confiar na promessa feita a São Carlo Acutis, padroeiro da internet, mas que era um santo muito bonitinho. Um de seus santos de maior devoção. A promessa de não varrer o pé de ninguém pra ver se a obra termina. A rua deixa de feder e de tirarem um dízimo do seu misero salário. Pois é. É isso.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Racionalidade



Disseram que tinham razão

Mentiram pra si mesmos

O que tinham era a verdade

Uma verdade pessoal

Um relativismo

Útil pra quem tem razão

Não a verdade

Quem tem razão tem dúvidas

Não tem verdades próprias

Verdades são relativas e inseguras

Verossimilhanças são seguras e úteis

Sabem ser aproximações

Não dogmas

Mas quem tem razão?

Quem pondera

Não quem afirma

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Heráclito de Éfeso

Paixão é ativo

Impedimento é passivo

Contabilisticamente somar ativos ou passivos

Debitar dos ativos os passivos

Não tem lógica

Que paixão tem um impedimento peremptório?

Que impedimento não tem sua paixão?

A matemática cria artificialidades

Ao somar sementes de laranja com sementes de banana

E debitar as sementes de abacaxi ou morango

Eu e você somos dois

Mas podemos ser três ou quatro

Até tudo podemos ser

Ou nada

Tanto faz

Somos o que somos

Racionalidade nenhuma nos classifica

Somos também quem ainda não somos

Somos o que não queremos ser

Almejamos o que já somos

Não há como compreender

Certo estava Heráclito

A lógica de Parmênides não nos define

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Conjugar o verbo Helô



Helô, meu Amor

Ah se eu pudesse atravessar a fronteira

Entrelaçar nossos pensamentos

Comungar nossos corpos

Beber nossa alma desregradamente

Puir nosso espirito

Como carvão veste a lousa

Desbundar a existência

Em eterno mundo

Inabalável festa

Estaria eu no nirvana

Não naquele que não sente mais nada

Mas naquele que sente tudo

Meu tudo: Você.

Fronteira

É preciso reconhecer o que é fronteira

O que é fronteira? É tudo que interessa

Acima do muro é fronteira

Minha pele com a sua é

Tudo que arreda minha casa

Os limites do meu bairro

Minha cadeira no bar é

O gostoso é ultrapassar

Visitar com os sentidos sempre que convidado

Viver o abraço

Ter saudade do abraço

Sentir o abraço na voz

Dos queridos, amados, considerados

Beijo já é imersão

Invasão, espero que sempre consentida

Ou seja, viver é sempre estar na fronteira

Sobreviver é voltar pra casa

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Financeirismos

Contam os contos contadores

Tratando as tragédias

Como glórias

Dividas como investimentos

Mortes como tragédias

Fome como falta

Excesso como lucro

As barrigas?

Empurram pra amanhã

Os dramas de hoje

E quem se importa?

O que importa é o PIB

O que se exporta

É o balanço

Senta no balanço

E esquece o mundo

Ao ver o umbigo

domingo, 9 de novembro de 2025

Deturpando existencialismo é niilismo



Quisera ter tudo

Quisera ter nada

Desejava o mesmo

Tudo diferente do que estava

Era um sábio

Sabia que não ter nada

Não pertencer a nada

Significava não possuir

Pertencer.

Quem tem é responsável

Não desejava

Tinha o que lhe vinha

E se despedia alegremente

Do que nunca foi seu

Mas eu

Eu tenho

Tenho demais

Tenho muito medo

As coisas me têm

Enquanto não me livro delas

Existencialismo é niilismo

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...