Acompanham

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Relação

Se voar faz parte,

Cadê minhas asas?

Cortaste devidamente

Não cabe no inferno

Ser um anjo

Ou cabe?

O que cabe ou não cabe

Não me interessa

Fostes insipida

Inodoro eu fui

Trocamos

Não cabe ter asas no covil

Cabe ter chifre?

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Aventura

Derrapei no caminho

Perdi o sol

Rolei na lama

Faltou água

Me enxuguei no vento

Formou crosta

Me quebrei no cipó

Sujou o açude

Passei sabão

A roupa era branca

De marrom virou cinzas

O fogo apagou

Voltei pra casa

domingo, 5 de outubro de 2025

Domingos

Eu cá no domingo

O povo lá no Domingos

Não me animo

Nem me desespero

A cachaça é boa

Mas a calma é ébria

O samba é bom

Mas o silêncio...

Domingos é lá na esquina

Minha mente vai mais longe

Chegará o dia de Domingos

Por hora cá estou

sábado, 4 de outubro de 2025

Nada

 

No meio do caminho há fins

No final só desilusão

No início não havia nada

 

No meio do meio-fio há fios

No final mera combustão

No início uma subestação

 

No meio da noite insônia e desilusão

No final alguma conclusão

No início breja e torresmo

 

No meio, no final e no início não havia

Havia tudo

Nada que não pudesse ser feito

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Conto do Guilherme

 


Guilherme Tell, ou Guilherme de Tell, foi um arqueiro famoso cantado em prosas e verbos pelo mundo ocidental todo. Mas nunca foi nem a sombra de seu bisneto Guilherme de Tal, que não precisava de frutas tão vistosas como uma maçã para acertar a poucos quilômetros de distância.  Coisa de amador! Gostava de cortar longitudinalmente fios de cabelo arremessando do arco pequenas agulhas para infligirem módicos furos em fios de cabelos em sequência.

Com tamanha precisão não podia trabalhar num castelo, nem mesmo num teatro. Precisava se exibir num circo de pulgas. Era preciso uma micro atenção, uma visão microscópica para sua arte. Só mesmo com a ampliação de milhões de vezes numa tela era possível se maravilhar com tamanha destreza. Era muito complicado! Confundiam arte milimétrica com minimalismo.

Tinham que ampliar milhões de vezes num telão para as pessoas verem. Tanta destreza e eficácia dificultava tudo. Não era uma habilidade que lhe sustentaria por muito tempo. Virou chefe de cozinha molecular. Assim podia fazer seus malabarismos e se exibir em pratos exóticos acuradamente calculados. Reações vistosas e belas.

Adorava fazer luzes, controlar luzes. Ver as mudanças de cores, odores, sabores. Mudar texturas. Transformar a culinária em laboratório para fazer malabarismos. Lançar temperos aos pratos com precisão milimétrica. Virar omeletes, tortas, tortilhas, panquecas...  Arremessar pratos às mesas.

Chegava todo dia de madrugada na cozinha pra treinar os seus novos truques, testar composições. Se divertir com cores, odores e sabores. Depois ia a feira quase no amanhecer pra fazer malabarismos com frutas e verduras. De volta a cozinha picava os ingredientes em diferentes formas e texturas. Tirava um cochilo num quartinho ao fundo da cozinha. O restaurante só abria uma hora da tarde.

Quem quisesse provar só tinha das 13h ás 17h pra aproveitar. O restaurante ficava aberto até às 22h mas o artífice era outro. Guilherme era irredutível com o horário de trabalho: das 3h ás 9h, das 12h às 17h. Dia sim, dia não. Nos dias não treinava em casa a tarde inteira os arremessos de pratos com o arco.

Era uma espécie de teste de qualidade dos pratos. Era o maior descobridor dos lotes com defeitos. As louças eram testadas com muita delicadeza. Pois ele sabia fazer os pratos aterrizarem com maior cuidado que se fossem colocados com a mão na mesa. Também testava os forros de mesa pra descobrir se eram lisos o suficiente para serem retirados sem mover o que estava acima deles.

Uma rotina muito regular que não permite o descanso de Guilherme que aliás já me confidenciou que é o momento. Boa noite, Guilherme! Bom dia leitor. Eu sigo minha insônia por aqui, mas não nesse texto. Descansem!

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Presente e Passado

 

Quanto mais me despeço

Mais me prendo

À um futuro aberto

À prisão das lembranças

 

Quanto mais me desprendo

Mais preso estou

Às ações futuras

Aos acertos do passado

 

Se a locomotiva chega

Traz consigo um monte de vagões

À frente trilhos inexplorados

Nos vagões muita carga

domingo, 28 de setembro de 2025

Oligo e Poli

A variedade quase sempre renega a qualidade dos produtos, cria a impressão de que tudo é uma porcaria ou pior ainda que tudo é a mesma porcaria. Quando há pouca variedade de oferta a qualidade é muito mais destacada. Não digo que os produtos se tornam melhores, mas que se torna muito mais fácil comparar um e outro. Tendemos a escolher o de melhor qualidade.

Quando há variedade, sobretudo muita variedade, fica difícil comparar e se encontramos uma variedade de produtos ruins. Basta serem dez ou vinte porcento, tendemos a perceber que a maioria é ruim, quando não todos são ruins. Aí se destaca o preço como um diferencial perceptível cuja a variedade naturalmente provoca e ofusca a qualidade.

Podemos estender isso pra uma série de coisas quando se amplia a oferta: música, séries, filmes. Nem preciso discutir os produtos físicos com a sua validade. A questão de moda ou de caducidade. Retirando a questão da memória afetiva que tende a ressaltar as qualidades e esconder os defeitos que interfere absurdamente nessa questão, dizer que as músicas de ontem ou os filmes de ontem são melhores que os atuais é afetado pela disponibilidade.

Sem dúvida a questão da concorrência faz com que se fabrique cantores, cantoras, grupos e músicas pra fazerem sucesso mesmo que momentâneo. Mas isso não é nada novo. Boys Band são criadas há décadas. Quando eram em menor quantidade, quando gravar não tinha se popularizado tanto tinham que ser melhores porque senão nem gravavam a principio e se gravassem era relativamente fácil comparar as obras com parcimônia. Não havia tantas para apreciar.

       Além disso, reforço um por cento dos indianos faz mais barulho que dez ou vinte por cento dos espanhóis ou italianos. O volume dá a falsa impressão de alguma apreciação. Mesmo que no passado metade das músicas fossem ruins, vinte por cento das músicas hoje serem ruins faz muito mais volume e barulho. A metade ou só cinco por cento das músicas do passado eram facilmente ignoradas se concentrando nas boas. Hoje o volume é tão grande que você não tem tempo nem de conhecer quanto mais de apreciar e separar. Rapidamente se chega ao julgamento: é tudo uma m...!!!

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...