No meio da cidade vivia Dauti. Caminhando
entre prédios à procura de arvores para pousar sua cadeirinha que sempre trazia
à tiracolo. Morava mesmo bem longe dali, mas todo dia cedo o metrô a trazia.
Meros vinte minutos. Dificilmente leria ou ouviria um capitulo de um livro no
caminho. Mas sempre insistia na rotina. Trazia sempre um livro consigo.
No caminho não via, nem ouvia nada além do seu
ultrafoco temporário. Era como se tudo mais se tornasse opaco até chegar ao
centro. No seu local de trabalho ou lazer era todo ouvidos, todos sentidos.
Apreciava detalhadamente todas as singularidades. Nada escapava da atenção de
Dauti.
Sabia de tudo. E, provavelmente de quase
todos. Não era bem um investigador ou um espião. Parecia mais um especulador.
Não um econômico ou político, mas um social. Para quase todos era um
fofoqueiro. Falava muito. Espalhava especulações. Mas na verdade não dividia
nada do que sabia. Todas as jogadas mais importantes estavam guardadas.
Era um enxadrista 4D. Fazia suas jogadas
simples parecerem imensamente complexas. As jogadas mais elaboradas aguardavam
uma a uma seu momento. Só uma ou duas de centenas já estavam à luz do sol. Não
acreditava em predição, por isto remodelava suas ações ao sabor do clima.
Era o momento de uma casquinha de sorvete. Mas
não podia sair de sua banca agora. Não até dar dicas do perigo próximo.
Calmaria não é bom. Logo viriam os agentes. Era hora do rapa ou da cobrança de
licenças ou subornos, taxas de segurança. Um piscão ou uma dica insidiosa
bastava para avisar aos outros ambulantes do perigo. Assobiar uma opera
bastaria?
Fizera sua parte. Faltava a deles. Era preciso
recolher todos as balburdias. Medir todas as ações. Pesar todas as exceções.
Começava o divertimento. Não terminaria tão cedo. Estava lá energizado pelo
astro-rei captando traços da realidade daquelas quadras. Sabia distinguir cada
piado. Conhecia o cantar do azulão, do sabiá, de pintassilgo, da andorinha.
Ouvia até cantar de beija-flor.
Conhecia o andar de cada tipo de formiga.
Pressentia esperanças ou bichos da folha. Era um observador sossegado que
dominava todo o ambiente captando tudo. Até queda de pingo d’água notava. Do nascer ao por da luz estava ali. Á noite
confeccionava suas anotações. Dos bloquinhos o entendimento dos dias
posteriores. Dos vindos novas observações.
Das observações, sua vida. Da vida, uma
rotina. De rotineiro nada. Semente virou muda. A muda muda tudo. Virou
gramínea, arbusto, trepadeira ou árvore. Cada dia era um novo. Igualmente dia,
mas com enredo muito diferente. Nova rotina, velhos medos, novas esperanças,
novíssimas decepções. Novidades, novidades, novidades sobre as mesmas coisas
que já não são mais as mesmas.
Aquelas ruas não param de fluir, vicejam de tiririca,
há vida por todo lado. Preenche todo espaço vazio. Dauti precisava organizar
minimamente aquela confusão. O fazia todo dia pra entender aquele mercado. Não
gastava conselhos à-toa. Aglutinava conhecimentos para si. Assim Dauti era o
príncipe da Moca.