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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Floricultura

 


Eu estava lá colhendo pólen e néctar tranquila. Chegou um pessoal e começou a cortar o caule das flores tudinho. Meio atordoada fui junto com uma flor. Algumas de mim tentaram ferroar aqueles seres desprezíveis. Poucas conseguiram. A rainha diz que todas somos um. Bom.. parte de nós foi colhida com as flores.

Nossa coletividade é a rainha. A rainha é um pouco zangão. As operarias todas são a rainha. milhões de ovos precisam de mel para virarem zangões. Senão (que vergonha!) vira operária. Da geleia real morta esta, nascerá outra rainha. Esse é o mito fundador contado pra nós. Também para si, porque nós todas juntas somos a rainha. A colmeia é a rainha. Os zangões são os amantes da colmeia. Eles não apagam o nosso fogo. Nem as flores apagam. Nada nos satisfaz. Mas como somos a colmeia e a rainha. os zangões são nossos amantes sem o ser.

Vez por outra esses mesmos indivíduos vem tomar nosso mel, nossa geleia real, nosso própolis. Vez por outra esses psicopatas vem nos matar por nada. não querem dividir as flores conosco, mas  roubam nossos produtos, nossa vida. E quando perdemos nossos ferrões neles e parte do nosso sistema digestivo, ficam chateados. Alguns até revoltados como se quem tivesse morrido fossem eles,

Nos sequestram e matam e ainda sustentam que os vilões sonos nós. Roubam nossas flores pra entregar entre si para colocar num vaso d'água e deixar murchar. Quando muito. Tem deles que fazem artefatos elaborados pra colocar no chão sem nenhuma agua.

Malditos! Malditos! Só o que posso bradar.... o que pode uma abelha?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Floricultura

 


Desejava não ter nascido. Porque quem nasce, morre. Acreditava que se tivesse morrido, talvez fosse agora um elefante. Ou uma águia. Provavelmente seria uma pulga a importunar a dobra da orelha de alguma girafa. Estaria destinada a planar indefinidamente até se estabancar no chão. Provavelmente protegida da queda por alguma palha ou fezes mesmo.

Isso se fosse indiano. Como era cosmologista, provavelmente seu ser, já diluído no universo, estaria desintegrado nele. Gostaria de ser cristão. Acreditar em céu ou inferno para torturar sua alma. Seria um pós-vida com sentimentos, sensações. Não o blasé de estar lá, mas sem estar, sem consciência, sem sentimentos.

Desde muito cedo saiu pelo mundo de seu quintal ou de seu bairro admirando os incontáveis mistérios da natureza. Aprendeu a contemplar cada queda de folha, cada abrir de flor. Cada manhã em sua vida uma caminhada de meditação, bruscamente interrompidas por cheiro de café ou de lúpulo várias vezes. Era preciso se concentrar. Saia sempre do Jardins com destino ao cemitério onde a vida era intensamente exaltada por quem já tivera mostra do fim. Só os terminados estavam em paz.

Construía coroas a gosto do freguês. Consumidores exigentes que se ligavam muito nos detalhes. Ouvia discussões infernais de almas caridosas sobre ações que em nada alteravam o estado do falecido. Era um ser muito paciente e nada emocionado, embora quase sempre tivesse que fingir alguma empatia. Era melhor assim. Se fosse emocionado como alguns de seus colegas certamente bateria boca com os clientes como presenciou várias vezes.

Tinha sempre que madrugar na antiga Cobal pra comprar as mais variadas flores. Flores das mais variadas cores. Dos mais variados odores. Algumas nem acreditava que eram tão vendidas por causa do odor insuportável. Entretanto tinha a oportunidade de achar flores exóticas e belas que sempre guardava para sua netinha. Podia toda manhã tomar um breve desjejum com os amigos antes de se deslocar pra próximo ao cemitério.

Não era uma má vida. Embora sua vida fosse prioritariamente a morte. Menos quando sua linda netinha visitava sua casa lá pelas 19, 20 horas. Pouco antes de atravessar dois domicílios pra dormir em sua casinha. Amanhã de madrugada estarei na labuta. Então... boa noite!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Vagabundo

 


Nasceu numa família rica, muito austera. Trabalhou desde os dois anos. A família fazia questão de que todos os dias ele arrumasse sua cama apesar das dezenas de empregados na casa. Trabalhou duro mesmo desde muito cedo: aos cinco anos já estava travado numa mesa com um homebroker comprando e vendendo ações e dólares.

Trabalhou duro de domingo a domingo. Sempre se manteve frio mesmo quando algumas vezes deixava de ser bilionário para ser multimilionário. Sabia que era questão de tempo para voltar a ser bilionário. Uma aposta correta devolveria os milhões perdidos ou caso sua aposta fosse errada bastava pressionar o governo para devolver suas perdas com correção monetária e juros.

Era um cara muito frugal e simples. Nunca comprou uma mansão ou casa de praia. Apenas usou as herdadas da família. Sempre comprava os melhores planos de internet pra poder trabalhar arduamente de cada uma das casas herdadas. Era trágico. Não conseguia todo dia pegar seu jatinho e ir para a praia. Mas, felizmente essa rotina se deu apenas dos dois aos trinta e cinco anos.

Ele se deu alforria. Não importava se para isso ele se tornasse apenas mais milionário. Foi realizar seu sonho de vagar pelo mundo. Tornou-se um vagabundo, aquele que vaga. Começou a atravessar fronteiras de país a país e sinceramente nem sempre num hotel cinco estrelas. Muitas vezes foi obrigado a se abrigar num quatro estrelas e não tem problema nenhum.

Nessas viagens começou a criar um blog com dica de viagens, de onde ficar, onde ficam os restaurantes mais impressionantes, o que visitar, etc. Essas coisas que um vagabundo pode fazer com maestria. Em seus momentos de ócio aprendeu a afiar lâminas de trenó, pescar no gelo, até mesmo salgar carnes no ártico. Desenvolveu a musculatura da perna. Nunca pensou que conseguiria andar tantas esquinas de uma vez.

Era muito mais exaustivo ser um vagabundo. Nunca pensou que dava tanto trabalho. Tinha até por alguns momentos a saudade de quando trabalhava. Mas... bobagem... sua nova vida de vagabundo era muito melhor.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cada um mora onde quer

 


Conta a história. Sempre contam uma história. Dizem que os que não foram, ficaram. Não posso afiançar isso. Alguns morreram pelo caminho. Não de morte matada, mas de morte morrida. Meio estranho dizer isso. Porque toda morte morrida é meio matada. O tempo que morre é o mesmo que te mata. Mas, certamente, entre mortos e feridos, ficaram os feridos. Os que não ficaram materialmente, guardaram cicatrizes dolorosas na alma.

Atravessar de uma esquina a outra é mortal. Tem no mínimo três bares e duas lanchonetes no caminho. Sem contar com a melhor padaria da cidade. Onde você pode pedir um lindo misto-quente e ganhar uma facada ou duas. Haja fígado pra atravessar o purgatório. Nos bares tem sempre um conhecido, talvez até um amigo, que ficou de ontem e está bebendo pra evitar a ressaca.

Entre o primeiro bar e o segundo, o morador de rua de estimação do bairro. Ele trabalha e manhã na padaria. À noite num dos bares. De tarde, a gente anda pé ante pé pra não acordar ele. Fizeram um abrigo perto do hidrante para ele. A prefeitura foi obrigada a ignorar. Coisa que ela tem muita prática. Tem sempre um vereador de direita querendo expulsá-lo do bairro. Tem sempre um de esquerda tentando obriga-lo a morar numa casa. Ele resiste a ambos e a comunidade o apoia: cada um mora onde quer.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Limites artificiais

 


Formam-se os limites

No limite as formas

Transigir a ordem é a lei

A norma é a forma

Feita a constituição

Respeitem-na!

A liberdade é fazer o possível

Querer o impossível

Trabalhar para mudar a forma

Respeitar as convenções

Questionando a norma

O que é normal?

Respeitando a diversidade

Uma selva toda anárquica

Organizaram as tribos com limites

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Pirâmide

 


O maior desserviço que as notícias fazem é o sensacionalismo, a polêmica para chamar a atenção. Elas impossibilitam a reflexão pois ignoram as nuances que poderiam estar lá e que muitas vezes ate ampliariam o absurdo. Transformam seres humanos falhos em personagens, em vilões e heróis, idiotas completos e sábios seguros. Recortam qualidades e defeitos e muito pior omitem suas origens.

Para falar sobre isso não preciso nem de um herói, nem de um vilão. Basta um idiota como eu. O Brasil é um país recém saído da colônia, da monarquia e do escravismo. Portanto, somos um país autoritário, antiliberal e preconceituoso por razões diferentes da Europa que foi nossa matriz por mais tempo. Somos uma sociedade de castas disfarçada de democracia. Ao contrário do que afirmam (o povo não sabe votar, os pobres não sabem votar, a classe média não tem consciência, por exemplo), no Brasil todo mundo sabe votar muito bem: os miseráveis votam a favor de quem os ajuda, os pobres votam naqueles que garantem seus privilégios com relação aos miseráveis, a classe média em quem os diferencia dos pobres, os ricos da classe média, os ricos refinados, dos novos ricos cafonas.

  Todos herdamos todos os preconceitos possíveis. A diferença entre o democrata e o preconceituoso está na consciência dos defeitos que tem e na necessária luta contra as próprias imperfeições. O racista, misógino, etarista, homofóbico ou xenófobo nutre mentiras ou pseudociências para justificar seus desejos. Aquele que não acredita ter preconceitos em si ou na sociedade está condenado a diferenciar os seres humanos. Então uma matéria se referir a um preconceituoso como se ele tivesse vindo de marte, fosse uma exceção transforma o ônibus atropelou o cachorro em o cachorro atropelou o ônibus. Algo muito raro, que não merece preocupação porque dificilmente volta a acontecer. Mantem a sociedade em uma pirâmide de castas como algo natural  e desejável.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Economia

 


Se tudo fosse pó

Cadê meu café?

Onde fica o aspirador?

Salva o dia uma soneca?

Duvidas não formam certezas

As convicções suportam dúvidas?

Assim segue-se sem viver

Pois onde semeia=se vida

Florescem as duvidas

Isso não é filosofia

A hermenêutica não suporta dogmas

Como a providencia o inesperado

Mas se interessa descobrir

Algo não foi dado

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...