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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Heráclito de Éfeso

Paixão é ativo

Impedimento é passivo

Contabilisticamente somar ativos ou passivos

Debitar dos ativos os passivos

Não tem lógica

Que paixão tem um impedimento peremptório?

Que impedimento não tem sua paixão?

A matemática cria artificialidades

Ao somar sementes de laranja com sementes de banana

E debitar as sementes de abacaxi ou morango

Eu e você somos dois

Mas podemos ser três ou quatro

Até tudo podemos ser

Ou nada

Tanto faz

Somos o que somos

Racionalidade nenhuma nos classifica

Somos também quem ainda não somos

Somos o que não queremos ser

Almejamos o que já somos

Não há como compreender

Certo estava Heráclito

A lógica de Parmênides não nos define

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Conjugar o verbo Helô



Helô, meu Amor

Ah se eu pudesse atravessar a fronteira

Entrelaçar nossos pensamentos

Comungar nossos corpos

Beber nossa alma desregradamente

Puir nosso espirito

Como carvão veste a lousa

Desbundar a existência

Em eterno mundo

Inabalável festa

Estaria eu no nirvana

Não naquele que não sente mais nada

Mas naquele que sente tudo

Meu tudo: Você.

Fronteira

É preciso reconhecer o que é fronteira

O que é fronteira? É tudo que interessa

Acima do muro é fronteira

Minha pele com a sua é

Tudo que arreda minha casa

Os limites do meu bairro

Minha cadeira no bar é

O gostoso é ultrapassar

Visitar com os sentidos sempre que convidado

Viver o abraço

Ter saudade do abraço

Sentir o abraço na voz

Dos queridos, amados, considerados

Beijo já é imersão

Invasão, espero que sempre consentida

Ou seja, viver é sempre estar na fronteira

Sobreviver é voltar pra casa

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Financeirismos

Contam os contos contadores

Tratando as tragédias

Como glórias

Dividas como investimentos

Mortes como tragédias

Fome como falta

Excesso como lucro

As barrigas?

Empurram pra amanhã

Os dramas de hoje

E quem se importa?

O que importa é o PIB

O que se exporta

É o balanço

Senta no balanço

E esquece o mundo

Ao ver o umbigo

domingo, 9 de novembro de 2025

Deturpando existencialismo é niilismo



Quisera ter tudo

Quisera ter nada

Desejava o mesmo

Tudo diferente do que estava

Era um sábio

Sabia que não ter nada

Não pertencer a nada

Significava não possuir

Pertencer.

Quem tem é responsável

Não desejava

Tinha o que lhe vinha

E se despedia alegremente

Do que nunca foi seu

Mas eu

Eu tenho

Tenho demais

Tenho muito medo

As coisas me têm

Enquanto não me livro delas

Existencialismo é niilismo

sábado, 8 de novembro de 2025

Libertarismo

Livre associação

Que merda de liberdade

Acabaram com os sindicatos

Liquidaram as associações

Restaram as limitadas

Ações individuais

Individualistas

Só há sujeitos

Sujeitos a tudo

Não há humanidade

Só o desumano

As pessoas se abrigam

Em clãs

Nas famílias nucleares

Em si mesmas

Ensimesmadas

Ao ver que tudo o que cerca

É farpa

Preferem não fazer mutirão

Ou tem preguiça

Pra derrubar as farpas

E fazer um mundo

Pra todos

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Conto da Lana

 


Lana plana sacana na cama. Era só uma sonequinha de uma hora. Lana engana. Já faz mais de três horas pregada naquela beliche. A escada grudada de suor naquele dia de 50º. Lana coberta com lençol, cobertor. Deve estar com febre pensei. Nada! Queria brincar de sauna.

Lana sobe no coqueiro e pega dois cocos para nós! Nada! A essa hora já devia estar delirando de tanta desidratação. Fui eu mesmo colocar uma escada no coqueiro. Não dou conta de trepar na coisa. Já derrubei logo um cacho de cocos sem me preocupar se algum cairia na cabeça do cachorro ou de algum calango.

Pronto! Lá estão uns três ou quatro cocos no chão. Laninha vem cá beber uma água de coco! Nada da Lana! Fui eu lá levar um coco com canudo de papel pra menina beber. Agorinha termina meu turno e é hora dela ir pra frente da mercearia. Pronto! Deu duas da tarde! Saio eu, entra Laninha, a fofinha.

Vem toda faceira pra conferir o dinheiro do caixa. Tem uns poucos trocados da manhã. A grana mesmo já botei no cofre. Passa Tia Luna e dá oi: Oi, Laninha! Laninha nem! Laninha dá um breve aceno. O carteiro chega em ponto. Duas e cinco. Cinco minutos atrasado. Laninha deu os parabéns pelo atraso. Nunca tinha conseguido atrasar tanto.

Foi ver se no meio das contas tinha uma carta. Viu um monte de anuncio que o carteiro recolheu no caminho. Um monte de contas. Meu Deus! Esse mês vamos ganhar o suficiente para pagá-las? Vamos ficar sem a barraca na quermesse? Tudo se ajeita com o tempo... resignava-se ela.

Clientes pipocavam pelo balcão. Ninguém queria pipoca nesse inicio da tarde. Pediam café com leite. Pão na chapa. Roscas. Suco de laranja, de limão. Tapioca. Café da manhã essa hora? Não sabiam que já estava de tarde? Será que acordaram agora ou é algum fetiche? Talvez os funcionários do contraturno da usina. Trabalhavam das quatro às duas da tarde.

Mas os funcionários do contraturno não eram tantos. Muitos aproveitavam a oportunidade pra ver a espevitada. E lá estava Lana com seus parcos um e sessenta se esgueirando entre prateleiras, clientes e cobradores. Cobradores só eram três. Cobravam uma dívida do dono anterior que escafedera de lá. Já tinham perdido a esperança de receber, mas o café da mercearia era muito bom. Um arábica plantado numa fazendo próxima colhido com o máximo cuidado. Torrado ao relento e selecionado com o cuidado de quem faz café pra si mesmo.

Laninha ficava lá só das duas às seis, talvez sete. Depois fechava a mercearia. Só contava o dinheiro e colocava os elásticos. Não conferia. Ia pra academia pra manter a elasticidade pra contornar como agua aquelas pedras no caminho. E também pra ter um bom sono. Pra ter bons sonhos tomava um café com flor de laranjeira.

Isso é tudo! É o que me disse Lana. Lana engana. Mas quem não quer ser enganado por Lana?

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...