Acompanham

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Fronteira

É preciso reconhecer o que é fronteira

O que é fronteira? É tudo que interessa

Acima do muro é fronteira

Minha pele com a sua é

Tudo que arreda minha casa

Os limites do meu bairro

Minha cadeira no bar é

O gostoso é ultrapassar

Visitar com os sentidos sempre que convidado

Viver o abraço

Ter saudade do abraço

Sentir o abraço na voz

Dos queridos, amados, considerados

Beijo já é imersão

Invasão, espero que sempre consentida

Ou seja, viver é sempre estar na fronteira

Sobreviver é voltar pra casa

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Financeirismos

Contam os contos contadores

Tratando as tragédias

Como glórias

Dividas como investimentos

Mortes como tragédias

Fome como falta

Excesso como lucro

As barrigas?

Empurram pra amanhã

Os dramas de hoje

E quem se importa?

O que importa é o PIB

O que se exporta

É o balanço

Senta no balanço

E esquece o mundo

Ao ver o umbigo

domingo, 9 de novembro de 2025

Deturpando existencialismo é niilismo



Quisera ter tudo

Quisera ter nada

Desejava o mesmo

Tudo diferente do que estava

Era um sábio

Sabia que não ter nada

Não pertencer a nada

Significava não possuir

Pertencer.

Quem tem é responsável

Não desejava

Tinha o que lhe vinha

E se despedia alegremente

Do que nunca foi seu

Mas eu

Eu tenho

Tenho demais

Tenho muito medo

As coisas me têm

Enquanto não me livro delas

Existencialismo é niilismo

sábado, 8 de novembro de 2025

Libertarismo

Livre associação

Que merda de liberdade

Acabaram com os sindicatos

Liquidaram as associações

Restaram as limitadas

Ações individuais

Individualistas

Só há sujeitos

Sujeitos a tudo

Não há humanidade

Só o desumano

As pessoas se abrigam

Em clãs

Nas famílias nucleares

Em si mesmas

Ensimesmadas

Ao ver que tudo o que cerca

É farpa

Preferem não fazer mutirão

Ou tem preguiça

Pra derrubar as farpas

E fazer um mundo

Pra todos

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Conto da Lana

 


Lana plana sacana na cama. Era só uma sonequinha de uma hora. Lana engana. Já faz mais de três horas pregada naquela beliche. A escada grudada de suor naquele dia de 50º. Lana coberta com lençol, cobertor. Deve estar com febre pensei. Nada! Queria brincar de sauna.

Lana sobe no coqueiro e pega dois cocos para nós! Nada! A essa hora já devia estar delirando de tanta desidratação. Fui eu mesmo colocar uma escada no coqueiro. Não dou conta de trepar na coisa. Já derrubei logo um cacho de cocos sem me preocupar se algum cairia na cabeça do cachorro ou de algum calango.

Pronto! Lá estão uns três ou quatro cocos no chão. Laninha vem cá beber uma água de coco! Nada da Lana! Fui eu lá levar um coco com canudo de papel pra menina beber. Agorinha termina meu turno e é hora dela ir pra frente da mercearia. Pronto! Deu duas da tarde! Saio eu, entra Laninha, a fofinha.

Vem toda faceira pra conferir o dinheiro do caixa. Tem uns poucos trocados da manhã. A grana mesmo já botei no cofre. Passa Tia Luna e dá oi: Oi, Laninha! Laninha nem! Laninha dá um breve aceno. O carteiro chega em ponto. Duas e cinco. Cinco minutos atrasado. Laninha deu os parabéns pelo atraso. Nunca tinha conseguido atrasar tanto.

Foi ver se no meio das contas tinha uma carta. Viu um monte de anuncio que o carteiro recolheu no caminho. Um monte de contas. Meu Deus! Esse mês vamos ganhar o suficiente para pagá-las? Vamos ficar sem a barraca na quermesse? Tudo se ajeita com o tempo... resignava-se ela.

Clientes pipocavam pelo balcão. Ninguém queria pipoca nesse inicio da tarde. Pediam café com leite. Pão na chapa. Roscas. Suco de laranja, de limão. Tapioca. Café da manhã essa hora? Não sabiam que já estava de tarde? Será que acordaram agora ou é algum fetiche? Talvez os funcionários do contraturno da usina. Trabalhavam das quatro às duas da tarde.

Mas os funcionários do contraturno não eram tantos. Muitos aproveitavam a oportunidade pra ver a espevitada. E lá estava Lana com seus parcos um e sessenta se esgueirando entre prateleiras, clientes e cobradores. Cobradores só eram três. Cobravam uma dívida do dono anterior que escafedera de lá. Já tinham perdido a esperança de receber, mas o café da mercearia era muito bom. Um arábica plantado numa fazendo próxima colhido com o máximo cuidado. Torrado ao relento e selecionado com o cuidado de quem faz café pra si mesmo.

Laninha ficava lá só das duas às seis, talvez sete. Depois fechava a mercearia. Só contava o dinheiro e colocava os elásticos. Não conferia. Ia pra academia pra manter a elasticidade pra contornar como agua aquelas pedras no caminho. E também pra ter um bom sono. Pra ter bons sonhos tomava um café com flor de laranjeira.

Isso é tudo! É o que me disse Lana. Lana engana. Mas quem não quer ser enganado por Lana?

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Confiar desconfiando



Pensar custa dois cafés. E café anda caro pela rua. Talvez ainda seja de graça em São Jorge, beira da Chapada dos Veadeiros. Provavelmente não. Possivelmente nem o vilarejo pacato no meio do nada seja mais. Talvez o ambiente civilizado numa bucólica vila exista mais. Talvez não seja mais possível andar liricamente pelo amplo espaço vazio.

Mas não é dessa liberdade e libertarismo que falo. São Jorge talvez esteja apenas na imaginação de todos nós brigando com o dragão na lua. Linda imagem que todos gostaríamos de que fosse real. Mas a racionalidade da maioria por inúmeras impossibilidades entende que não passa de um mito, uma metáfora.

É preciso ter fé em um enumerado de coisas senão não vivemos. Pra viver numa civilização temos que aceitar um acordo metafisico que poderíamos chamar de contrato social. Há vários deles. Todos temos restrições a eles. Mas nos submetemos a uma grande parcela deles em nome da sociabilidade.

Sim, eles podem ser questionados. E todos devemos questionar eles. Questionar a tudo, mas questionar, elaborar. Não querer o império da nossa vontade, do nosso desejo. Infelizmente São Jorge não pode lutar na lua com o dragão do pecado só porque é uma imagem linda, porque desejamos. Para que as coisas mudem deve-se ter uma boa razão para que mudem. Devem ter uma razão permanente até que outro arranjo melhor apareça. Uma razão momentânea não vale também por melhor que seja, pois o que é bom hoje, amanhã pode não ser.

Devemos confiar em parâmetros como os científicos? Claro! Enquanto são plausíveis. No momento em que se tornarem mais problemáticos que resolutos a própria ciência o abandonará. A ciência tem a verdade? Não, ninguém a detém.  Como bom filósofo sempre lembro que há veracidades, verossimilhanças, nunca a verdade, a não ser a inatingível dos platônicos, cartesianos que a tem como molde, moldura, não como conteúdo ou o inverso como essência inatingível pelo concreto, pelo material.

Confiar, desconfiando deveria ser um bom lema!

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Perdendo tempo

O Estado precisa ocupar o seu território inteiro. É questão de segurança, de soberania. É questão de educação e de saúde também. Não adianta dizimar mais do que Israel dizimou a população de gaza por dia ou a Rússia e a Ucrânia se abateram se não ocupar o território. Tomar para si de volta. Não importa quantos mortos um Estado ou Para-Estado produza se não se aquinhoar do território... não será dono dele. Criminosos como grileiros já sabem disso a mais de quinhentos anos. O Brasil foi fundado assim e tem terra tomada na mão grande rolando desde lá.

Se o Estado não levar segurança para o território ocupado perderá novamente o mesmo. Se levar só segurança e o poder paralelo levar saúde, nem falo de educação que é uma estrutura mais complexa, tende a perder a população pro tráfico ou milícia. Por muito menos: se ocuparem os morros e deixarem a gatonet (internet e tv paga) nas mãos do tráfico ou da milícia perderão o apoio os moradores.

Nem quero entrar na vaca-fria se deveria emboscar como emboscou e matar a quantidade que matou. Se houve execução (tiros pelas costas). Embora seja triste ignorar, ignoremos tudo isso. Na prática se não houver um plano de contingenciamento, fez-se um limpa para uns, um desastre para outros e não se mudou nada. Ignora-se mantidas as condições, os mortos serão facilmente substituídos pelo trafico ou pela milícia. O Estado terá cada vez mais dificuldade de suprir os seus.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...