Acompanham

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Depositei o voto na urna



Era uma vez

Era outra vez

A mesma

Com sinal trocado


A mesma epifania

Os mesmos personagens

Conto de fadas

Historinha pra dormir


Inventaram mitos

Tiraram todo heroísmo de si

Botaram num João-bobo de posto

Posto assim sem nenhum remendo


E a política que cada um devia fazer

Ficou na cozinha cozinhando o galo

Na espera por milagre sem fazer sua parte

Depositei o voto na urna

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Presente

Virei a esquina

Olhos à frente

Vejo novos cenários

Mas a rua antiga...

Está na minha mente

As boas lembranças...

As más esqueci

À frente bancas de revista

Restaurantes, bares

Lembro da velha mercearia

Piso em rua asfaltada

Mas meus pés não se esquecem

Da melada lama que os abrangia

Da grama que os acariciava

Dobrei a esquina

Mas não me dobrei

Memória no passado

Aspirações no futuro

Vida no presente

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Hegeliano

Nada desapareceu

Está tudo lá

Mas não importa

Se está tudo

Nada está fora

Nada se destaca

Não escolha

pra quem escolheu tudo

Cadê meu café?

Não, não quero café e chá misturados.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

6 x 1

Segunda-feira, segundas intenções

Descer a ladeia de segunda marcha

Comprar o veículo de segunda mão

Seguir a vida de segunda

Tecer terços pra segundar

A responsabilidade pra alguém

Seguir segundo lhe mandam

Pra securitizar a vida

Ou a não-vida

Tudo conforme a ordem

Pra na quarta-feira

Ou no quinto dos infernos

Esquecer de tudo isso

Se alienar

Não é minha culpa hoje ser segunda

Pra no sábado sabático

Sonhar com o feriado do próximo mês

domingo, 26 de outubro de 2025

Hoje é domingo, Seu Domingos

É domingo, Seu Domingos

Sábado já foi

A feijoada desceu

Só a breja ficou

Nada que uns dez ou vinte polichinelos

Se a tontura passar

O desequilíbrio

Não convém andar no muro

Ou melhor sobre o muro

O muro é boa bengala

Mas ninguém monta nela impunemente

Hoje é dia do rosário

A capelinha lá no monte

O bar na encosta da descida

Pra ouvir bom samba

Sobe na cantoria de Nossa Senhora das Graças

Desce no batuque da nossa senhoria do boteco

Desce um rasga-ventre?

Um torresminho?

Segunda é bater biela na ferrovia

Mas hoje é domingo, seu Domingos.

sábado, 25 de outubro de 2025

Desgosto

Acode o turno o trabalhador

Acorde o povo seja onde for

A pátria pare demasiado lento

Amamenta seu povo

O ventre da pátria rasgado

Costura-se com o que se tem

Um ponto pra cá outro pra lá

Um zigue-zague de caminhões, de trens

Cheira diesel no ar

O pouco trem é elétrico

Aviões de carga cruzam o país

O povo cá em baixo reza

Pra ter seu quinhão

Pra ganhar no bolão

Pra sobrar gorjeta do milhão

Pra salvar seu ofício da extinção

Pra tirar dos restos da mesa seu quinhão

Pra ter alguma rosa no esporão

Assim anda o povo

Sem transporte

Sem ofício

Sem perspectiva

Sem trilho a caminhar

E quem para é atropelado

Pelo trem, pelo caminhão, pelo avião

Pela vida

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Conto de Jack

 


Jack é Jack. Ninguém é Jack e ele odeia Skank. “Tequila é a mãe!”, diria ele. A mãe de todos os meus males. Nascera incomodado com uma musica para Jackie e não para ele. Jack é dinamite prestes a explodir. Preferia ser um zé, um zé ninguém. Mas não podia era um Jack, um uísque. 12? 16? 18 anos?

Seu nome era uma esculhambação, pensava. Seu pai, um abstêmio, cognominá-lo de Jack Daniels? Só faltava morar no 51º bairro de João Pessoa. Felizmente a capital da Paraíba não era tão grande pra ter tantos bairros. Escapara do 51, mas de morar na 79ª rua da cidade não. Mas Pirassununga é coisa de paulista. E João Pessoa não é muito enfronhado com paulistas como sabem. O nego da bandeira da Paraíba é a posição de não apoio aos paulistas pela continuidade da república velha.

Essa posição era compartilhada por Jack. Negava todos os convites para beber até a ultima hora. Preferia beber em casa uma garapa velha envelhecida em barris de aroeira e cega-machado. Descia rasgando a goela e o ventre como um bisturi cirúrgico cego e enferrujado.

Todo domingo tinha que ir na taverna da Naninha comer buchada e encontrar os patrícios aflitos com tanta salsinha. Não cabia um coentro? Naninha não era bem da terra. Nascera lá, mas... vivera uma vida toda nas minas mais gerais do Brasil, região entre Minas, Bahia, Goiás e, agora, Tocantins. Mas tirando algum excesso de cominho o prato era delicioso.

Jack tá aí, perguntavam seus detratores. Não tinha muitos. A não ser na família. Já que tá aí, me traz um golinho da tua pinga. Já que tá aí, me diz qual é a boa. Um poço infindável de azucrinações. Tinha muitos Daniels em casa. 18, 21 anos. Mas só abria nas ocasiões especiais.

Preferia correr na praia. Não corria muito. Só nas meio-maratonas. Mas essas eram muito pouco frequentes. Treinava todos os dias de manhã e de tarde. À noite só queria dormir se desse conta. Mas essa não era sua especialidade. Tinha que acostumar a ler os anúncios da madrugada depois de ler dois ou três livros.

Acordava com o carro da pitanga ou o de suco de murici. Saía pra praia sem luz pra treinar. Tinha que cochilar até os primeiros fios de sol pelas quatro horas. Logo às cinco treinando era um pleno clarão de cegar os olhos. Esquecera novamente o incômodo óculos de sol. Na verdade, não sabia se era melhor levá-lo ou esquecê-lo.

Pronto! Jack lá pode começar o dia e eu posso me mandar. Fazer o quê? A vida é essa mesmo: correr na praia, beber agua de coco, comer buchada aos domingos. Uma baita dificuldade...

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...