Nada desapareceu
Está tudo lá
Mas não importa
Se está tudo
Nada está fora
Nada se destaca
Não escolha
pra quem escolheu tudo
Cadê meu café?
Não, não quero café e chá misturados.
Linhas de um pseudofilósofo menor nas formas possíveis das coisas sem essência e concretitude. Os contos alfabéticos viraram livro em fevereiro de 2026. Vim do passado pra dizer.
Nada desapareceu
Está tudo lá
Mas não importa
Se está tudo
Nada está fora
Nada se destaca
Não escolha
pra quem escolheu tudo
Cadê meu café?
Não, não quero café e chá misturados.
Segunda-feira, segundas intenções
Descer a ladeia de segunda marcha
Comprar o veículo de segunda mão
Seguir a vida de segunda
Tecer terços pra segundar
A responsabilidade pra alguém
Seguir segundo lhe mandam
Pra securitizar a vida
Ou a não-vida
Tudo conforme a ordem
Pra na quarta-feira
Ou no quinto dos infernos
Esquecer de tudo isso
Se alienar
Não é minha culpa hoje ser
segunda
Pra no sábado sabático
Sonhar com o feriado do próximo mês
É domingo, Seu Domingos
Sábado já foi
A feijoada desceu
Só a breja ficou
Nada que uns dez ou vinte polichinelos
Se a tontura passar
O desequilíbrio
Não convém andar no muro
Ou melhor sobre o muro
O muro é boa bengala
Mas ninguém monta nela impunemente
Hoje é dia do rosário
A capelinha lá no monte
O bar na encosta da descida
Pra ouvir bom samba
Sobe na cantoria de Nossa Senhora das Graças
Desce no batuque da nossa senhoria do boteco
Desce um rasga-ventre?
Um torresminho?
Segunda é bater biela na ferrovia
Mas hoje é domingo, seu Domingos.
Acode o turno o trabalhador
Acorde o povo seja onde for
A pátria pare demasiado lento
Amamenta seu povo
O ventre da pátria rasgado
Costura-se com o que se tem
Um ponto pra cá outro pra lá
Um zigue-zague de caminhões, de trens
Cheira diesel no ar
O pouco trem é elétrico
Aviões de carga cruzam o país
O povo cá em baixo reza
Pra ter seu quinhão
Pra ganhar no bolão
Pra sobrar gorjeta do milhão
Pra salvar seu ofício da extinção
Pra tirar dos restos da mesa seu quinhão
Pra ter alguma rosa no esporão
Assim anda o povo
Sem transporte
Sem ofício
Sem perspectiva
Sem trilho a caminhar
E quem para é atropelado
Pelo trem, pelo caminhão, pelo avião
Pela vida
Jack é Jack. Ninguém é Jack e ele odeia Skank.
“Tequila é a mãe!”, diria ele. A mãe de todos os meus males. Nascera incomodado
com uma musica para Jackie e não para ele. Jack é dinamite prestes a explodir.
Preferia ser um zé, um zé ninguém. Mas não podia era um Jack, um uísque. 12?
16? 18 anos?
Seu nome era uma esculhambação, pensava. Seu
pai, um abstêmio, cognominá-lo de Jack Daniels? Só faltava morar no 51º bairro
de João Pessoa. Felizmente a capital da Paraíba não era tão grande pra ter
tantos bairros. Escapara do 51, mas de morar na 79ª rua da cidade não. Mas Pirassununga
é coisa de paulista. E João Pessoa não é muito enfronhado com paulistas como
sabem. O nego da bandeira da Paraíba é a posição de não apoio aos paulistas pela
continuidade da república velha.
Essa posição era compartilhada por Jack. Negava
todos os convites para beber até a ultima hora. Preferia beber em casa uma
garapa velha envelhecida em barris de aroeira e cega-machado. Descia rasgando a
goela e o ventre como um bisturi cirúrgico cego e enferrujado.
Todo domingo tinha que ir na taverna da
Naninha comer buchada e encontrar os patrícios aflitos com tanta salsinha. Não
cabia um coentro? Naninha não era bem da terra. Nascera lá, mas... vivera uma
vida toda nas minas mais gerais do Brasil, região entre Minas, Bahia, Goiás e,
agora, Tocantins. Mas tirando algum excesso de cominho o prato era delicioso.
Jack tá aí, perguntavam seus detratores. Não tinha
muitos. A não ser na família. Já que tá aí, me traz um golinho da tua pinga. Já
que tá aí, me diz qual é a boa. Um poço infindável de azucrinações. Tinha
muitos Daniels em casa. 18, 21 anos. Mas só abria nas ocasiões especiais.
Preferia correr na praia. Não corria muito. Só
nas meio-maratonas. Mas essas eram muito pouco frequentes. Treinava todos os
dias de manhã e de tarde. À noite só queria dormir se desse conta. Mas essa não
era sua especialidade. Tinha que acostumar a ler os anúncios da madrugada
depois de ler dois ou três livros.
Acordava com o carro da pitanga ou o de suco
de murici. Saía pra praia sem luz pra treinar. Tinha que cochilar até os primeiros
fios de sol pelas quatro horas. Logo às cinco treinando era um pleno clarão de
cegar os olhos. Esquecera novamente o incômodo óculos de sol. Na verdade, não
sabia se era melhor levá-lo ou esquecê-lo.
Pronto! Jack lá pode começar o dia e eu posso
me mandar. Fazer o quê? A vida é essa mesmo: correr na praia, beber agua de coco,
comer buchada aos domingos. Uma baita dificuldade...
Utopia não é outra pia
Não é miopia
Nem astigmatismo
Talvez alguma presbiopia
Porque concentra a visão
Aumenta o desconhecido
Utopia é um alvo
Lá na frente
Imaginado
Não visto
Que leva ao poeta dizer
Que o caminho se faz caminhando
Porque o horizonte imaginado
Nunca é o mesmo
É o rio de Heráclito
Mas no qual não se banha
Se sonha banhar
É um alvo
Miragem
Se me fosse dada outra vida
Renunciaria
Se me dada esta
Recortaria
Não me compete ser quem não sou
Me cabe desejar ser
Mas ninguém é
Ser é autoilusão
Estou
Simplesmente um movimento
Eterna construção
Partida sem chegada
Utopia
“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...