Certa vez, ao chegar perto do buraco branco,
Coronel Josias desfiava seus rosários de contos, causos e anedotas quando viu o
que nunca tinha visto: o invisível, algo que para ele definitivamente não
existia. Aquele ocorrido lhe parecia como se ele tivesse fisgado um rio com sua
módica vara de pescar. Uma vara cuja linha já tinha estado em contato intimo
com praticamente todos os rios daquele sertão.
Vivia ele
naquele deserto de gente, oceano de perigos, sem perceber que o isolacionismo
era uma doutrina sua. Uma idéia que havia criado para si mesmo. Se às vezes
atravessava o muro e se debatia em uma convulsão de vozes era tão somente para
se preencher daqueles pequenos ecos do silêncio que precedem e intermeiam as
falas. Mas como numa metrópole o silêncio é quase absoluto ao tentarmos
impudicamente achar significados para as palavras soltas, ele ia, ficava algum
tempo e logo se enfadava. Não conseguia travar qualquer discurso exterior a seu
mundo.
Logo voltava a
sua selva particular e fechava o portão de qualquer externidade. Sentava-se em
sua cama, bem de frente a uma pequena mesa onde se podia facilmente avistar uma
pequena máquina de escrever, e retomava seus pesadelos. Era o que tinha de mais
orgânico em sua intensa artificialidade. Dizia ele: sonhar é para fracos, quem
é digno de se chamar ser humano deve saber enfrentar os pesadelos. E os caçava.
E os tinha. Dia-a-dia cada vez mais profundos e desafiadores.
Coronel Josias,
cético como era só acreditava no que via ou no que presenciara. Tanto que
renegava um filho que nasceu no hospital. Não vira seu nascimento. Não sabia se
ele era filho pelo menos de sua ex-mulher. Bom... mas isso pouco importa porque
ele renegara a sua família, a qual fazia questão de dizer a todos que quisessem
ouvir que não a tinha. A família é que quisera ter ele. Mas isso é outra coisa
que não muda nada a nossa história, nem a do personagem, pois ninguém se
disporá a ouvir sobre a família dele, nem sobre nada que ele falasse em sua
estranha maneira de conceber o mundo.
O certo mesmo é
que todo dia ele tentava contato com o mundo exterior e tomava todas as
iniciativas para se isolar. Passava toda as manhãs das terças, quartas,
quintas, sábados e domingos escrevendo seus pesadelos. Nas tardes de
segunda,quarta, quinta, sexta, sábado e domingo os tinha. Nas manhãs de segunda
e sexta ele contava seus pesadelos para ninguém e era ovacionado sempre por
calorosas palmas de silêncio. Nada lhe agradava mais. À noite ele curtia
prazerosamente sua costumeira insônia e aproveitava para ter pesadelos nos
breves intervalos que esta lhe cedia. Acreditava ele os pesadelos da noite
serem os mais elaborados.
Há anos vivia
naquele mundo imaginário. Um mundo intenso da única presença que suportava: a
dele mesmo. Criara um deserto humano para seu maior conforto. E desde então,
sem nenhum intervencionismo que não seja o dele próprio, começou a brigar com
seus monstros internos numa intensa e incessante batalha à qual ele faz questão
que não hajam vencidos, nem vencedores.
Ele era
considerado uma incógnita por todos que conseguiam se aproximar e desconhecê-lo
um pouco. Poucos o conseguiam, é verdade. Mas para os escassos que tiveram
acesso algum dia a figura, praticamente nada lhes adiantava senão para terem
uma noção do desconhecido, caótico e impreciso.
Já construira e
desfizera milhares de contos naquela sua precisa maquina de escrever uma letra
sim, outra não. Tinha um intenso orgulho de sua transitoriedade enquanto um ser
absoluto em sua existência. Sabia que seu fim não seria tão providencial para ninguém
como seria para si mesmo. Enquanto isso curtia intensamente suas dores, temores
e medos como causa necessária da particular beleza que criara para si mesmo.
Sabia que ninguém em seu mundo solitário poderia ser tão corajoso quanto ele.
Não que isso tivesse alguma importância para ele. Classificações, catalogações
lhe causavam ate ânsia de vomito. Maniqueísmo então, tinha um nojo profundo
dele.
Passava os dias
em profunda apreensão, como cabia a seu espírito inquieto e profundamente
angustiado. Havia um certo heroísmo em conviver com os inúmeros, seqüentes e
renovados temores sem necessitar vencer, nem se dobrar a eles. Ele na verdade
não acreditava em vitórias, conseqüentemente também não existiam derrotas para
ele. Nada disso lhe era palpável. Nada disso existia então.
Tudo corria
muito bem até aquele dia em que ele presenciou o nada existencial. Uma
experiência que lhe foi mais profunda do que todas as que tivera até ali. Todo
o seu ceticismo caíra diante do nada absoluto. Teve a vontade de sair por aí
bradando expressões inexplicáveis e acreditar naquelas vozes exteriores que não
diziam nada. A partir daquele momento seus significados não preocupavam mais
com o significante e qualquer ruído lhe era um sinal, um aviso. Foi internado
em algum desses hospitais psiquiátricos com o diagnóstico de excesso de
lucidez.
Bom... pelo menos foi essa a versão da história que
contaram pra mim. Embora tenha muitos motivos pra acreditar me reservo o
direito de duvidar de qualquer escrito fora das normas da ABNT e que não esteja
de acordo com o paradigma positista-funcionalista-estruturalista. Não tem que
ter certificação pra ser verdade? Não acredito mais em conversas de falantes
não certificados. Aliás ao tomar essa sóbria medida não vou poder acreditar em
nada até que alguém venha garantir a qualidade do falante. É até capaz começarem
a imprimir data de validade para seres humanos.
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