A relação entre a onipresença da política e a morte da política na interpretação de Hannah Arendt é um assunto que envolve a crítica à modernidade, à totalização da esfera pública e à perda da liberdade política autêntica. Hannah Arendt alerta contra a tentação hegeliana de ver o Estado como o "fim da história". Fim no sentido teleológico de finalidade. Para ela, a política não é um sistema a ser completado, mas um espaço aberto que depende da ação contínua e da preservação de limites entre o público e o privado.
Na leitura de Arendt, a onipresença da política como previu Hegel significa sua morte porque:
1. Elimina a pluralidade: A política requer diferenças e debates, não uniformidade.
2. Transforma ação em administração: Quando tudo é político, nada é propriamente político.
3. Destrói a liberdade: A liberdade autêntica exige um espaço público delimitado, não a invasão total da vida.
Para Hegel, a política está intrinsecamente ligada ao ápice do Estado racional, o Estado Moderno, que inaugura a burocracia racional, uma máquina praticamente independente das subjetividades. É bom lembrar que viam de tiranismos e despotismos nada ilustrados. Este modelo de Estado é entendido como a culminação do Espírito Objetivo, onde a liberdade individual se reconcilia com a universalidade ética. Nesse sentido, o indivíduo é livre quando reconhece a racionalidade do Estado e age em conformidade com ele.
Arendt, por outro lado, define a política como o espaço da ação e do discurso entre seres livres e plurais. Para Arendt, a política só existe na esfera pública, onde os indivíduos agem e revelam quem são, criando um mundo comum. Portanto, a liberdade política é ação, não obediência. A liberdade é capacidade de começar algo novo e de participar ativamente na construção do mundo.
- Para Arendt, a modernidade confundiu política com administração social. Quando a política se transforma em economia política acaba se tornando uma gestão técnica. O Estado hegeliano, ao englobar tudo, reduz a política a um sistema burocrático, eliminando a espontaneidade e a pluralidade que a definem.
Arendt rejeita a teleologia hegeliana (a ideia de que a história tem um fim predeterminado). A onipresença da política, na visão hegeliana, culminaria em um Estado, onde a ação humana é substituída por processos históricos inevitáveis. Isso representaria a morte da política, pois não haveria mais espaço para o novo, o imprevisível ou o debate entre perspectivas plurais.
Para Arendt, a política só sobrevive se distinguir da economia (o privado, o social, o íntimo). Quando a política se torna onipresente:
- Perde-se a distinção entre liberdade e necessidade: A ação é substituída pela administração.
- A pluralidade é sufocada: Sem diferenças e conflitos legítimos, não há política, apenas dominação.
- O Estado se torna uma máquina sem abertura para a novidade ou a liberdade criativa.
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