Acompanham

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Miragem

Utopia não é outra pia

Não é miopia

Nem astigmatismo

Talvez alguma presbiopia

Porque concentra a visão

Aumenta o desconhecido

Utopia é um alvo

Lá na frente

Imaginado

Não visto

Que leva ao poeta dizer

Que o caminho se faz caminhando

Porque o horizonte imaginado

Nunca é o mesmo

É o rio de Heráclito

Mas no qual não se banha

Se sonha banhar

É um alvo

Miragem

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Utopia

Se me fosse dada outra vida

Renunciaria

Se me dada esta

Recortaria

 

Não me compete ser quem não sou

Me cabe desejar ser

Mas ninguém é

Ser é autoilusão

 

Estou

Simplesmente um movimento

Eterna construção

Partida sem chegada

Utopia

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Democragia ou Hemocracia?

Turbas pelo mundo

Pedem mais direitos

Melhores serviços

Nada mais justo

Mais democracia pensaram

Mas democracia não é rapidez

É lentidão

É ouvir todos

Não decidir abruptamente

Melhores serviços não são os instantâneos

Mas os mais bem realizados

Confundiram administração com política

Defenestraram a democracia

Pois a democracia é ouvir todos

E desagradar a todos instantaneamente

Por um bem comum futuro

De fazer o possível

E o impossível às vezes

No período mais democrático do mundo

Colocaram em coma a mesma

Será que em soluços a tal reacorda?

Haverá reacordo?

Ou teremos que caçar nazistas novamente?

Sufocar stalinistas? Não. Esses morreram.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Vinil

Se fosse, ficaria a dois palmos da chegada

Se ficasse, chegado cá estava

Se o caminho tem voltas

Elíptico ou cilíndrico

O centro é exógeno

O caminho varia

Infere constante mudança

Na vitrola agulha grita

Bailando de um lado a outro

De uma interminável trilha

Do externo pro interno

O jardim de notas

Mistura-se

Com alguma regularidade

O bufão bufa

Sopranos e baixos se intercalam

Floreando o ritmo das bufas

domingo, 19 de outubro de 2025

Alma

Uma pedra tropeçou em mim

A colori de vermelho

Tingiu-se de vergonha?

Ou serão coisas da vida?

Uma vida bruta, com certeza

Não a da pedra, a minha

A pedra não tem vida

O embrutecimento não a deixa viver

Está lá parada no mesmo lugar

Com as mesmas perspectivas

A mudarão se a chutarem de lá

Ganharia um impulso

Mas poucas mudanças

Lavei-me

Lavei a pedra

A água fluiu

A pedra já não está no mesmo lugar

Já não é mais a mesma

Moveu-se

Agora tem ânima ou alma

sábado, 18 de outubro de 2025

Samba do lixo

Subiu a ladeira descendo as escadas.

Quis ignorar tudo o que não sabia

Entregou-se a liberdade

Solto em plena segunda-feira de oficio

Captou o incapturável

Na sexta prendeu-se a uma mesa de bar

Bebeu o intragável

Respirou o enfado

Dançou a música portuguesa

Tropeçou no argumento

Se levantou vitorioso

Perdera a primeira

Mas a segunda dose estava lá

A primeira o santo bebera

A terceira ninguém bebeu

A quarta, o quarto tinha dono

A quinta foi pros quintos

A sexta estava lá disponível pra quem acertar

Todo o lixo na rua

Na segunda, basculante do lixo e samba pra limpar

Sábado dorme, domingo abençoa, batiza o lixo

Na segunda a cuica geme e o tamborim retruca

O agogô sofre e passo a passo desviando do lixo

A limpeza publica a recolher

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Conto da Isadora

 


Isadora namora, namora ninguém. Isadora adora, adora um amém. Essas eram algumas das frases dirigidas a Isadora. Fervorosa defensora dos animais, não se incomodava com as indevidas comparações com Francisco de Assis, o santo italiano. Mas lhe incomodava a santidade. Aturdia a sanidade.

Dorinha com suas centenas de cães baldios e seus 1,80m pelejava para se adequar aos lugares. A frestas eram sempre muito curtas. Os lugares muito apertados para seus súditos vira-latas. Era um incômodo pra vila. Intensas brigas com a administração local.

Acusavam-na de trazer cachorros da cidade para a Vila. Atazanavam-na pelo aumento de cachorros, mas a principal defensora da esterilização dos cães era ela. Os vilões vilipendiados achavam um absurdo gastar tanto dinheiro. Vilão é habitante de vila. Preferem que gaste com a limpeza pública pra limpar os dejetos dos animais.

A vilaneza da vila era uma característica intrínseca. Não demorou a ser criado um esquadrão da morte. O departamento até tornou a caça de cães legal. A subprefeitura chegou a pagar R$ 0,15 por corpo de animal morto. O departamento de cremação chegou a não conseguir mais cremar corpos. Corpos de humanos, digo. Os jazigos nos cemitérios começaram ser ocupados com mais velocidade pela impossibilidade de se cremar.

Na falta de cemitério público os particulares passaram a cobrar mais com base na lei da demanda e da oferta. Os hospitais tiveram mais demanda, sobretudo os prontos-socorros com uma coleção de balas achadas pra tirar. As perdidas ficavam pela rua e, de vez enquanto, um incauto achava.

Por muito pouco não matavam Dorinha. De bala ou de coração. Ou de fome. Isadora passava os dias caminhando pela Vila. Não dormia. Não comia, não bebia água senão a de um dia de chuva. Quase morreu várias vezes. Escapou de tiros mortais mais de uma vez. Mais por destino que por pretensão.

Os habitantes sabiam também que se a matassem tornariam-na um mártir. A padroeira dos cachorros na Vila. E, detalhe, a vila tinha muito mais cães que gente. Ficariam em minoria. Logo se estabeleceria uma romaria da cidade pra vila pra cultuar Santa Isabela dos cachorros do vilarejo. Isabela mesmo. Não Isadora. Mudariam o nome da santa pra esquecer o nome da outra.  

Escapou da exaustão final por vários tiros. Quando era socorrida, uma ampola de soro salvava-a da inanição. Sua vida estava em contraponto a vilaneza. O que os vilões e vilãs necessitavam eram o oposto de seus desejos. Estavam em pleno contraponto, mesmo quando algum cão salvava uma criança de ser atropelada. O condutor reclamava dos danos em seu veículo. Ninguém jogava um biscoito canino pro herói. Até porque era proibido vendê-los na vila.

Cansei... santa ou diaba essa é a história de Isadora, a Dorinha dos cachorros.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...