Se voar faz parte,
Cadê minhas asas?
Cortaste devidamente
Não cabe no inferno
Ser um anjo
Ou cabe?
O que cabe ou não cabe
Não me interessa
Fostes insipida
Inodoro eu fui
Trocamos
Não cabe ter asas no covil
Cabe ter chifre?
Linhas de um pseudofilósofo menor nas formas possíveis das coisas sem essência e concretitude. Os contos alfabéticos viraram livro em fevereiro de 2026. Vim do passado pra dizer.
Se voar faz parte,
Cadê minhas asas?
Cortaste devidamente
Não cabe no inferno
Ser um anjo
Ou cabe?
O que cabe ou não cabe
Não me interessa
Fostes insipida
Inodoro eu fui
Trocamos
Não cabe ter asas no covil
Cabe ter chifre?
Derrapei no caminho
Perdi o sol
Rolei na lama
Faltou água
Me enxuguei no vento
Formou crosta
Me quebrei no cipó
Sujou o açude
Passei sabão
A roupa era branca
De marrom virou cinzas
O fogo apagou
Voltei pra casa
Eu cá no domingo
O povo lá no Domingos
Não me animo
Nem me desespero
A cachaça é boa
Mas a calma é ébria
O samba é bom
Mas o silêncio...
Domingos é lá na esquina
Minha mente vai mais longe
Chegará o dia de Domingos
Por hora cá estou
No meio do caminho há fins
No final só desilusão
No início não havia nada
No meio do meio-fio há fios
No final mera combustão
No início uma subestação
No meio da noite insônia e desilusão
No final alguma conclusão
No início breja e torresmo
No meio, no final e no início não havia
Havia tudo
Nada que não pudesse ser feito
Guilherme Tell, ou Guilherme de Tell, foi um arqueiro
famoso cantado em prosas e verbos pelo mundo ocidental todo. Mas nunca foi nem
a sombra de seu bisneto Guilherme de Tal, que não precisava de frutas tão
vistosas como uma maçã para acertar a poucos quilômetros de distância. Coisa de amador! Gostava de cortar longitudinalmente
fios de cabelo arremessando do arco pequenas agulhas para infligirem módicos
furos em fios de cabelos em sequência.
Com tamanha precisão não podia trabalhar num
castelo, nem mesmo num teatro. Precisava se exibir num circo de pulgas. Era
preciso uma micro atenção, uma visão microscópica para sua arte. Só mesmo com a
ampliação de milhões de vezes numa tela era possível se maravilhar com tamanha
destreza. Era muito complicado! Confundiam arte milimétrica com minimalismo.
Tinham que ampliar milhões de vezes num telão para
as pessoas verem. Tanta destreza e eficácia dificultava tudo. Não era uma
habilidade que lhe sustentaria por muito tempo. Virou chefe de cozinha
molecular. Assim podia fazer seus malabarismos e se exibir em pratos exóticos acuradamente
calculados. Reações vistosas e belas.
Adorava fazer luzes, controlar luzes. Ver as
mudanças de cores, odores, sabores. Mudar texturas. Transformar a culinária em laboratório
para fazer malabarismos. Lançar temperos aos pratos com precisão milimétrica.
Virar omeletes, tortas, tortilhas, panquecas... Arremessar pratos às mesas.
Chegava todo dia de madrugada na cozinha pra
treinar os seus novos truques, testar composições. Se divertir com cores,
odores e sabores. Depois ia a feira quase no amanhecer pra fazer malabarismos
com frutas e verduras. De volta a cozinha picava os ingredientes em diferentes
formas e texturas. Tirava um cochilo num quartinho ao fundo da cozinha. O restaurante
só abria uma hora da tarde.
Quem quisesse provar só tinha das 13h ás 17h
pra aproveitar. O restaurante ficava aberto até às 22h mas o artífice era
outro. Guilherme era irredutível com o horário de trabalho: das 3h ás 9h, das 12h
às 17h. Dia sim, dia não. Nos dias não treinava em casa a tarde inteira os
arremessos de pratos com o arco.
Era uma espécie de teste de qualidade dos
pratos. Era o maior descobridor dos lotes com defeitos. As louças eram testadas
com muita delicadeza. Pois ele sabia fazer os pratos aterrizarem com maior cuidado
que se fossem colocados com a mão na mesa. Também testava os forros de mesa pra
descobrir se eram lisos o suficiente para serem retirados sem mover o que estava
acima deles.
Uma rotina muito regular que não permite o
descanso de Guilherme que aliás já me confidenciou que é o momento. Boa noite, Guilherme!
Bom dia leitor. Eu sigo minha insônia por aqui, mas não nesse texto. Descansem!
Quanto mais me despeço
Mais me prendo
À um futuro aberto
À prisão das lembranças
Quanto mais me desprendo
Mais preso estou
Às ações futuras
Aos acertos do passado
Se a locomotiva chega
Traz consigo um monte de vagões
À frente trilhos inexplorados
Nos vagões muita carga
A variedade quase sempre renega a qualidade dos produtos, cria a impressão de que tudo é uma porcaria ou pior ainda que tudo é a mesma porcaria. Quando há pouca variedade de oferta a qualidade é muito mais destacada. Não digo que os produtos se tornam melhores, mas que se torna muito mais fácil comparar um e outro. Tendemos a escolher o de melhor qualidade.
Quando há
variedade, sobretudo muita variedade, fica difícil comparar e se encontramos
uma variedade de produtos ruins. Basta serem dez ou vinte porcento, tendemos a
perceber que a maioria é ruim, quando não todos são ruins. Aí se destaca o preço
como um diferencial perceptível cuja a variedade naturalmente provoca e ofusca
a qualidade.
Podemos estender
isso pra uma série de coisas quando se amplia a oferta: música, séries, filmes.
Nem preciso discutir os produtos físicos com a sua validade. A questão de moda
ou de caducidade. Retirando a questão da memória afetiva que tende a ressaltar as
qualidades e esconder os defeitos que interfere absurdamente nessa questão,
dizer que as músicas de ontem ou os filmes de ontem são melhores que os atuais
é afetado pela disponibilidade.
Sem dúvida a
questão da concorrência faz com que se fabrique cantores, cantoras, grupos e músicas
pra fazerem sucesso mesmo que momentâneo. Mas isso não é nada novo. Boys Band
são criadas há décadas. Quando eram em menor quantidade, quando gravar não
tinha se popularizado tanto tinham que ser melhores porque senão nem gravavam a
principio e se gravassem era relativamente fácil comparar as obras com parcimônia.
Não havia tantas para apreciar.
“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...