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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Conto de Eleanor

 


Leninha, ou Eleanor como chamava seu pai, era uma moça muito linda, uma boneca. Boneca era como era chamada por sua avó. A vó achava que as bonecas de pano com cabeça de plástico eram as coisas mais lindas que existiam. Eu, intruso narrador, nem de longe acho. Leninha não sabia. Nunca tivera uma boneca de pano. Não conhecia a imagem pois toda imagem lhe mostrada a vó dizia que não era essa da qual se referia.

O nome da menina era homenagem a Anna Eleanor Roosevelt, uma ex-primeira-dama dos Estados Unidos. Mulher de Franklin Delano Roosevelt e que coordenou a criação da Declaração dos Direitos Humanos na ONU. Leninha pouco se importava. Preferia que tivessem a nominado Anna, primeiro nome da homenageada. Achava Eleanor muito fru-fru, muito pomposo. Ana era mais simples.

Por sorte ganhou o apelido de Leninha nas queimadas na rua. Em casa não conseguia escapar da futilidade da pequena ética. Era chamada sempre pra tomar chá com bolo ou biscoito e experimentar toda aquela cena, aquele traquejo sem futuro. Aquela perda de tempo.

Sua única saída era a rua pra brincar de queimada ou de taco. Ou quando podia ir pra praça com o avô pra ver ele jogar dama. A rua não tinha frescura. As pessoas não eram obrigadas a hipocrisia. Não que fossem sempre sinceras, mas não eram sempre falsas. Não pediam desculpas a faca por terem se cortado.

Leninha era celestial, um anjo torto. Era perfeita por nunca procurar ser perfeita. Mais errava que acertava, porém sem nenhuma intencionalidade. Seus erros eram os mais sinceros. Sua sinceridade era cândida e não agressiva. Amava de todo o coração quase todos e isto era muito evidente. Não precisava esconder nada.

Não ambicionava nada mais que usufruir o presente. Não guardava doces. Comia e distribuía os seus logo. Não pensava no amanhã. O dia seguinte é um novo dia. Alguém vai garantir. Se ninguém resolver, eu arrumo. Ansiedade era um negocio que passava longe de Leninha. Não tinha nenhuma saudade de amanhã.

Vivia sua vida sem pressa e sem previsão. Sem pressão. Se tivesse queimada jogava. Se não tivesse jogava bete sem nenhum problema. Se não tivesse nenhum dos dois, brincava do que tinha. Até de pega-pega ou pique-esconde que não gostava muito. Na escola estava aprendendo um tal de handebol. Um jogo esquisito com dois times, mas que não podia queimar o adversário, nem o goleiro, pois o objetivo era desviar a bola do goleiro pra fazer gol. Ainda tinha que ficar dando passes ou quicando a bola no chão.

Era sempre escolhida por arremessar muito forte e bem, mas não gostava daquele jogo. Era estranho pra quem brincava tanto de queimada. Arremessar desviando dos outros. Ficar andando pra lá e pra cá. Agarrar e ser agarrado pra fazer falta e impedir deslocamentos. Preferia trocar figurinhas no recreio.

Saia cedo pra escola. Corria em casa pra fazer as tarefas. Pra isso comia depressa e pouco comia. Fazia de tudo pra terminar o mais cedo possível, dormir uma soneca com seu cãozinho Bilú, e sair pra rua lá pelas quatro pra brincar. Essa era mais ou menos a rotina antes do chá das seis de mentirinha, mas enfadonho, chato, bisonho. Depois era logo dormir pra chegar o outro dia.

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